quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A Suíça por um quintal


Abel, 58 anos, e Lucília 61, deixaram a Póvoa de Lanhoso natal e vieram “ fazer a vida” para Lisboa quando casaram, em 1972.
Abel acabara de cumprir o serviço militar em Angola e não sabia o que fazer à vida. Apenas tinha uma certeza: a dura vida o campo não ia ser o seu futuro. Um amigo da tropa- “daqueles que ficam para a vida” - arranjou-lhe um emprego na Mague. Lucília, que trabalhava como empregada doméstica nos arredores de Braga desde os 14 anos, não via com bons olhos a partida para Lisboa. Prometera mesmo aos patrões que, depois de casar, continuaria a servir como empregada externa. Abel, no entanto, “deu-lhe a volta”. Um emprego na Mague, a ganhar bem para a época, era um aliciante...
Pouco tempo depois de se instalarem nos arredores de Alverca, Lucília começou a trabalhar como cozinheira num restaurante da zona. Ganhava pouco, mas ajudava ao sustento da casa. Abel, trabalhador competente e esforçado, foi subindo na fábrica e a vida corria-lhe bem.Durante esse período construíram uma casa, com a labuta de fins de semana e das férias. Um dia, porém, um desentendimento de Lucília com a patroa, por causa de um arroz de tomate que um cliente achou estar mal confeccionado, veio complicar a vida do casal. Lucília não suportou a ofensa, discutiu com a patroa e o cliente. Excedeu-se e foi despedida. Ainda tentou receber uma indemnização mas, como as “posses” não davam para “meter um advogado”, acabou por sair de mãos a abanar e voltou à condição de empregada doméstica.
Meses mais tarde a Mague fechou. Abel recebeu uma indemnização “jeitosa” mas viu-se no desemprego aos 45 anos. Durante o tempo que durou o subsídio de desemprego procurou trabalho, mas as suas fracas habilitações reduziam as oportunidades. Foi fazendo uns “biscates” na construção civil, mas a sua débil compleição física e uma doença respiratória crónica rapidamente o obrigaram a parar. Na cabeça de Abel começou a germinar a ideia de ir trabalhar para a Suíça. Lucília, a mais velha de 11 irmãos que vira já partir todo o clã familiar, opôs-se com determinação. Desta vez, não haveria mais partidas. Tinha construído a vida com esforço, não ia agora deixar os filhos.
A vida, porém, revelou –se madraça e Abel não voltou a encontrar um emprego fixo. Um trabalho que parecia promissor numa oficina de automóveis ainda chegou a afastar as nuvens negras mas, ao fim de quatro anos, o patrão passou a oficina a patacos e Abel viu ali crescer um prédio. Candidatou-se a porteiro mas, o vício da bebida que ganhara desde o fecho da Mague, era um mau cartão de visita.O amigo veio uma vez mais em seu auxílio. Tinha um terreno em frente à casa do casal e propôs a Abel que lá cultivasse “umas batatas”, ao menos para estar ocupado. Abel aceitou o repto e começou a plantar umas batatas, depois umas alfaces e uns tomates, mais umas ervilhas e foi-se afeiçoando à terra . Desde 2004 a produção tem crescido e, duas vezes por semana, Abel vem para EN 10 vender os produtos da sua “quinta”.
À beira da estrada, uma senhora pára o carro. “Então a como são as alfaces hoje, sr Abel? Quero duas. Dê-me também dois quilos de tomates e 10 quilos de batatas”. Abel acondiciona tudo no carro da cliente, faz o troco e despede-se com um “até p’rá semana, D. Palmira”. Volta para o seu posto e, enquanto afaga o Piloto, inseparável companheiro, diz-me com o olhar parado, fixo no infinito: “Para isto, não valia a pena ter vindo para Lisboa. Ficava lá na Póvoa e se calhar vivia com menos canseira... ou tinha emigrado para a Suíça como os meus cunhados, que estão podres de ricos”.
Os olhos humedecem num desconforto quase pungente, enquanto os lábios trémulos deixam sair em balbúcio o lamento: “ A vida para mim acabou demasiado cedo. A sorte foi que consegui criar os meus filhos e graças a isto talvez não precise de vender a casa. Mas isto não é vida para um homem da minha idade...”