Sábado, 27 de Março de 2010

Como um castelo de cartas (rewind)


Estou sentado na cama a dar uma vista de olhos pela imprensa on line.Ouço o estrondo de um prédio a desmoronar-se. Já o esperava há muito, já lhe imaginava o ruído... é o esplendoroso edifício do liberalismo, emoldurado de néons publicitando a economia de mercado e as cotações das bolsas, construído em alicerces de mentira, de intolerância, de desrespeito pelo ser humano, da exploração do trabalho, da avidez pelo enriquecimento fácil e da especulação, a ruir como um castelo de cartas.
Momentos mais tarde, outro desmoronamento. Vou à janela e vislumbro, na noite escura onde a Lua já não brilha, a queda abrupta dos paradigmas da sociedade de consumo. Na rua, descalços, exércitos de endividados vítimas dos ilusionistas que lhes prometiam o dinheiro fácil de que necesitam para comprar o paraíso, falam ao telemóvel e olham, com ar compungido, para os automóveis de luxo cujas prestações já não têm dinheiro para pagar. Televisores de plasma saem das janelas, mostrando ao mundo o holocausto da sociedade do faz de conta.Na sala de cinema em frente ao hotel onde estou hospedado, um enorme cartaz anuncia a estreia do mais recente filme dos Irmãos Lehmann, com produção da AIG:A Crise.Em exibição numa sala perto de si. Em sessões contínuas, para mais tarde recordar.É que dentro de alguns anos a cena vai repetir-se, mas provavelmente já ninguém se vai lembrar.

( publiquei este post em Setembro de 2008. Republico-o por duas razões. Muitos dos leitores do CR nunca o leram e mantém-se tão actual como no dia em que, no quarto daquele hotel, o escrevi.)

9 comentários:

  1. Carlos, é para esse cenário apocalíptico, que tenho que desenvolver o argumento que o Kevin Coster me encomendou. Se me der uma ajuda...Agradeço

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  2. Já estamos em 2010 a cena mantém-se. Durante um curto período, campanha eleitoral, atiraram-nos poeira para os olhos, após isso mais do mesmo. Interrogo-me porque aceitamos com tanta passividade a mentira e a incompetência. A razão estará na dose cavalar de "informação isenta" que nos vende a inevitabilidade, que tem que ser mesmo assim, até já não restar mais nada para destruirem...

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  3. Olá Carlos,
    De facto está actualíssimo!...Algo de apocalíptico nos espera...O mais interessante é ler textos fins do séc. XIX, princípios do XX, que continuam com uma actualidade impressionante!...
    Um abraço,
    Manuela

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  4. O pior é que cai como castelo de cartas, mas tratam logo de o reconstruir, nem que para isso se agravem problemas como a fome ou a miséria.

    Percebem-se assim as prioridades dos políticos que nos governam...

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  5. E ainda bem que o fez. Não o conhecia, achei-o muitíssimo bem concebido e tal como diz, actualíssimo.
    Abracinho

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  6. E da ficção à realidade nem é preciso dar um passo!

    Magnífico argumento.

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