quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Só faltam 2 dias

Sentem-se confortavelmente. Costas direitas, neurónios alerta. Preparem os blogocomandos para fazer "zapping".

Autumn Leaves

Aviso prévio: este post é uma prova de resistência. E de paciência.


Estes dias plúmbeos em que o Céu, como que alijando as suas responsabilidades, deposita sobre as nuvens o peso de todas as agruras do mundo, obrigando-as a derramar sobre a Terra as lágrimas de desconforto provocadas por tantas injustiças, catástrofes humanas e naturais, deixam-me macambúzio.
Sempre que posso procuro o mar, na tentativa de aproveitar a circunstância da praia deserta para dialogar com ele. Invariavelmente pergunto-lhe:
-Ó Mar! Tu que estás constantemente em diálogo com o Céu, numa linha do horizonte que nós, humanos, não conseguimos alcançar, já alguma vez lhe perguntaste a razão de ter posto cá na Terra seres humanos tão ignóbeis e hipócritas, prenhes de maldade, que enchem a boca com conselhos que não cumprem? Porque falam os homens de igualdade, justiça ou paz, mas os seus actos são sempre contrários àquilo que apregoam?
O mar traz-me a resposta na espuma de uma onda que se espreguiça no areal. É uma resposta cifrada que nunca consigo traduzir. Volto um e outro dia até que, desalentado, vazio de esperança, decido rumar a Sul ao encontro do Céu azul e do calor das gentes da América Latina. Lá já não procuro o Mar. Refugio-me na calma dos parques naturais da Patagónia ainda por descobrir, onde a avidez do Homem ainda não matou o sonho.
Ontem, a minha agenda não me permitiu ir falar com o mar. Trabalho pela manhã e, à tarde, acompanhamento de um familiar a uma consulta. Como já conheço o médico, sei que a consulta marcada para as quatro da tarde não se realizará antes das sete. Decidi, por isso, comprar um livro para me entreter enquanto esperava. Entrementes, pensei que deveria pedir ao médico que descontasse na consulta o preço do livro, mas desisti porque seria falta de educação afrontar o senhor doutor na sua catedral onde exerce medicina privada, zombando dos seus pacientes, a quem sujeita à obrigatoriedade de expiarem os seus pecados na dura prova da paciência purificadora. Com um médico do SNS que se atrase meia hora na consulta, todos podem protestar, mas com um senhor doutor professor e o raio que o parta, que cobra 100 euros por cada consulta (sem direito a recibo), ninguém pode protestar, porque seria uma falta de educação que Sua Sumidade não toleraria.
Não sei se já vos disse como odeio consultórios médicos. A maioria deles não tem luz directa, são tão sombrios como a antecâmara da morte, com a diferença de existir sempre um televisor sem som,cuja utilidade nunca descortinei, salvo quando estão a transmitir um combate de boxe ou outra qualquer actividade desportiva que não precisa de legendas. Só que a maioria dos médicos não paga a Sport TV, por isso as imagens que saem do televisor de um consultório são tão inúteis e inexpressivas como os programas da SIC durante a tarde. Na verdade, aquilo não precisa de som. Adivinha-se que entre sorrisos e lágrimas, desfila pela pantalha a descrição do lado mais sombrio da vida dos portugueses. Há queixas e lamúrias, campanhas de solidariedade ou exaltação do voluntariado, acopladas a cenários de desgraça que numa sociedade que se pretende justa não deveriam existir. (Ontem, percebi quando cheguei a casa, era dia de festa em Carnaxide).
De qualquer modo, talvez seja preferível ver um daqueles programas, a ter de suportar o canal da Assembleia da República em dia de sessão plenária, como me aconteceu um dia em que uma forte dor de dentes me atirou para o consultório de um dentista.
A dor era tão forte que não conseguia concentrar-me na leitura de um livro e, folhear uma dessas revistas da imprensa cor de rosa que enxameiam qualquer consultório médico que se preze onde, com sorte, podemos encontrar uma edição com três meses de atraso, não é actividade que se recomende. Entretive-me, por isso, a tentar decifrar o que os deputados e o primeiro-ministro diziam. Em vão. O que não me causou qualquer embaraço, pois muitas vezes também não consigo perceber o que dizem, mesmo com o som ligado. A verdade, porém, é que naquele esforço consegui distrair-me e aliviar a dor. Quando me chamaram para a consulta já nem sabia ao certo identificar o dente que me doía e a custo cedi à tentação de dizer à zelosa e curvilínea funcionária, que afinal já não precisava da consulta, porque a dor tinha passado. Limitei-me a sugerir à dentista que acabara de fazer uma descoberta sensacional: a AR TV é um excelente analgésico. Pelo menos para as dores de dentes.
Bem, mas voltemos ao consultório onde ontem passei a tarde. Já as sete da tarde se tinham esfumado há um bom pedaço, quando a empregada, mais carcomida do que a madeira da mesa onde repousavam as revistas, anunciou com voz de enfado, ser a nossa vez. Meia hora e 100 euros depois estávamos na rua.


A noite já caíra sobre a cidade, disfarçando o céu plúmbeo. Filas de carros conduziam de regresso a casa, em marcha lenta, milhares de almas no fim de mais um dia de trabalho. Muitos deles passaram o dia enjaulados, como eu, mas em escritórios assépticos, privados da luz do dia. Alguns regressam com a sensação de alívio de quem justificou o seu vencimento. Outros, ansiando pelo dia seguinte, porque quanto mais tarde saírem do escritório, menos tempo são obrigados a viver no ambiente familiar que já não suportam.
O senhor do Audi vai com o ar satisfeito de quem enganou alguém num negócio. A senhora do Fiat Uno leva, no banco traseiro, o fruto de uma noite de amor, preso a uma cadeirinha. O jovem do Opel Corsa vai a falar ao telemóvel . Pelo ar entusiasmado, deve estar a combinar uma patuscada com amigos. As jovens do Clio vão em conversa animada. Irão a contar as aventuras do fim de semana? No semáforo, pára ao nosso lado um Renault Laguna. Lá dentro, um casal na casa dos quarenta. Nos minutos em que estão parados não trocam uma palavra. Cada um vai mergulhado nos seus pensamentos. Que provavelmente nunca se cruzarão.
Eu vou num táxi. Disfarço a preocupação com as notícias do médico. Uma intervenção cirúrgica nunca se encara de ânimo leve. Pego no livro que não li. Releio o título e respiro fundo: “ A Sombra do que Fomos”. Decido escrever um post sobre o primeiro livro que li deste autor, quando chegar a casa. Gosto do velhos que lêem romances de amor. E gosto do Luís.
(…….)
Terminei o post. Não escrevi sobre aquilo que pretendia. Não cumpri os objectivos. Como muitos dos que ontem passaram por mim, ao fim do dia, e no final do ano serão avaliados. Eu tenho a sorte de não ter de me preocupar com isso. São os leitores que me irão avaliar. Na caixa de comentários e no sitemeter. O post sobre o Luís Sepúlveda pode esperar. Vocês importam-se?