Segunda-feira, 22 de Março de 2010

E se a água não brotar das torneiras?


Habituados que estamos ao gesto quase automático de abrir a torneira várias vezes ao dia, irritamo-nos quando delas não jorra nem uma pinga, porque alguma avaria, ou deficiência no abastecimento, a impede de circular livremente, mas não nos passa pela cabeça que um dia a água deixe definitivamente de chegar a nossas casas e das torneiras não brote nem uma pinga. Mas a ameaça é real!
Já em 1995 o INAG ( Instituto da Água) alertava para a necessidade de os portugueses pouparem água, “ corrigindo os maus hábitos de desperdício”. Apesar da meritória intenção da campanha então realizada, os portugueses parecem nem ter perdido os maus hábitos de gastar água desenfreadamente, nem adquirido o bom hábito de beber diariamente em doses regulares cerca de 2 litros de água, quantidade necessária para restabelecer a que perdemos nas nossas actividades quotidianas.O assunto, repito, é demasiado sério para que continuemos a ignorar os sucessivos avisos que nos são transmitidos para pouparmos água.
Na Cimeira sobre Desenvolvimento Sustentável realizada em Joanesburgo, em 2002, os Governos presentes comprometeram-se a diminuir, até 2015, o número de pessoas sem acesso a água potável e saneamento básico. Apagados os holofotes da Cimeira, os Governos parecem ter-se esquecido das suas promessas e, alegando problemas financeiros ou apenas questões políticas, esmoreceram o seu entusiasmo em fazer campanhas para alertar os cidadãos.
A comunicação social, por sua vez, quase sempre apenas preocupada com “os assuntos do momento”, raras vezes trata do tema e demite-se do seu dever de informar sobre questões essenciais à vida, contribuindo assim para que temas que de quando em vez afloram como candentes, caiam no esquecimento.
O problema da escassez de água é demasiado grave para ser remetido “para debaixo do tapete”, ou para fazermos como a avestruz. Mesmo nos países onde o abastecimento de água é abundante, a discussão do assunto é relevante mas, por norma, encarado como uma competência dos técnicos e dos políticos. No entanto, a sociedade civil não pode eximir-se ao debate ou tomar posição sobre temas tão importantes como a propriedade das redes de distribuição ( pública ou privada?), a regulação, o livre acesso, o preço, as políticas públicas ou o impacto de algumas infra estruturas no meio ambiente, susceptíveis não só de destruírem espécies, mas também de acelerarem a desertificação e contribuírem para aumentar a escassez de água. E é bom que todos nos vamos preparando não só para o aumento do custo da água, mas também para a possibilidade ( cada vez menos remota) de a breve prazo sermos confrontados com a imposição de racionamentos.

5 comentários:

  1. Muitos e muitos lugares ainda não possuem acesso à água, muito menos encanada. Tanto aqui no Brasil como em outras paragens irmãs é comum a cena de pessoas carregando tambores ou latas de água na cabeça, em carriolas ou no lombo dos animais.
    Nós que vivemos em centros urbanos não conseguimos aquilatar a dureza da vida dessas pessoas.
    Já falta água e o homem provoca a desertificação de muitas áreas por simples falta de planejamento, que eu chamaria também de falta de respeito e consciência ambiental. Mais uma vez é preciso lembrar que o planeta que habito é o mesmo que os outros também, portanto somos todos responsáveis.E se eu posso economizar água aqui para que não falte alí, não me custa nada. Depois vão reclamar de racionamento...

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  2. Bom, dividido entre estes dois últimos posts, a problemática da água é só uma: se não houver um maior controlo sobre o desperdício da água, ela um dia acaba! Tanto nas torneiras, como para dar de beber a todos os animais do planeta, que não sobrevivem sem ela.

    Trata-se portanto de uma questão ambiental urgente, se bem que, como é óbvio, não se note a implementação de políticas (ou a falta delas) de um dia para o outro, que este processo de consciencialização das pessoas é moroso e as mensagens apocalípticas dos ecologistas por vezes têm efeitos nefastos: "olha, lá estão aqueles outra vez a arengar no mesmo!"

    E sim, concordo que a propriedade das redes de distribuição devia ser exclusivamente estatal, pois a probabilidade é que no futuro seja necessária a regulação ao seu acesso e é impensável que seja um privado a fazê-lo, com justiça e equidade!

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  3. Ontem cometi um erro fatídico: tomei um banho de chuveiro!!!

    Considero-me um pessoa com uma consciência ecológica enorme... o meu ponto fraco é poupar a àgua.

    Li os dois artigos sobre este tema e concordo consigo plenamente, Carlos, mas repito: é para mim muito difícil poupar a água no meu quotidiano.

    Ninguém é perfeito!!!

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  4. C.O. este ano temos barragens cheias e há tantos problemas que estão a ficar fora de prazo, vou-me preocupando com os mais prementes senão só de imaginar que a torneira fica seca, fico doente.
    Não tenho piscina, no 3º andar não dá ;-), não rego relva, não desperdiço, até o chuveiro foi obrigado a poupar, banhos de imersão, só quando o rei faz anos, por mim já faço mais do que muitos :-)

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  5. Post oportuno. Oportuna também a entrevista a última página de hoje do DN, com entrevista a William Cosgrove (consultor das Nações Unidas e vice-presidente do Banco Mundial). O título é sugestivo "O maior desafio é não deixar que a água seja privatizada". Diz: "As pessoas podem viver sem petróleo, mas não sem água". O que afirma sobre a Tunísia, que considera o melhor exemplo do bom uso da água, sugere-me várias reflexões preocupantes: 1º As redes urbanas nas grandes cidades tem elevadas perdas (entre 40 a 60% da água captada não é consumida); As águas pluviais, não são utilizadas e vão juntar-se ao esgoto (podendo ser aproveitada para fins adequados...). Alqueva, que atingiu este ano a cota máxima, teve que fazer descargas por não estar completado todo o projecto de aproveitamento de minibarragens integradas no plano de irrigação. Conclusão: É necessário reduzir os banhos de imersão? Deixar de passar a louça por água corrente? Fechar bem as torneiras? Claro que sim! Mas o verdadeiro desperdício não está aí. Quando chegar a hora de se promover à privatização, logo a imprensa dará conta do que realmente pesa, acusando o estado e os munícipios de má gestão...

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