
Fernando Pinto disse que as greves são do século passado. Atendendo a que uma afirmação deste jaez é própria de um troglodita, lembro ao administrador delegado da TAP (que tivemos de ir buscar ao Brasil, por razões que ultrapassam a minha capacidade de raciocínio),que a greve é a única forma de protesto que resta aos trabalhadores, antes de entrarem na via do desespero que pode conduzir a convulsões sociais que ninguém deseja. Quer isto dizer que compreendo a greve dos pilotos da TAP? Nem de longe, nem de perto… mas aceito-a como um direito inalienável dos trabalhadores. Mas se alguém me conseguir explicar, muito bem explicadinho, por que razão uma das classes profissionais mais bem pagas deste país ( salários mensais a rondar os 8500 euros, acrescidos de uma série de regalias pessoais e familiares) se prepara para fazer uma greve de seis dias, talvez mude de opinião.Até lá, proponho-vos uma reflexão: justifica-se a existência de um sindicato dos pilotos?
Dou desde já a minha opinião sincera e frontal. Não!A génese dos sindicatos radica na luta de classes, quando hordas de trabalhadores explorados perceberam que era chegado o momento de dizer basta a um patronato que pagava salários de miséria e exigia horários laborais indignos. Dir-me-ão que retrocedemos e voltamos a esses tempos. Certo! Mas isso não se aplica aos pilotos. Têm salários principescos e não se pode dizer que o horário de trabalho seja muito exigente. Como se justifica que exijam aumentos salariais de 7,9%, quando a maioria dos trabalhadores portugueses tem os seus salários congelados e os restantes trabalhadores da TAP vão ter um aumento ( acordado entre administração e sindicatos) de 1,8%? A resposta é simples: os pilotos são profissionais privilegiados , sem consciência de classe, que utilizam o sindicato como arma de arremesso. Marcar uma greve de seis dias para um período em que a TAP mais factura, é contribuir para a destruição da empresa – que é uma das marcas portuguesas de maior prestígio além fronteiras- e pôr em causa os postos de trabalho de milhares de trabalhadores. É falta de consciência política e social.
Chamem-me o que quiserem, mas não posso deixar de dizer isto: a legislação que permite a classes privilegiadas organizar-se em sindicatos para boicotar e destruir uma empresa, equivale a oferecer uma arma a um bandido que pretende assaltar um banco. Há certas classes profissionais a quem o sindicalismo deveria estar vedado. Urge alterar a legislação e proceder à higienização da democracia que o ultraliberalismo selvagem reduziu a um conceito balofo. A greve da TAP não é luta de trabalhadores. É luta de um grupo de privilegiados que conspurcam a democracia, aproveitando de forma ignóbil ( e oportunista)os mecanismos que ela criou para defender os mais desfavorecidos.
Adenda: Este post foi pré agendado e pode acontecer que entretanto a greve da TAP tenha sido cancelada. De qualquer modo, a questão de fundo aqui abordada continua a ser pertinente. Sindicatos dos pilotos: sim ou não?
Esta greve 'amarela' (entretanto desconvocada)faz lembrar algumas greves dos maquinistas da CP, manipuladas pela "Direita" e contra os ferroviários.
ResponderEliminarConcordo: não se entende uma greve por parte dos pilotos, com essas reivindicações! Nem se percebe o porquê de um sindicato de uma classe privilegiada...
ResponderEliminarCarlos, a resposta não é fácil. Opto, pelo "nim" ou seja para que as coisas fiquem quase como estão. Será uma maior consciência cívica que terá que moderar as coisas. Concordo a 100% com tudo o que disse até à parte que propõe a mudança legislativa. Por uma única razão: tarde ou cedo, tal seria aproveitado para alargar a outras, e a outras e depois a outras classes, a redução das liberdades e direitos. Compreendo que se insurja, mas temo consequências que não gostaria de ver concretizadas em nome da higienização da Democracia.
ResponderEliminarPS: A greve foi desconvocada, como julgo que entretanto terá sabido.
Sindicato dos pilotos sim, o que não significa que concorde com esta greve. A mesma lógica de raciocínio se poderia estender às confederações patronais. Não é certamente por aí o caminho.
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