sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Crónicas de Graça # 4

Viajar ou turistar?

Quando era miúdo, um anúncio da Schweppes, de grande sucesso na época, ajudou-me a responder a esta pergunta. No filme animado via-se um guia rebocando um grupo de turistas. Apressadamente, passavam por monumentos como a Torre de Pisa, a Torre Eiffel, ou o Big Ben. Se algum pretendia demorar-se um pouco mais, o guia tratava de o apressar dizendo que ainda faltava ver o melhor. E qual era o melhor? Uma garrafa da Schweppes, que os turistas aplaudiam freneticamente, pois já estavam sedentos depois da longa caminhada.
Ri-me muitas vezes ao ver aquele pequeno “reclame”, mas sempre tive a certeza que não era daquela forma que desejava conhecer o mundo. Comecei a viajar muito cedo na companhia dos meus pais, que me incutiram o gosto de viajar e me ensinaram a usufruir esse prazer da melhor maneira. Vendo pouco de cada vez , mas saboreando o que se vê. Quando, com apenas 12 anos, fui pela primeira vez à Escandinávia, viajei de carro. Ainda hoje, o meu maior prazer é pegar no carro e sair sem destino previamente traçado, à descoberta da Europa. Faço o mesmo na América Latina e até na Índia me aventurei , percorrendo todo o norte e entrando no Nepal ao volante de um automóvel.
Viajar é andar de olhos bem abertos à descoberta de realidades diferentes das do meu país - sejam elas boas ou más - de contactar com as pessoas, perceber como elas vivem, de trocar opiniões sobre o seu modo de estar, a sua relação com o Estado, os modelos sociais do país, como funciona a justiça, a saúde ou a educação. Numa frase apenas: gosto de sentir o pulsar do país que escolhi como destino de férias.
Viajar é não ter horários, percursos rígidos, hotéis previamente reservados. É parar o tempo que me apetecer, onde me apetecer, seja para desfrutar da paisagem, de um quadro num museu, ou simplesmente para me sentar numa esplanada, ou num café, a observar as pessoas ou os edifícios. Gosto de conhecer pessoas durante as viagens. Não só os locais, mas também outros viajantes que, como eu, andam à descoberta.
Nunca gostei de fazer turismo, essa palavra inventada pelas elites inglesas, no século XIX, para definir as viagens que faziam pela Europa e que hoje, graças às viagens organizadas e ao turismo de massas se transformou numa indústria altamente rentável, a que chamo turistar.
Andar em manada com um grupo de turistas comandados por um guia que terá de ser obrigatoriamente um bocado ditador, não me dá qualquer prazer. Nem sempre posso ver aquilo que quero, sou obrigado a ver o que não quero, controlam-me o tempo ao minuto e, acima de tudo, obrigam-me a parar em lojas de para me impingirem produtos que não me interessa comprar. Para muitas senhoras e alguns cavalheiros esses são os momentos mágicos das viagens. É vê-los a suar em bica, com medo que alguém se antecipe na compra do tapete, do cloisonet, ou da seda de que se enamoraram, desde o momento em que o brilhante apresentador as fez desfilar diante dos seus olhos ávidos de compras. Normalmente são os primeiros a puxar do cartão de crédito e os últimos a sair destas lojas para turistas, onde a paragem- obrigatória- se prolonga por mais tempo do que em alguns museus ou monumentos que, alegadamente, foram a causa da escolha da viagem.
Já entrei, duas vezes, nessa aventura das viagens organizadas. Da segunda vez- há muitos anos- antecipei-me ao Mário Lino e disse:viajar assim, jamé.
Ao contrário dos ingleses do século XIX que partiam à descoberta da Europa, o turismo de massas perdeu a sua componente de aventura e descoberta. Hoje em dia, nas viagens organizadas, vemos aquilo que os operadores querem e resta pouco tempo para a descoberta.. A maioria dos destinos que nos oferecem são locais de turismo massificado, onde já se perderam as características locais, porque uma das perversidades do turistanço, foi tornar muitos destinos numa espécie de fast food, onde somos obrigados a engolir o “prato da casa”. Turistar é uma actividade predadora, que destrói a biodiversidade, provoca gravíssimos danos ambientais e perverte as culturas locais ( mas disso falarei outro dia).
Mesmo a maioria dos destinos que hoje nos são apresentados como exóticos, nessas viagens à la carte, apenas preservam, do seu exotismo, algumas palmeiras e um folclore “prêt a porter”, porque a indústria turística tem contribuído para matar muitas tradições locais e mudar os hábitos de vida.
Só viajando podemos ainda encontrar tradições em estado puro e desfrutar do enorme prazer da descoberta de outras terras e outras gentes. Isso exige tempo e trabalho mas, infelizmente, só temos um mês de férias por ano...
E agora, vão ver o que a minha querida parceira pensa do assunto.