Não gosto de piqueniques. São tantas as razões, que nem sei por onde começar. Tentemos então ir pela mais fácil. Parece-me bizarro que,a pretexto de conviver com a Natureza, as pessoas cometam, nesses momentos, verdadeiros atentados contra a sua preservação. Se no final de um dia de Verão passarmos por alguns locais onde as pessoas habitualmente param para refeiçoar ao ar livre, ficamos com a sensação que um exército a caminho de uma campanha bélica, por ali parou para recompor o estômago, sem cuidar de apagar os vestígios.
Pelo recinto deixaram espalhadas latas de conserva, restos de comida e uma parafernália de objectos que por ali ficarão expostos, à espera de um grupo de voluntários, amigos da Natureza, que os venha remover. Sacos de plástico contendo guardanapos e toalhas de papel, copos e talheres “usa e deita fora”, uma tupperware partida, garrafas e restos de comida, que os comensais deixaram encostados às árvores.
A falta de civismo casa bem com gente que não pensa. Poucas horas depois de o local ter sido abandonado, já há cães vadios farejando os sacos, atraídos pelo cheiro dos restos do arroz de frango ou por uma lata de atum “Bom Petisco” aberta, mas não consumida e pelos restos de um gelado familiar da “Olá” reduzido a uma viscosa pasta colorida. O espectáculo torna-se ainda mais degradante. Sacos de plástico agora esventrados, de cujas entranhas se solta o conteúdo, espalhado pela gula dos cães que não são obrigados a ter as boas maneiras que se esperava fizesse parte da conduta dos humanos.
Um olhar mais atento vislumbra marcas de pneus avançando pinhal dentro, porque os comensais piqueniqueiros não quiseram deixar o carro na berma da estrada e avançaram até ao local do repasto. Na caminhada destruíram alguns pequenos arbustos, esmagaram plantas, cortaram cerce a vida a quem importunava o seu caminho.
É neste momento que começo a imaginar o cenário do dia.Pelo fim da manhã, famílias ou grupos de amigos saíram de casa, transportando nas bagageiras dos seus automóveis, o arroz de frango, os rissóis e os croquetes, uma sobremesa doceira à espera dos elogios dos restantes comensais. À medida que chegam procuram os melhores lugares, onde pensam poder estar mais isolados ( tarefa inútil, porque passado uma hora já há mais gente à sua volta do que na tenda dos couratos à porta do Estádio da Luz) e vão despejando, de cestas de verga as tupperwares e tachos onde acondicionaram os pitéus que depositam em toalhas que servem de mesas improvisadas.
Reunido o grupo, cada agregado desfila o reportório da sua ementa. Cada um tem de provar de tudo, sob pena de ser considerado careta ou mal educado. Um bocadinho de arroz de frango aqui, um pouco de feijoada acolá, mais o entrecosto a grelhar num fogareiro próximo, eventualmente uma sardinha que lhe fazia companhia, um pastel de bacalhau, uma empada especialidade da D. Joaquina, uma fatia de pudim, receita secreta da D. Arminda, um olhar enjoado para o gelado da Olá, uma fatia do bolo da D. Berta, especialmente recomendado para o café que será acompanhado pelos homens com um whiskey ou um bagaço, para ajudar à digestão.
No final da refeição, a que não faltou a companhia de melgas, mosquitos e uma ou outra abelha que provocou gritinhos apavorados nas representantes do sexo feminino. Quando um exército de formigas marcha em direcção à mesa improvisada e dois cães vadios esperam o melhor momento para surripiar as sobras, alguém pergunta:“E se fossemos dar um passeio para desentorpecer as pernas e fazer a digestão?” O repto é de imediato aplaudido por alguns que, olhando para a tralha espalhada, vêem no passeio uma boa oportunidade para se furtarem à desagradável tarefa de ter de arrumar a tenda. As vítimas do costume dizem “vão lá vocês que nós ficamos aqui a arrumar”. Recebem como resposta um pouco convincente “ Deixem lá isso que arrumamos tudo quando voltarmos”, enquanto iniciam a caminhada sem olhar para trás, não vão as vítimas do costume mudar de ideias e decidir acompanhá-las. Ao longe ouvem-se vozes de adolescentes “ Olha que borboleta tão gira! Ficava mesmo bem no meu caderno de biologia.” Iniciam a caçada, afastando-se do grupo dos adultos.
Entretanto, o Joãozinho, o Carlinhos e o Toneca renunciaram ao passeio e ficaram a ensaiar dribles e caneladas, enquanto se esforçam por anichar a bola numa baliza improvisada com dois ramos arrancados a uma árvore que “estava mesmo a jeito”. O jogo terminou quando numa jogada mais disputada o Toneca atirou a bola com força e esta foi bater na cabeça do avô Gregório, que já se tinha estendido na rede montada entre duas árvores, para dormir uma sesta onde não faltarão os acordes de uma melodia ronqueira, provocando risos abafados nos que renunciaram ao passeio.
Quando os caminhantes regressam, já está tudo arrumado, da forma já descrita, mas a D. Josefina que guardara na sua cesta de verga algumas sobras para o almoço do dia seguinte pergunta, solícita:“Ninguém quer comer nada? Ainda sobraram uns pastelinhos de bacalhau, uns ovos cozidos e uns rissóis de camarão…”Todos recusam, mas o Alípio ainda atira “ se houver por ai uma bejeca fresquinha…”
“ Não te ponhas a beber mais, pá!" responde o Belmiro estirado na rede deixada livre pelo avô Gregório que, traído pela próstata, foi obrigado a procurar alívio nuns arbustos afastados.
O grupo está de novo reunido e vai começar a debandada. O dono da telefonia pede licença para a desligar e começam as despedidas.
“ Onde está o Pedro?”- pergunta o tio João. “E a minha Isabelinha?” – acrescenta a avó Matilde. Olham em volta e vêem os dois jovens caminhando na sua direcção. A Isabelinha traz na mão uma flor oferecida pelo Pedro, em momento de arrebatamento e ajeita discretamente a saia amarrotada. Quando chegam junto dos adultos, rostos afogueados, atropelam-se na explicação da caçada à borboleta.“ E onde está a borboleta?”- pergunta o Carlinhos, como sempre inconveniente, enquanto esmaga com o pé uma centena de formigas que regressavam a casa, carregadas de mantimentos.
“Bem, vamos lá embora” – responde o pai do Pedro, enquanto pisca disfarçadamente o olho ao filh em sinal de aprovação.
Todos estão felizes, acharam o dia fantástico e discutem já o local do próximo piquenique. Todos têm uma sugestão, mas já é tarde para decidir, por isso o grupo delega a decisão nas senhoras.Mais uns beijinhos, o Pedro ainda pergunta “ Não há nada que se coma?”, mas a avó Matilde responde de imediato. “ Ó filho vamos mas é embora que se está a fazer tarde. A avó tem ali um tupperware com umas coisinhas, comes no carro”.
Finalmente a partida. O Pedro e a Isabelinha despedem-se com uma troca de olhares cúmplice. Os carros fazem-se à estrada. Isabel leva a flor encostada ao peito. Pedro vai distraído a pensar no próximo encontro. Ninguém repara numa árvore com dois corações entrelaçados e a frase “Pedro Ama Isabel”. Ficou esculpida a canivete uma tarde memorável de convívio com a Natureza. Vá lá, a borboleta safou-se de acabar espalmada numa folha A4…
Os cães aproximam-se finalmente dos despojos. Chegou a hora do seu piquenique.Eu sei que hoje em dia os piqueniques já não são assim. A única semelhança com a cena descrita é o desrespeito pela Natureza. Será que a minha querida parceira tem uma opinião mais positiva sobre os piqueniques? Creio bem que sim, mas vão lá confirmar...
Visitei o Rochedo e o Ares, como faço sempre que se publicam as Crônicas de Graça e deixo, hoje, em ambos, o mesmo comentário, porque ambos os textos me encantaram (como sempre, aliás).
ResponderEliminarComo são diferentes as visões destes dois parceiros sobre os piqueniques!... Enquanto para ele o piquenique é uma barafunda, para ela é um deleite... rs...
Diverti-me muito com os piqueniques descritos pelo Carlos e fiquei roxinha de vontade de ir a um dos piqueniques da Patti...
Beijinhos aos dois e obrigada pelo encanto dos seus piqueniques.
Bom dia
ResponderEliminarEntão e o outro lados dos piqueniques... daqueles que até sem querer fazemos na praia. Na minha mochila vão sempre vários sacos para o lixo e agora até à sacos, perfumados, para não deixar passar cheiros... e uso-os até mais por causa da minha bebé... Eu adoro piqueniques, dão trabalho, é verdade porque só terminam com a limpeza total do espaço que ocupamos e nisso as crianças hoje, já estão muito à frente, na fiscalização. Mas, a liberdade de descobrir recantos, de conversar encostado a um tronco, protegida por uma sombra... sabe bem.
Infelizmente, os piqueniques também são feitos de pessoas de destroem, maltratam, se acham donos do mundo. Os mesmos que atiram lixo pelas janelas do carro, nas cidades, os mesmos que deitam beatas para o chão (ok isto é um pouco exagerado, mas vá...) aqueles que deitam papeis e pastilhas e restos de bolachas para o chão, em qualquer lado. E ainda pensam... ah isto é biodegradável... o pombos vão comer estas migalhas... e há os que as wc públicas em pior estado que qualquer grupo de piqueniqueiros. Há pessoas diferentes em todo o lado... e também nos piqueniques! Bom fim de semana!
Isabel Mota
p.s. estou mais do lado da sua parceira.
Eu também não gosto de picnics, mas devo confessar que aos poucos que fui me diverti imenso e, no fim, tudo ficou como se nem por lá tivéssemos passado.
ResponderEliminarEstou a falar de picnics em locais próprios e não picnics selvagens; aliás selvagem só mesmo a selva, de resto dispenso selvajarias.
Vou voltando aos pouquinhos, sim?
Eheh. Estava eu a ler esta tua excelente crónica e ao mesmo tempo a rever mentalmente a rebaldaria e bagunça de alguns momentos que antecedem, por exemplo, uma final da Taça de Portugal nas matas circundantes do Estádio Munici... Nacional.
ResponderEliminarEu cá gosto de piquenicar, sair da confusão da cidade e passear pela mata, pelo pinhal de mão dada com a natureza e levar um pequeno farnel às costas para quando a larica apertar estender a manta e deitar-me para roer qualquer coisita e descansar. É saudável o contacto com a natureza mas o que falta a muita gente é perceber que não estão sós e o seu comportamento de desleixo e desrespeito pelo meio ambiente é no mínimo desagradável e incorrecto. Temos de saber estimar o que a natureza nos proporciona, preservá-la e deixar tudo limpinho e cuidado sem o mínimo de vestigios da nossa passagem.
Também nunca apreciei piqueniques, nem tão pouco em criança, quando fui obrigado a ir. Concordo integralmente com o que escreveu.
ResponderEliminarEu pelo contrário gosto de piqueniques.Desde que sossegados. :)
ResponderEliminarHiiii, que más experiências, embora não deixes de ter alguma razão nas tuas irónicas observações.
ResponderEliminarMesmo assim, que saudades dos bons velhos piqueniques, em que nem havia ainda tupperwares:))
Ainda me estou a rir que nem uma perdida, perante o seu desespero!
ResponderEliminarÉ que o post está tão bem escrito, que quase o consigo visualizar, a si Carlos, com um total ar de desespero, perante as atrocidades comensais e contra-natura da espécie humana.
Hilariante. Até me apetece convidállo - farnel incluso - para um piquenique de um qualquer domingo de Agosto!!!
Aqui está um belo exercício sobre um domingo na vida do cidadão-eleitor tuga.
ResponderEliminar(Apenas não 'entendi' a alusão ao Estádio da Luz).
Caramba, que gosto ler este soberbo passeio por um piquenique ... quase que se conseguem sentir os aromas, os arfares, torpores e vapores!
ResponderEliminarNão sou grande adepto e então se for na modalidade de levar panelas, tachos e afins não contem comigo ... fruto talvez de inomináveis secas passadas em petiz ... não sei ...
Gosto de piqueniques e fiz muitos quando era mais nova. Não costumavam era ser de feijoada ou de arroz de frango, eheheh! Coisas mais leves, sandoscas, pastéis e assim, nada que necessitasse de faca e garfo!
ResponderEliminarMas a crónica está muito engraçada!
Bom fim-de-semana!
Para não fugir à sua forma habitual e com a qual já contamos, eis aqui mais um delicioso texto.
ResponderEliminarEu gosto de piqueniques em locais muito especiais, onde não haja ameaças de escorpiões, cobras ou outros bicharocos semelhantes; onde ouça o murmúrio dum riacho de água transparente, correndo sobre um fundo limpo, com pedrinhas muito branquinhas; onde eu possa sentar-me no chão, encostada a um pinheiro que não me deixe caír nenhuma pinha em cima da minha pinha, etc., etc., etc. E como dá muito trabalho encontrar todas estas exigências, substituo o piquenique ao ar livre por um belo passeio à beira-mar, interrompido por um delicioso lanche numa qualquer marisqueira.
Na praia da Memória vi um que meteu mesas, cadeiras, fogareiros, panelas, tachos, garrafões de vinho, sestas, estaladas e "não vás ao mar. Ainda apanhas uma congestão"... Só me vim embora depois de terem levantado o acampamento e ainda hoje me rio quando recordo a cena.
ResponderEliminarcarlos
ResponderEliminareu gosto, e ponho em prática, picnic civilizados. Mas o desrespeito pela natureza é em todo o lado.
Carlos,
ResponderEliminarHoje os piqueniques não são como descreve? Olhe que quando "avisto" um imagino exactamente como descreveu. Faltou talvez o relato de futebol e o croché.
Beijo
Carlos, fica já prometido que nunca farei um piquenique. ;-D
ResponderEliminartal e qual!
ResponderEliminarMinhas únicas e poucas lembranças de piquenique são de quando íamos com meu avô passar o domingo na hípica.Era um piquenique meio falso, era mais um lanchinho nos jardins do haras.E não havia comida propriamente dita. Eram algumas frutas, sucos e lanches que saíam da cesta para uma toalha xadrez.Além das cenouras para os cavalos.Essa era a parte que eu mais gostava!!! Depois disso não tenho lembrança alguma.E já crescida nunca fui de piqueniques, "farofas"(que é quando levam até o frango e a farofa para a praia) e nem acampamentos.Amo a natureza demais para conviver com quem a depreda.E não sou o tipo de pessoa que disfarça. Minha feição sempre me entrega.Prefiro conviver em paz e harmonia com o mundo natural e depois voltar para dormir numa cama, nem que seja de campanha.Desde cedo aprendi que o que se tira da natureza são somente fotografias :o)
ResponderEliminarBem, como este também não gosto.
ResponderEliminarNão costumo fazer, mas gosto, quando é com a minha tribo e com o cuidado que a Natureza merece. Aliás, já uma vez relatei num post um piquenique que fizemos.
Um beijo.
Anoto que o Estádio da Luz não lhe sai do pensamento, eu compreendo é lindo de morrer não é?...tsshtshsh
ResponderEliminarPiqueniques destes também dispenso. Mas não digo que não a um piquenique a dois, ou com um pequeno grupo de amigos. Com o devido respeito pela natureza, e sem loiça descartável.
ResponderEliminar; )