quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Copenhague: a bridge too far...

Se, em 1992, a Cimeira da Terra se realizou na “Cidade Maravilhosa”, a Cimeira sobre as Alterações Climáticas de 2009 realiza-se na cidade mais verde da Europa. Nada de espantar. Seja Verão ou Inverno, o transporte preferido pelos habitantes de Copenhaga é a bicicleta. Mas não se pense que Copenhaga é apenas a líder a nível de baixas emissões de CO2, graças aos transportes. É também a cidade onde a energia é consumida de forma mais inteligente e racional, os edifícios são estudados de forma a poupar energia, os transportes são eficientes, se desperdiça menos água, se faz o melhor tratamento de resíduos e, por consequência, se respira melhor, porque é melhor a qualidade do ar.Logo a seguir, vêm Estocolmo e Oslo, ocupando Lisboa o 18º lugar, num conjunto de 30 cidades europeias estudadas pela “Economist”.
Convém, no entanto, que falemos claro. Se as três capitais nórdicas ocupam os três primeiros lugares no índice de qualidade de vida, medido em termos ambientais, isso não significa que sejam as cidades com maior qualidade de vida geral. Para um português, amante dos climas quentes, do Sol e dos dias longos, viver numa destas cidades durante o Inverno é deprimente. Anoitece tão cedo, que temos a sensação que o Sol hibernou ou se transferiu para outro planeta. Nem a animação das ruas, que nestes dias procura disfarçar a tristeza dos dias cinzentos e sem luz , é suficiente para nos restituir a magia do Sul.
Para quem esteve na Cimeira do Rio em 92, o contraste é absoluto. Mesmo em Junho, ( Inverno no hemisfério Sul) o Rio de Janeiro transbordava uma alegria esfuziante e o Fórum Global, organizado pelas ONG no Parque Flamengo, era uma festa permanente. Em Copenhaga o ambiente é frio e nem o calor de alguns manifestantes no exterior do Centro Bella ( onde se realizam os trabalhos) faz aumentar a temperatura. O anoitecer temperano convida a emborcar uns copos para afogar a nostalgia porque, embora não chova, o sol anémico é de tal forma triste e fugaz, que deixa toda a gente com aquela sensação de apenas ter provado uma colher de uma esplendorosa mousse de chocolate.
Viver nos países nórdicos durante o Inverno (digo eu com o saber de experiência feito) é como ir à Bica do Sapato comer um “menu degustação”. Ficamos com a sensação de que tudo aquilo que o Chefe confecciona é muito bom, mas carece da confirmação de um repasto a preceito.Perante este panorama, fica a dúvida: conseguirão as ONG e os técnicos – que estão a fazer o trabalho de sapa, para ministros e líderes mundiais analisarem e decidirem na próxima semana- convencer os decisores de que a solução para os problemas ambientais do planeta exige um modelo de desenvolvimento mais sustentável, que implica o sacrifício de todos? Estarão os países desenvolvidos dispostos a abdicar de uma boa parte do seu bem estar para ajudar os países em desenvolvimento a crescer de forma sustentável? Quando toca a pedir sacrifícios aos mais poderosos, a globalização costuma esconder as suas virtudes...
Na Friedrichstrasse os bares estão abertos até horas tardias, animados com música ao vivo, cerveja a escorrer pelas goelas, as prostitutas oferecem os seus serviços gratuitamente, em protesto contra as decisões do governo local. Em Christiania os “hippies” continuam com os seus slogans sessentistas e o seu modo de vida espartano, mas contraditório. Na manhã do próximo domingo haverá, certamente, em Friedrichstrasse, russos e ucranianos a enganar os turistas e participantes na Cimeira, em jogos de “vermelhinha” viciados com notas falsas. Os arranha céus de Ströget continuarão a reflectir as suas luzes na água dos canais.
Apesar dos 6ºC diurnos, que descem próximo do Zero quando a noite avança, dispensando uma visita ao sempre muito frequentado Ice Bar, o ambiente em Nyhavn (o velho porto onde os bordéis e tabernas foram substituídos por restaurantes e bares com música ao vivo) é caloroso. Linguarejares de gentes de todo o mundo alimentam uma confraternização calorosa, ao longo do canal, entre pessoas que sempre se reencontram nestes eventos .
Há animação, há avisos de que a qualidade de vida de que desfrutamos pode estar em risco se nada fizermos para refrear a degradação ambiental desta casa que se chama Terra e pedimos emprestada aos nosso filhos para habitar, mas que estamos a degradar com a inconsciência de inquilinos desmazelados.
Há euforia nestas noites gélidas e há uma ponte ligando Copenhaga a Malmö que se distende num frenesim consumista.
Há conversas entusiasmadas sobre questões ambientais, muita cerveja a correr pelas goelas, há críticas à globalização, muito whisky a correr pelas goelas, há muitos estrangeiros a comprar “souvenirs” e prendas de Natal, entre recriminações aos poderes instituídos por se preocuparem mais com o bem estar económico do que com a preservação do ambiente, há muitos jornalistas a fazer a cobertura da Cimeira, entusiasmados pelo calor que exala dos corpos destas ninfas loiras de linguarejar rude, que esgrimem, empolgados, argumentos a favor do ambiente, ou reportam notícias e estudos sobre a inevitabilidade de morrermos esturricados em CO2 e gases com efeito de estufa, mas logo que se desconectam do canal televisivo que os enviou a Copenhaga, escoam para os pulmões enegrecidos bafuradas de cigarros provenientes da terra do Tio Sam, ou de cigarrilhas made in Havana, enquanto fazem tilintar o seu copo, num tchim-tchim dengoso, celebrando a companhia da musa inspiradora, ao lado de quem sonham acordar na manhã seguinte.
É neste cenário “faz de conta”, de noites natalícias com Papais Noel e Meninos Jesus pigarreantes e Mamães Natal generosamente expostas aos olhares masculinos, que decorre a Cimeira da ONU sobre alterações climáticas. Quanto a mim, um cenário pouco propício à reflexão sobre o aquecimento global, porque aqui nada indicia perigo. Apenas conforto e qualidade de vida. Que tal organizar, já no próximo ano, uma conferência no Quénia? Os participantes poderiam começar nas cidades costeiras do país, alagadas por inundações e, no terceiro dia, rumar ao interior escaldante, seco e ameaçado de desertificação. Neste contraste proporcionado num percurso de apenas umas centena de quilómetros, todos aprenderiam, “in loco” o que significa a expressão “Alterações Climáticas”.
Pois, compreendo… exigir aos líderes mundiais que se desloquem a um país africano, à Antártida ou ao Alaska, para discutir as questões ambientais, é pedir demasiado. Eles estão mais habituados à teoria. As aulas práticas causam-lhes algum desconforto…


Outra perspectiva sobre a Cimeira de Copenhaga aqui