sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Crónicas de Graça # 2

Hippies e Yuppies
Nos anos 60 era usual os jovens despedirem-se cedo de casa dos pais e fazerem-se à vida. Na Califórnia, alguns filhos de famílias abastadas e com escolaridade elevada, despediram-se dos pais, puseram uma flor no cabelo, deixaram-no crescer até à cintura, trocaram o maço de Marlboro por uns gramas de haxixe ou LSD, abandonaram os trajes clássicos para vestirem túnicas, gangas e blusas de cores garridas estampadas com flores, optaram por confortáveis sandálias em detrimento dos sapatos opressores e aterraram em Berkeley, onde criaram o primeiro slogan (“Peace and Love”) que definia a sua filosofia de vida.
Herdeiros da “beat generation”, rebeldes mas pacifistas, divulgavam a sua doutrina através da música, composta com a preciosa ajuda das drogas e escolheram como hino uma canção de Bob Dylan ( “Blowing in the wind”). Tinham também uma espécie de “jingle” publicitário para anunciar a quem se quisesse juntar-se a eles, o caminho a seguir e as regras a que se deviam sujeitar: “(if you go to) S. Francisco be sure to wear some flowers in your hair”. A senha de entrada era a frase “Ban the Bomb”.
Cultivavam uma saudável fobia ao trabalho, mas promoviam o debate de ideias em festivais de música onde o suave aroma das drogas libertava as mentes, expressando a sua criatividade através da arte. O mais famoso foi o “Festival de Woodstock”.
Durante três dias, meio milhão de jovens empunhando flores, partilhando drogas e cantando a esperança de um futuro de paz e amor, acreditou que ia mudar o mundo. A maioria deles chegou de moto ou em psicadélicas carrinhas Volkswagen, -um ícone da geração hippie- empunhando a bíblia do movimento: a Rolling Stone.
Alguns dos presentes afiançam que nas proximidades do local onde se realizou o “Festival” se erguiam tabuletas com a frase que os epicuristas colocaram à porta do jardim onde se reuniam: "Estranho, aqui serás feliz. Aqui, o prazer é o bem supremo!".Certo é que, durante o certame, foi divulgada a descoberta da pílula e, ao fim dos três dias, os participantes decidiram partir para espalhar pelo mundo a boa nova: "Make Love, not War”.
Uns rumaram a sul, outros atravessaram o Atlântico em direcção à Europa, outros ainda cruzaram o Pacífico em direcção à Ásia. Poucos foram o que se aventuraram a uma paragem na Península Ibérica, onde de imediato os catalogaram de andrajosos, avessos a tomar banho , preguiçosos e transmissores de maus costumes. No início dos anos 70, porém, a sua mensagem chegava a todo o mundo, estava consagrada no cinema através de “Easy Rider” e influenciava o mundo virtual das bonecas, onde despontava uma Barbie de túnica e ganga vestida, usando flores no cabelo.
Por razões ainda não muito bem explicadas, os hippies falharam a sua missão. Cansados da vida nómada e talvez desencantados com o pouco acolhimento dos seus ideiais, muitos hippies converteram-se ao trabalho. Aburguesaram-se e ocuparam cargos proeminentes no mundo laboral e da política. Outros, fundaram comunidades nos vários continentes. Christiania ( Dinamarca ) e El Bolsón ( Argentina) são as mais conhecidas, mas existem outras que merecem destaque, como Jeraquaquara ( Brasil) e Goa (Índia) onde procuram- com cada vez menos sucesso- manter a tradição.
Talvez por culpa de métodos contraceptivos pouco elaborados, os hippies geraram uma geração que foi o seu contrário: os yuppies.Contrastando com os seus progenitores, os yuppies adoravam trabalhar, tinham gostos requintados, gostavam de se apresentar bem penteados e lavadinhos, encadernados em fatos de marca que seguiam os rigores da moda, de onde despontavam gravatas de cores psicadélicas, em jeito de homenagem aos gostos dos seus progenitores. Em vez de flores no cabelo usavam gel e cheiravam a Aramis ou a Lavanda.
Não tinham um lema de vida, mas tinham um objectivo: enriquecer depressa, seguindo a máxima “os fins justificam os meios”. Em vez da solidariedade dos antepassados, os yuppies distinguiam-se pelo individualismo. O culto do “eu” conduziu à criação do modelo social “Eu, Ldª” cujas características fundamentais são a indiferença face às questões sociais, o saber especializado em detrimento do saber multifuncional, o analfabetismo cultural, onde cabe o desprezo pelo debate de ideias e a ausência de uma filosofia de vida. Não admira, por isso, que tivessem trocado o interesse pelos tops musicais, pela consulta obsessiva das cotações da Bolsa, a leitura da Rolling Stone pelo Financial Times, as carrinhas Volkswagen, pintadas em cores psicadélicas, pelos BMW ou Audi de cores austeras, as flores no cabelo por telemóveis colados ao ouvido.

Ao contrário dos hippies, os yuppies começavam a trabalhar logo que acabavam os estudos, mas permaneciam em casa dos pais.. As diferenças também se manifestavam nos comportamentos sexuais. O hippie adormecia com uma valente pedrada. Ao acordar, olhava para a companheira do lado e perguntava “como te chamas” com um sorriso nos lábios, prontamente retribuído.
O yuppie, condicionado pelo princípio “Make love, but work before”, casava mais cedo e deixava para segundo plano a actividade sexual. Entrava em casa pela calada da noite, esforçando-se por não acordar a mulher, mas quase sempre tinha azar, porque tropeçava numa cadeira atravessada no caminho. A mulher acordava estremunhada e perguntava “ Luís que horas são?” e recebia como resposta “é muito tarde querida, tive uma noite terrível porque se meteu um raio de um vírus no computador e não conseguia terminar o projecto que tenho de apresentar amanhã a uns novos clientes da empresa que podem trazer-nos muito dinheiro”. O drama destas cenas era corresponderem à verdade. Não era a secretária, nem uma voluptuosa ucraniana que o afastavam do leito conjugal, não senhor, era mesmo o trabalho e a mulher sabia isso muito bem. Por isso, quando o yuppie sorrateiramente mergulhava nos lençóis, a mulher encostava-se a ele, mas recebia como resposta “ querida hoje não que estou muito cansado e dói-me a cabeça”.
Uma coisa hippies e yuppies tiveram em comum. Acabaram aos 40 anos, quando a crise da meia idade provocou os seus estragos. Os exemplares que permanecem, de ambas as espécies, são cada vez mais raros. Workaholics, metrossexuais e indivíduos híbridos, disputam o seu legado.
Agora vão ver o que a minha querida parceira destas crónicas quinzenais tem a dizer sobre este assunto.