
Almoço em passo de corrida, entre uma conversa com imigrantes de Leste e uma visita a uma comunidade cigana. Quando a adrenalina está no auge, porque as reportagens me empolgam e os prazos para entregar os trabalhos se aproxima do limite, o período que diariamente consagro ao almoço - sem hora certa mas com um generoso intervalo para saborear calmamente a comida, fumar a cigarrilha e, quando possível, cochilar * dez minutos – reduz-se drasticamente. Mal saboreio a comida e qualquer coisa me serve para enganar o estômago. (De tantas vezes se sentir enganado, por vezes revolta-se, mas isso é outra história).
Este mês, raras vezes tive o prazer de um almoço prolongado e, no dia a que se reporta esta CENA, o tempo foi de tal maneira exíguo que decidi aportar a um desses locais de comida a peso, onde normalmente se paga na razão inversa da qualidade. Sentei-me na companhia de um linguado deficientemente grelhado e uns legumes cozidos a vapor, sentindo a falta de um copo de vinho que abrilhantasse o elenco, prazer a que apenas me entrego, à hora do almoço, quando o palco é a minha casa.
Na mesa ao meu lado, sentou-se um distinto cavalheiro, na casa dos setenta. Reparei que olhava com enlevo para o seu prato, onde acamavam quatro suculentas fatias de picanha, bocados de banana frita, uma salsicha grelhada e uma generosa dose de batatas fritas, num apetecível bacanal gastronómico. Pressenti, no seu olhar guloso, a iminência do pecado. Suspeitei que aquela refeição não respeitasse os cânones dos seus hábitos alimentares. Olhando-o discretamente entrevi, por detrás das lentes grossas, o relato de uma fuga à prescrição médica, aconselhando evitar fritos e carnes vermelhas.
Terminado o linguado, pedi café. O telemóvel do cavalheiro tocou. Atendeu lesto.
- Só vim aqui comer qualquer coisa, vou já para aí. Não te preocupes, sabes que o médico está sempre atrasado.
Do lado de lá alguém lhe deve ter perguntado o que estava a comer.Sem hesitar, respondeu.
- Um linguadinho grelhado com legumes cozidos.
- …?
- Não, batatas não, sabes que não devo comer . Olha, vou desligar que estou com pressa.
Desligou. Olhou-me de soslaio. Fez sinal à empregada que dá apoio às mesas e pediu:
- Traga-me meia garrafinha de vinho, faz favor.
Atirou-se à picanha e às batatas fritas. Com prazer e sem remorsos. Bem haja!
* O computador informa-me que cochilar não existe. É um ignorante, coitado. Nem imagina como é bom passar pelas brasas a seguir ao almoço.
O bairro anda cheio de fome, é o que é, esganadinhos por uma mesa farta de iguarias, mas penitentes por causa de pecados anteriores.
ResponderEliminarPois olhe, que eu já estou como o venerável idoso que almoçou ao seu lado: perdoe-se o mal que faz pelo bem que sabe!!
P.S: A sobremesa pode encontrá-la lá na minha casa. Um mimo!
O prazer do pecado, dir-se-ia!
ResponderEliminarQuem não peca aqui e ali, mesmo sabendo do mal que faz?
se pudesse cochilava(mais uma que não conhecia) todos os dias, assim é só ao fds. Quanto ao velhote deve estar na fase do já que tenho de morrer que morra feliz, que se dane.
ResponderEliminarCena real com um fundo que exala ternura e o desejo legítimo do "pecado mora ao lado"...
ResponderEliminarAbracinho
Ai como eu compreendo esse senhor!
ResponderEliminarQualquer dia apanha-me a mim, com uma taça de gelado com 1 quilo, no mínimo!
Se eu fosse cometer um pecado desse tipo , por certo que não seria num restaurante à quilo e muito menos com pressa...
ResponderEliminarAh...e o meu cochilo não é depois de uma refeição e sim no final da tarde, de preferência depois de ler um pouco. Gosto de adormecer com um livro ao lado. Gosto da sensação de ir me desligando aos poucos do que estava lendo...
O problema é que está a mentir a ele próprio.
ResponderEliminarComo um amigo que tive, que tinha um cancro nos pulmões e se fechava na casa-de-banho para fumar.
Não há pachorra.
Já que fazem, assumam. O mal é deles...
Tá bem eu sei que o post era para ter um ar mais levezinho, mas foi o que me veio à cabeça.
Ah, Carlos, fez-me lembrar do imenso prazer estampado no rosto de meu marido quando lhe era permitido comer o que mais gostava - moderadamente e apenas duas vezes ao ano, no Natal e no dia de seu aniversário, já que o diabetes avançado o impedia de cometer os pecados da gula. Revi seu rosto iluminado, diante de um assado de porco, de uns torresminhos a pururuca. Era um "bom garfo", sempre amante da boa mesa e no entanto tinha que contentar-se com legumes ao vapor, saladas, verduras e uns grelhados, e sempre em pequenas quantidades... São as penas que a vida impõe, que fazer?
ResponderEliminarSe ele também comia escondido? Ah, imagino que sim... Mas "garantia" que não... rs...
Que bem que lhe deve ter sabido o "almocinho"!
ResponderEliminarPois, eu acho que os médicos actualmente são tão fundamentalistas com o que se deve comer, beber, fumar, exercitar, etc. e tal, que claro que há prevaricadores.
ResponderEliminarNum lar de terceira idade, um médico que detectou um colesterol um pouco elevado numa senhora de 100 anos, disse-lhe que ela tinha de fazer dieta. E ela respondeu-lhe logo: "Desculpe senhor doutor mas não faço!" Mas alguém no seu juízo perfeito vai receitar uma dieta ao uma idosa de 100 anos, há anos num lar, só porque o colesterol está um bocado acima do normal? Bom, pelo menos essa não esteve cá com mentiras piedosas. As pessoas arriscam-se a morrer saudáveis e em forma, é o que é... :)
Em relação ao vizinho do almoço, está com sorte, no outro dia no nepalês, apanhei 2 senhoras que não se calavam, melhor uma falava e outra esforçava-se por mudar de assunto: a 1ª descrevia com todos os pormenores mais ou menos picantes, mais ou menos interessantes da sua ultima viagem ao Nepal.
ResponderEliminarQuanto a cochilar, O computador é uma máquina, não conhece as coisas simples e boas da vida...
Como sugestão para almoçar, se o Carlos em permite, e se estiver no seu raio de acção, indico-lhe a Taberna do Chiado.
Relato delicioso de um almoço em pecado;))
ResponderEliminarOlá Carlos,
ResponderEliminarComo eu compreendo um «pecadilho» de vez enquanto!...Só faço dieta em casa, grelhados e cozidos, nada de alcool, mas de vez enquanto dá-me uns flachs e lá desafio o meu companheiro para o «pecadilho» da gula!...Enfim pecar é preciso!!!!
Um abraço,
Manuela
Eu agendei um post sobre comidinha, mas juro que não sabia que pela blogosfera andava a circular tanta tentação...
ResponderEliminarSerá mais uma a minha....
Ainda hoje fui "vitima" de um bacanal gastronómico, soube-me melhor do que o possível mal que me fez.
ResponderEliminarFez muito bem. Um pecadinho desses é que a gente precisa de quando em quando. E depois ele pediu vinho, que se foi tinto equilibra os excessos. Raispartam os telemóveis e os controladores da vida!
ResponderEliminarQuanto aos avisos do computador, eu mais duma vez tive de recorrer ao meu Aurélio para descobrir aliviada que não me enganara. Agora mesmo nem o "pecadinho" me reconhece: será que não gosta de diminutivos.
Carlos, seu computador fala com sotaque Ibérico!
ResponderEliminarA palavra é brasileira e veio para cá com os escravos:
Kukoxila(Angola):Cabecear, toscanejar, escabecear(Dicionário de Kimbundu-Português coordenado por J.D.Cordeiro da Matta)
Cochilo(Brasil):Ato de cochilar.*Cochilar=dormir levemente, dormitar(Dicionário da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira)
No campo dos abusos ..., também eu estou a abusar pois o relógio está a caminho das duas horas da manhã e eu ainda por aqui ando, Carlos. Mas eu tinha outras coisas a fazer e não resisti à tentação de vir aqui espreitar, faltando ao compromisso assumido de "escrever sem abusar das horas de descanso".
ResponderEliminarDisse que vinha silenciosa mas também não resisto a comentar nem que seja, apenas, este texto.
Eu sou um acérrima defensora duma alimentação sã, mas há casos que me deixam a pensar: não será que, em certos casos, é mais prejudicial à saúde ficar a pensar numas boas tripas à moda do Porto, do que o quanto possa ser prejudicial dominar essa tentação?Vá-se lá saber! Pelo sim pelo não, será melhor dar 'uma no cravo e outra na ferradura'!
Escrevi este comentário à hora aqui referida, mas acabei por gravá-lo e nem o enviar porque tive problemas com o meu laptop. Como não partia, tomei a opção de fazê-lo no dia seguinte e, portanto, vou enviá-lo agora.
Juro que gostava de ver o Carlos a almoçar em passo de corrida ... os linguados transformavam-se em carapaus de corrida, só pode!
ResponderEliminarAi a Gi e as palavras que imagina. :)