domingo, 18 de outubro de 2009

(Como um) dia de Domingo*


Tenho uma má relação com as tardes de domingo. Quando era miúdo e os jogos de futebol nas Antas eram às 3 da tarde , acabava de comer à pressa a sobremesa do almoço em família para não perder o pontapé de saída e depois regressava a casa para assistir aos jogos de canasta dos adultos.
Em Lisboa, as tardes de domingo eram passadas a namorar ou estudar, mas quando fui para Inglaterra comecei a encarar os domingos como um dia diferente, cheio de animação. Começava a manhã nos pubs ou em Park Lane a ver os jogos do meu Tottenham, as tardes eram normalmente passadas a voar até Lisboa e terminavam num jantar tardio com amigos, num restaurante turco da Queensway.
Quando iniciei a minha vida de andarilho, fui descobrindo que em cada cidade por onde passava o domingo tinha a sua particularidade. Finalmente, após regressar a Portugal, o cinema ao fim da tarde, no Outono/Inverno, seguido de um jantar no Saraiva’s passou a fazer parte da ementa de domingos que nunca começavam cedo, porque na véspera a noitada tinha ido até às tantas. No Verão, estando por cá, recolho-me no Rochedo a contemplar o mar na companhia de um livro e música. Quando todos estão a regressar a casa, depois de uma banhada de sol, começa para mim o domingo. Normalmente com um jantar em local escolhido a preceito, em frente ao mar. O que se segue é sempre uma incógnita, mas raras vezes a noite acaba cedo.É óbvio que sendo uma pessoa pouco dada a rotinas, a descrição que acabo de fazer aplica-se a um domingo-padrão, mas não é religiosamente cumprida. Olhando para trás, encontro, no entanto, um fio condutor nos meus domingos. É um dia em que gosto de estar sozinho, pelo menos até à noite. (As idas ao futebol não eram em grupo e os fins de tarde numa sala de cinema são, preferencialmente, passados na exclusividade da companhia que faço a mim próprio).
Quando passo o fim de semana fora- o que felizmente faço com muita frequência- o meu maior prazer na manhã de domingo é, hoje em dia, assistir ao despertar da cidade. Gosto de deambular pelas ruas ainda quase desertas e de as ver encher-se aos poucos de gente. Depois, quando já estão suficientemente cheias, recolho-me num local sossegado a ler um livro, como qualquer coisa e depois procuro testemunhar a forma como as pessoas se entretêm nas tardes de domingo nas várias cidades do mundo. Já constatei que as diferenças não são muitas nos países ocidentais, embora na maioria dos países latinos, os domingos acabem de forma bastante mais animada do que é uso aqui em Portugal.
A prosa já vai longa e ainda não falei daquilo que motivou este post. O objectivo era apenas dizer que esta manhã resolvi armar-me em turista e desbravar Lisboa numa manhã de domingo. Já não o fazia há muito tempo e deu-me um especial prazer. Do Rato até ao Chiado e daí até ao Museu do Design (MUDE), fui caminhando lentamente, assistindo ao despertar da cidade, onde a maioria dos caminhantes eram turistas. Juntei-me a eles na contemplação do Tejo, de onde se desprendia uma leve neblina anunciando amanhãs cinzentos. Encontrei também um grupo de estudantes de um curso de fotografia, nas imediações do Príncipe Real, e vestígios de uma noite bem regada no Bairro Alto. Quando saí do MUDE e me dirigi para o elevador de Santa Justa, encontrei as esplanadas pejadas de turistas. Acabei por me sentar numa. Tomei um café, comi um muffin e li um pouco. À minha volta ouvi falar várias línguas, mas nem uma palavra de português. Viajei um pouco pelo mundo sem sair de Lisboa. Quando regressei a casa, liguei a televisão e fiquei a ver a parte final da entrevista da Helena Sacadura Cabral no “Só Visto”. Quando acabou decidi escrever este post.
Raras vezes escrevo no blog ao domingo, (normalmente agendo os posts de fim de semana à sexta-feira) mas hoje, impulsionado pelas recordações de domingos passados, decidi quebrar a regra. Agora vou regressar à leitura e depois logo se vê. Talvez toque o telefone fixo ( desligo sempre o telemóvel ao domingo) e do lado de lá alguém me diga como vai acabar este domingo que já cheira a Outono. Sim, porque os domingos que em Lisboa acabam bem, são normalmente entre Outubro e Abril.