Manhã de sábadoPoderia ser o começo de um fim de semana feliz, se S. Pedro estivesse pelos ajustes. Mas, infelizmente, o santo sinaleiro da meteorologia ordenou que o céu se desfaça em água sobre a terra e destrancou as amarras ao vento, para que ele possa vaguear, tal cão faminto, à procura de uma presa. Fruto do seu mau humor e do espírito pouco colaborante, naquela manhã de sábado, a chuva cai, persistente, batida por um vento forte, com rajadas a ultrapassar os 150 kms/hora. Por todo o país a intempérie vai provocando estragos. Estradas interrompidas, telhas roubadas aos telhados, árvores arrancadas e postes derrubados. Nalguns locais falta a água. Noutros a electricidade. Noutros ainda, faltam ambas.
Na Vila da Feira, distrito de Aveiro, há uma casa sem electricidade. Os proprietários telefonam para a EDP. Alguém lhes responde que andam os piquetes todos na rua, há muitas avarias, o equipamento está seriamente afectado e não sabem quando será possível restabelecer o abastecimento. Ao final do dia, perante a ameaça de deterioração dos bens armazenados na arca congeladora, o casal decide instalar um gerador na cave da habitação. Salvaguardados os bens alimentares, é tempo de garantir a satisfação de outros prazeres. Liga-se a televisão para ele ver o futebol. Ela suspira diante da telenovela.
Passa a noite. Na manhã de domingo, a filha do casal toca a campainha. Traz consigo a filha, que ficará à guarda dos avós. Na manhã de segunda-feira, a mãe virá buscar a criança para a levar à escola, a caminho do emprego. Está um domingo frio. Ligam o aquecimento. Novo telefonema para a EDP. Não há novidades. Os técnicos estão a fazer os (im)possíveis para devolver a electricidade aos inúmeros queixosos que começam a desesperar. Naquela casa de Vila da Feira, os proprietários suspiram resignados. A presença da neta alivia a contrariedade. O gerador faz o resto. O frio aconselha a ter tudo bem fechado, para que nem uma brisa daquele ar frio entre por uma qualquer fresta.
Terminado o jantar a avó vai deitar a neta. Conta-lhe uma história e a criança adormece com um sorriso nos lábios. A avó fica, durante alguns minutos, a olhá-la embevecida. Deposita-lhe um beijo na face, ajusta-lhe os lençóis ao corpo, assegura-se que a luz de presença está ligada, porque a neta não consegue dormir na escuridão. Sai, pé ante pé, para não a acordar.Ajeita o xaile e vai até à sala, onde o marido está a ver televisão. Terminada a novela, vão-se deitar.

Manhã de segunda-feira.
A mãe da criança prepara a lancheira que a filha levará para a escola. Olha para o relógio e vê que está atrasada, mas ainda volta atrás para pegar num casaco de malha para a filha. Está frio, a escola não é aquecida e o reforço daquela peça de vestuário vai dar-lhe mais um pouco de conforto. Mete-se no carro e dirige-se para casa dos pais. Toca à campainha. Volta a tocar. Nada. Terão adormecido? Prime o botão da campainha uma vez mais. Silêncio. Impacienta-se. Arromba a porta. Lá dentro, silêncio profundo. O coração começa a bater-lhe com mais força. Chama pelos pais e pela filha, enquanto sobe as escadas que dão acesso aos quartos. Vai directamente ao quarto da filha. Está a dormir profundamente. Abana-a com força. Escapa-se-lhe um grito de dor. A filha está morta. Corre em pranto para o quarto dos pais. O pai está inanimado, toca o corpo gélido da mãe e confirma o que temia. É já cadáver. Não vai ao quarto do irmão, no quarto ao lado. Sai para a rua aos gritos. Acorrem os vizinhos a saber o que se passa. Não percebem uma palavra do que ela diz. Seguem o prolongamento do seu braço que aponta em direcção à porta da casa. Um homem mais afoito entra e vai ver o que se passa. Perante o cenário de morte que se lhe depara, telefona para os bombeiros. Poucos minutos depois chegam duas ambulâncias. Retiram dois cadáveres e procuram reanimar pai e filho que ainda dão sinais de vida. Levam-nos para o hospital.
Confirmados os óbitos, a explicação: avó e neta morreram por inalação excessiva de monóxido de carbono. A falta de ventilação não permitiu que o gás letal, libertado pelo gerador, se escapulisse para a atmosfera.
Criei esta história a partir de uma notícia que a televisão me serviu à hora do jantar na última segunda-feira, relatando a morte de avó e neta na Vila da Feira. Mas a história não acaba aqui…
Ao final da tarde chegaram as televisões. Na impossibilidade de entrevistar os sobreviventes e a mãe da criança, interrogam os vizinhos, que confirmam a causa da morte, o arrombamento da porta, a presença da criança ali deixada pela mãe, que pela manhã a ia buscar para levar à escola, as cenas dramáticas vividas às primeiras horas daquela segunda-feira.
Os vizinhos têm mais para contar. Descobriram a culpada das mortes e por isso apressam-se a julgá-la em praça pública.Desengane-se quem pense que a culpa foi do descuido do(s) avó(s) que deixaram o gerador ligado, sem cuidar de permitir a ventilação do espaço. Ou do monóxido de carbono, gás assassino e inimigo público com quem todos convivemos diariamente nas filas de trânsito, no escritório, ou no restaurante. Não. A culpa, na opinião de uma senhora alcandorada a porta-voz improvisada, foi da EDP.
“Desde sábado de manhã que passámos a vida a telefonar para a EDP e a resposta era sempre a mesma. Que os piquetes andavam na rua a tentar reparar mas, como vê, ao fim de dois dias não arranjaram nada e nós sem luz, sem televisão e com a comida toda a estragar-se nas arcas congeladoras. Isto é inadmissível. Só me apetece perguntar: em que país vivemos?”.

Do lado de cá do televisor dou-lhe a resposta:
“Vivemos num país que está a passar por um dos piores invernos de sempre, onde não se pode exigir às autoridades competentes ( neste caso a EDP) que dêem respostas céleres em tempo de tormenta excepcional.
Vivemos num país onde as pessoas estão sempre a exigir que os outros cumpram, mas são negligentes e esquecem de cumprir a sua parte, respeitando as mais elementares regras de segurança.
Numa coisa a senhora tem razão. Pedia-se às autoridades que, nestas circunstâncias, avisassem a população para tomar cuidados especiais e evitar situações de risco como esta. Isso é, na verdade, a sua obrigação. Seja num país de gente evoluída, seja num país como o nosso onde as pessoas cresceram de forma desigual e ( apesar de todas as contrariedades da crise) o nível de vida não aumentou na mesma proporção da consciência cidadã.
Vivemos num país, minha senhora, com uma elevada taxa de analfabetismo funcional e ninguém faz nada para a combater. Neste país embevecido pelas novas tecnologias, esqueceram-se de avisar os cidadãos que elas por si não resolvem nada, se as pessoas não forem educadas para as utilizar na melhoria da sua qualidade de vida.
Vivemos num país, minha senhora, que fica à espera que a renovação geracional transforme as novas tecnologias num bem essencial, mas esquece que o número de velhos e de pessoas com escolaridade reduzida são o grosso da população. E essa gente, minha senhora, não está familiarizada com as novas tecnologias e não sabe que um gerador liberta monóxido de carbono, capaz de matar.
Por isso, minha senhora, a sua pergunta reflecte apenas a tendência actual de fazer julgamentos em praça pública e de cada um se eximir às suas responsabilidades, procurando deseperadamente um culpado.
É neste país que a senhora e eu vivemos. Se queremos que alguma coisa mude, a primeira coisa a fazer é mudarmos o nosso comportamento".
Vivemos num país, minha senhora, que fica à espera que a renovação geracional transforme as novas tecnologias num bem essencial, mas esquece que o número de velhos e de pessoas com escolaridade reduzida são o grosso da população. E essa gente, minha senhora, não está familiarizada com as novas tecnologias e não sabe que um gerador liberta monóxido de carbono, capaz de matar.
Por isso, minha senhora, a sua pergunta reflecte apenas a tendência actual de fazer julgamentos em praça pública e de cada um se eximir às suas responsabilidades, procurando deseperadamente um culpado.
É neste país que a senhora e eu vivemos. Se queremos que alguma coisa mude, a primeira coisa a fazer é mudarmos o nosso comportamento".
Excelente mais uma vez, amigo Carlos. Nem há muito para comentar, porque o senhor disse tudo. Passam os anos, as décadas, talvez venham a passar-se muitos séculos e pouco se evoluí em inteligencia emocional, em "analfabetismo funcional"... Não consigo muito bem perceber porquê, confesso que tenho sempre esperança nas gerações futuras, mas sou muitas vezes defraudada nessa esperança, inclusivamente, por vezes verifico filhos com piores principios que os seus pais... e isto não é motivador. De facto a mudança tem que fazer-se em cada um de nós e na eliminação de sentimentos tão pobres como a intolerancia, o desinteresse, a falta de amor e respeito pelo próximo, o egoísmo e a inveja... São estes que em grande parte das vezes obstaculizam uma evolução melhor.
ResponderEliminarGrande abraço e bom fim de semana
Cristina
Nada a acrescentar, Carlos.
ResponderEliminarTransporto a história e o comentário para o meu país, e assino em baixo.
É tão fácil atirar a culpa para cima do ombro mais próximo...
ResponderEliminarAcho a tua reflexão muito correcta e bem feita.
Bom fim de semana
Como tem vindo a acontecer muitas vezes, neste espaço, assino em baixo das suas palavras! Exigem-se sempre responsabilidades a outrem...porque neste País, a culpa é sempre de alguém... menos do próprio. No entanto, tendo em conta o exposto sobre a população, há sempre quem se esqueça do que poderia ser feito no sentido de avisar , alertar ou simplesmente relembrar a população sobre estes cuidados elementares em situações semelhantes e que custaria tão pouco fazer... evitando tantas tragédias destas... Abraço
ResponderEliminarMuitas vezes o seus posts complementam o que eu estava pensando, mesmo sendo assuntos tão diferentes entre si. Mas parece que a conclusão é sempre a mesma.
ResponderEliminarDe acordo, Carlos.
ResponderEliminar:))
Estas situações deixam-me sempre triste, porque têm muitas facetas. Tem razão, as pessoas não deviam ter estas atitudes, estão mais do que avisadas. Mas não querem com certeza morrer, não sabem fazer melhor. As nossas casas não estão preparadas para o frio, ou para invernos como este que estamos a passar.
ResponderEliminarQuanto à questão da responsabilização, a sua falta é transversal a toda a sociedade e a muitas questões.
Completamente de acordo. A ignorância e a elevada taxa de analfabetismo funcional produzem um composto altamente inflamável e fatal.
ResponderEliminarCarlos,
ResponderEliminarFez um brilhante artigo de uma situação bastante triste. Além da ileteracia, também pesa aquela habitual forma dos portugueses resolverem os contratempos de qualquer maneira, sem medir as consequências!...
Um abraço e bom fim-de-semana,
Manuela
Infelizmente, assim é.
ResponderEliminarUm beijo.
Tenho uma certeza, a culpa não foi da criança que morreu, como não terá sido daquela outra que se atirou ao rio em Mirandela...
ResponderEliminarNo fundo todos somos um pouco culpados.
Temo que, daqui a pouco, para mudar o país, seja necessário contratar uma empresa de mudanças estrangeira...começo a achar que os tais "ventos da mudança" se tranformaram no "sopro da ganância".
ResponderEliminarQuando ouvi a notícia, o comentário que me saiu foi, "Que estupidez" e quando ouvi a senhora sobre a EDP, disse, "Incrível".
ResponderEliminarEstava com a minha mulher, falámos exactamente do que acabou de aqui escrever.
Eu até lhe disse, que estas coisas podem/deviam ser ensinadas nas escolas, desde pequenos, matéria sem avaliação. Cuidados básicos de regras de segurança, que ditos ano após ano ficam na memória.
Por exemplo...
O nosso povo tem tanto de ignorante como de exigente, inversamente proporcional.
Exige-se tudo, aos outros, mas nunca temos obrigação de nada.
E assim temos sobrevivido alegremente...