segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Tango Património da Humanidade

Na Plaza Dorrego ( San Telmo) todos os domingos se dança o tango

O Tango foi reconhecido, pela UNESCO, Património Imaterial da Humanidade. Não sei se fique contente, se triste, com a notícia. Apesar de o "Imaterial" não lhe retirar a volúpia e sedução que confere ao tango aquela magia ímpar, receio que este reconhecimento universal lhe possa conferir um estatuto aristocrático que nada tem a ver com as suas origens. Tal como o Fado, também o tango tem, nas suas raízes, uma boa parte da sua riqueza. Talvez percebam melhor o que quero dizer, se lerem esta pequena sinopse sobre a chegada do tango a Portugal,que escrevi em tempos para fins académicos. Hoje, decidi tirar-lhe as amarras e dar a conhecer aos leitores do Rochedo um pequeno extracto.


O Tango em Portugal


A história do tango em Portugal faz-se por ciclos, cada um deles marcado por diferentes influências. O primeiro remonta à segunda década do século passado, quando vários emigrantes argentinos desembarcam em Paris levando consigo o tango, como símbolo da sua Pátria. A melodia e a sensualidade da dança fazem furor na capital francesa, que então dita a moda na Europa, razão porque rapidamente se espalha pelo velho continente e chega a Portugal, no meio de enorme celeuma. A Igreja é a primeira a dar o mote, apelidando o tango de “dança do demónio”. A alta sociedade acata respeitosamente o aviso dos clérigos e o tango circunscreve-se a pequenos redutos populacionais, constituído por pessoas de baixa condição social.


A entrada do tango nas danças de salão em Portugal far-se-á apenas no final dos anos 20 e durante os anos 30, por força da voz de um uruguaio radicado na Argentina: Carlos Gardel. Mi noches tristes” e “Mi Buenos Aires Querido” são os primeiros tangos de Gardel a agitar a alta sociedade portuguesa da época. As senhoras conhecem as letras de cor, os homens apaixonam-se pela dança, mas é sempre sob olhares de reprovação que um par se afoita a dançar um tango nos bailes da burguesia . Como dança de salão, porém, o tango é tolerado, sob o pretexto de se tratar de “danças de exibição”, fazendo sucesso nas sociedades recreativas.


A morte de Gardel ( uma espécie de James Dean dos anos 30) em 1935, deixa em convulsão milhares de fãs, e os seus filmes continuaram a ser exibidos até à exaustão em todo o mundo. É no início dos anos 50 que aparece uma escola de tango vanguardista, onde se notam influências de Bach, Strawinsky e do Cool Jazz. Inicia-se então um novo ciclo “tanguero”, cujo expoente máximo é Astor Piazzola.


Nos salões dos ateneus e clubes onde as filhas das famílias ricas debutavam, a valsa continuava a ser a dança de abertura dos bailes, mas ao tango já era dado algum espaço: recatado e em fim de noite. Só que o tango que ganha raízes em Portugal tem pouco a ver com a dança sensual que punha a alta sociedade portuguesa escandalizada em público, mas em polvorosa em festas privadas. O tango dançado naqueles espaços selectivos era uma versão “soft” que viria a conhecer o seu apogeu com uma estrela mexicana elevada a “sex symbol”: Sara Montiel.


O analfabetismo musical dos portugueses não lhes permitia perceber a diferença, razão porque as músicas de El último Cuplé” , “ Mi Ultimo Tango” ou “La Violetera” eram dançadas como se de verdadeiros tangos se tratassem.(terá tido aí origem a expressão “ Isso é tudo tanga”?).


A revolução musical e “dançante” dos anos 60 erradicou o tango das salas de baile portuguesas, com os jovens a repartirem as suas preferências entre as melodias delicodoces da canção francesa e os sons mais trepidantes dos Beatles ou dos Rolling Stones. A voluptuosa “Je t’aime, moi non plus” representa o extertor da música francesa, dando lugar aos sons anglo-saxónicos. O tango é remetido para o “guetto” de grupos recreativos como “Os Alunos de Apolo” em Lisboa, ou o “Clube Fenianos” no Porto, onde animava os “chás dançantes” de bailarinos mais idosos.


Só no final da década de 90 o tango conhece um novo impulso em Portugal. Em 1997, abre no Porto o clube “Tang’r Easy”, mas o “boom” acontece no ano seguinte durante a “Expo 98”. No pavilhão da Argentina realizam-se exibições diárias e, nesse mesmo ano, realiza-se em Lisboa a Cimeira Mundial do Tango. A bailarina portuense Solange Galvão e o músico bonaerense Alejandro Laguna decidem abrir na capital uma escola de tango ( Dance Factory) e ao domingo recebem alunos na Barraca. O tango-dança estava de regresso a Portugal, assistindo-se a uma crescente adesão dos portugueses à música do Rio La Plata. Desde então, o número de praticantes e os locais de aprendizagem têm crescido um pouco por todo o país, como que acompanhando o recrudescimento do interesse pelo tango na capital argentina.


Informação adicional: Tenho uam relação estranha com o tango, de que já falei aqui. Quem tiver curiosidade, é so fazer clique e ir lá ver.

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