quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Conversas de café

“ Chegam os meninos de mota
Com a China na bota
E o papá na algibeira(…)”
( O Café- Fernando Tordo/ Ary dos Santos)

Um dos grandes problemas deste país, é o Centrão que nos governa ser dominado pela ideologia do capital, onde o conceito de lucro é de tal forma abrangente, que não olha a meios. Outro problema é que no Centrão emergem, cada vez mais, figuras que vieram da esquerda folclórica, excelente palco para tertúlias de café em tempos de Faculdade, mas onde a ténue barreira entre as convicções e a prática se quebra, assim que alguns dos seus seguidores entram na vida activa e se sentem atraídos pelo perfume do dinheiro.
Assim como um apreciador de café não resiste ao aroma de grãos acabados de moer, um esquerdista de tertúlia também não resiste ao apelo do dinheiro, quando entra na vida activa e deixa de ter o aconchego da generosa mesada do papá. Uma coisa é discutir acaloradamente Marx, com o respaldo do papá; outra, bem diferente, é conseguir manter o nível de vida a que a generosa mesada, a cama e as refeições gratuitas os habituou, quando se têm de fazer à vidinha e garantir o seu próprio sustento. Ao mínimo apelo do capital, lá se vai a ideologia e as convicções marxistas passam a ser encaradas como diatribes da juventude.
São muitos os exemplos na nossa classe política. A começar por Durão Barroso, fervoroso militante do MRPP nos tempos da Faculdade de Direito e hoje convertdo ao Bushismo, por via do qual conseguiu o seu exílio dourado em Bruxelas.
Felizmente há quem resista. Quem repudie entrar na engrenagem do sistema de vasos comunicantes entre PS e PSD, cujas desavenças apenas existem, porque um dos membros do casal sente que está fora do círculo do poder há muitos anos e a sua clientela ameaça debandar. Felizmente há quem se mantenha fiel às suas convicções e consiga singrar na vida, embora arrostando com dificuldades.
Não foi o caso de Rui Pedro Soares, o jovem turco que trocou as t-shirts com a imagem de Che Guevara, pelo fato de marca e gravata de seda , símbolos da ascensão meteórica. O perfume do dinheiro inebriou-o de tal forma, que se meteu em negociatas pouco consentâneas com quem se assumira como a “margem esquerda” da Juventude Socialista. Não sei se o fez por iniciativa própria, para mostrar serviço ao papá, ou para lhe agradecer a “benesse” da ascensão meteórica. Pouco importa para o caso. O importante é não esquecer que Rui Pedro Soares não é caso único. Não é a excepção, mas sim a regra, na sociedade em comandita que nos governa e dá pelo nome de Centrão, Ldª.
O caso de Rui Pedro Soares serviu para fazer esquecer o caso BPN onde figuras do PSD, como Dias Loureiro, Oliveira e Costa e outros ex-membros do governo de Cavaco Silva, emergem como responsáveis por uma mega fraude que está a ser paga por milhões de contribuintes portugueses cujo único rendimento provém dos seus salários.
Não nos iludamos. Não é por trocar Sócrates por Aguiar Branco, Passos Coelho, ou Paulo Rangel, que teremos uma solução para o país. Apenas mudam os clãs, não mudam as políticas. Em vez de Rui Pedro Soares, será um qualquer Zé das Quinquilhas a assumir o seu papel. Na mesma empresa, ou noutra, com o objectivo de dominar a comunicação social ou o sistema financeiro? Pouco importa.
Portugal precisa é de políticos a sério e não de arrivistas. De gente que seja capaz de colocar os interesses do país à frente dos seus próprios interesses e não faça figuras miseráveis que nos denigrem além fronteiras.
Portugal precisava de um outro Povo. A culpa do estado a que chegámos não pode deixar de ser assacada, também, ao espírito corporativo que nos molda com a mesma têmpera que nos foi incutida pela Constituição de 1933. E aos resquícios pidescos, que transformaram muitos portugueses em bufos bem remunerados.

13 comentários:

  1. Olhe, Carlos, já nem sei mais o que hei-de dizer sobre isto!

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  2. Money makes the world go round, the worlsd go round, money, money, money, money... Conheces?

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  3. É verdade que os íntegros idealistas de ontem, dão muitas vezes lugar aos interesseiros, oportunistas e até mesmo corruptos de hoje... pois a cor do dinheiro é demasiadas vezes, mais apelativa do que a cor do próprio partido, cujos ideais defendiam acerrimamente e dos quais muitos até já se esqueceram quais eram, ou até mesmo do que as cores da bandeira... reflexos da sociedade economicista, e dos novos políticos cada vez mais desvirtuados do seu papel cívico, transformados em meros funcionários de um aparelho partidário reprodutor, mais interessado na sua sobrevivência...(independentemente da cor partidária! Daí que seja tão mais fácil estar na oposição e criticar o Governo, sem apresentar alternativas concretas, ou debitar que se é de esquerda, sem ter de o provar...

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  4. De pouco em pouco vamos agregando conhecimentos. Obrigada pelo post.
    FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... deseja um bom dia para você.
    Saudações Florestais !

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  5. “ Chegam os meninos de mota
    Com a China na bota
    E o papá na algibeira(…)”

    Letra e musica inesquecivel!
    :))

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  6. Tenho de concluir consigo, sem qualquer prazer, que 'Portugal precisava de um outro povo' mas não temos outro à mão e os povos não se fazem por encomenda. Concluindo, ou nos contentamos com este constante movimento de um passo à frente, dois passos atrás ou deixamos a tarefa para os nossos netos ou fazemos uma revolução daquelas que os povos do norte da Europa fizeram a umas décadas. Seja como for, tenho de confessar, com mágoa, que estou pouco mais do que pessimista.

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  7. Tenho aqui que prestar homenagem a este post... ESTÁ UM ESPETACULO!!! Em poucas palavras, diz tantas verdades! Quem me dera expressar-me assim... está de se lhe tirar o chapéu, amigo Carlos!
    Penso rigorosamente da mesma forma, talvez um pouquinho mais esbaforida de raiva... É que a palhaçada é tanta, que já nem consigo escrever com aquela diplomacia que me caracteriza, dadas as alterações que ocorrem no meu sistema nervoso devido ao que tanta "sujeira descarada" já me provoca. Nem sequer há um bocadinho de vergonha. Salta-se de escandalo em escandalo, alternando sempre entre os mesmos, e "vira o disco e toca o mesmo", delapidando cada vez mais o nosso país e a sua credibilidade (tanto fora como dentro).
    A minha fúria é já tão significativa, que as soluções que preconizo para tanta "bandalhice" de tantas àreas distintas - (tudo a ver se se safa, e comendo-se uns aos outros)- é um bocado "radical" para descrever aqui! Também por isso mesmo, vou vivendo cada dia, como se fosse o ultimo, tentando é disfrutar as melhores coisas que a vida possa oferecer-me...
    P.S.: e tb concordo consigo que vistas as alternativas, deixem lá estar quem está, please...

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  8. E já antes,muito antes de 1933... Então como se mantiveram quase 5 séculos de inquisição???

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  9. Carlos,
    Como sabe não gosto de politica mas não me esqueço de certas coisas.
    Nunca ouviu dizer que aos 18 anos a maioria é pc,be ou verdes; entre os 25 e 35 socialistas, e a partir daí sociais democratas?

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  10. Não estou sempre de acordo consigo, no entanto, estas conversas de café podiam ter sido escritas por mim; o português não seria tão correcto como o seu, mas o conteúdo seria exactamente o mesmo.
    O Carlos escreve o que se passa com a maior parte dos políticos, portugueses ou não, quando apanham um pouco de poder.
    Já o nosso Fischer dizia, que o poder é um vício. Ele também trocou as sapatilhas pelos fatos de Armani, mas ele ainda não era dos piores políticos.

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