sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Chega de palavras. Passemos aos actos

Surgiram algumas dúvidas em relação a este post. E com razão. Na verdade, o Dia do Idoso foi a 1 de Outubro e no dia 28 comemorou-se o Dia da Terceira Idade. Não compreendo a razão de se assinalarem os dois dias no mesmo mês, mas presumo que haja alguma explicação que me tenha escapado.
Já agora... sabiam que o Dia dos Avós ( que só recentemente se começou a comemorar em Portugal) é em Julho?
Com tantos dias homenageando de diferentes formas a "Terceira Idade", era altura de a sociedade se preocupar um pouco mais com os velhos. De palavras e boas intenções já estamos todos fartos.

Admirável Mundo Novo*

Mulheres vítimas de escravatura sexual. Crianças traficadas e sodomizadas para deleite de adultos perversos. Traficante de droga abatido a tiro pela GNR. Mulher espancada pelo filho, por se recusar a dar-lhe dinheiro para comprar droga. Padre guarda armas na Igreja onde celebra missa e, provavelmente, apregoa aos fiéis o amor e a paz, perante o silêncio da Igreja, tão lesta a criticar as palavras de Saramago sobre a Bíblia, mas sempre remetida ao silêncio quando algum dos seus pastores se vê envolvido em actos criminosos. Juiz manda em paz um pedófilo acusado de abusar sexualmente da sobrinha, por considerar que o acto não justifica uma medida coerciva pesada.
São notícias deste maravilhoso mundo novo que leio em jornais abandonados numa mesa de café, enquanto espero a hora de iniciar uma entrevista numa recôndita aldeia barrosã. A que mais me impressiona, pela leveza da decisão do juiz, é a medida de “Termo de Identidade e Residência “ aplicada ao pedófilo. Haverá razões que a justifiquem, mas dá-me a impressão que os crimes começam a ser tão banalizados, que os juízes se comportam perante as vítimas coma indiferença de um médico legista perante um cadáver.
Também não estranho, por isso, a notícia de um grupo de portugueses que angaria trabalhadores para labutar em quintas espanholas, com a promessa de salários atractivos. Aí chegados, prendem-nos, roubam-lhes a documentação e ficam com o dinheiro pago pelos empregadores. Estes casos começam também a tornar-se tão frequentes, que geram apenas 30 segundos de emoção e zero de reflexão.
Resisto a entrar na onda conformista. Quero uma sociedade mais justa. Quero regras e punições exemplares para os criminosos. Não aceito esta sociedade miserável, de comportamento medievo, que os ultra-liberais prometem como “El Dorado”, onde a iniciativa privada é a única regra aplicável. O resto é o salve-se quem puder, onde cada um fica entregue às contingências do destino, porque a justiça é morosa, quando não inexistente.
Na mesa ao lado da minha, um sexagenário desdentado saca o valete de trunfo e, triunfante, diz “toma lá, esta é para comer o teu ás de copas”. A “mine” estatela-se no lajedo com estrondo, derrubada pelo gesto vigoroso do ancião. “Traz mais outra, Manel, que os patinhos pagam”.
Pois é. O mundo é um simples jogo de cartas. Quem tem a melhor mão ganha. Ou então, farto de esperar por uma mão ganhadora, faz “bluff”, vai a jogo e na impossibilidade de vencer com as cartas que lhe caíram em sorte, tenta fazer batota na esperança de não ser descoberto pelo adversário, ou merecer a complacência de quem for competente para julgar os seus actos. Os batoteiros são (quase) sempre premiados neste mundo ultra liberal, cujo ás de trunfo é o lema “A sorte protege os audazes”. Assim é. Os banqueiros que levaram o mundo à ruína confirmam-no no fausto das suas vidas de criminosos impunes. Com o fim da crise, preparam-se para recomeçar a sua vida de agiotas, perante a reverência dos poderes instituídos e tendo como companheiros de jornada alguns empresários sem escrúpulos. Quem trabalha continuará a sustentar-lhe os vícios, pagando os impostos.
Merda de mundo este que tanto tem evoluído em novas tecnologias e abastança, mas continua a regredir no respeito pela condição humana.
* Título pedido emprestado a um livro de Aldous Huxley, escrito em 1931

A caminho de Copenhague

Sucedem-se, um pouco por todo o mundo, as reuniões preparatórias da conferência sobre as alterações climáticas, que se realiza em Dezembro, em Copenhague. Acompanhei o Carlos em duas dessas reuniões realizadas esta semana e, enquanto ele se entretinha a falar sobre “o relevante papel que os consumidores podem desempenhar no combate às alterações climáticas”, eu entretive-me a assistir a uma conferência sobre a água.
Não foi falta de respeito pelas palavras do Carlos, mas já conheço o discurso de ginjeira e embora reconheça que ele tem razão quando diz que se os consumidores fossem mais conscientes nas suas escolhas, reduzir-se-iam diariamente toneladas de emissões de gases com efeito de estufa, a verdade é que, não sendo eu humano, só consumo o que a Natureza me dá.
Ora uma das coisas que eu faço é beber muita água e como cada vez é mais difícil beber água de boa qualidade nos rios e mar, ando preocupado com isso. Já ouvi o Carlos dizer que a escassez de água vai ser uma das causas de guerras durante o século XXI e, desde aí, o tema passou a interessar-me muito. Pois ontem, o que ouvi naquela conferência, deixou-me com os pêlos todos eriçados. É que percebi que o Carlos tem mesmo razão quando diz que é preciso poupar água e preservar os rios e mares das fontes poluidoras e, além disso, fiquei a saber que os israelitas são uns patifes que estão a impedir os palestinianos de aceder à água.
Vocês sabiam que Israel impede a construção de infra-estruturas hídricas na zona da Cisjordânia, onde vive 60% da população palestiniana e que depois do ataque a Gaza, Israel proibiu o transporte de água para a Cisjordânia, deixando 800 mil pessoas sem água?
Além disso, como a água é pouca, a sua distribuição é feita pelos israelitas de forma desigual: meio milhão de israelitas, tem direito à mesma quantidade de água dos quase 2,5 milhões de palestinianos. Em números, isso significa que enquanto cada israelita consome 300 litros de água por dia, um palestino só tem direito a 70, apesar de a OMS considerar que ninguém pode sobreviver ali em condições dignas, com menos de 100 litros por dia.
Eu, que até não percebo nada de política, tive vontade de dar umas bicadas num israelita gordalhufo que estava a assistir à conferência e fiquei espantado por não ver ninguém a reagir contra esta selvajaria mas, como não sou humano, o problema deve ser meu, que sou facilmente impressionável com as injustiças do mundo.
Olha, está ali uma fonte, vou mas é matar a sede. Que se lixem os palestinianos . Se o mundo não lhes liga nenhum, nem se revolta contra as injustiças de que são vítimas, devem ser gente muito má e estão a ter o castigo que merecem.