
Gosto pouco da palavra "idoso". Prefiro velho, porque a palavra é muito mais carinhosa e despida de uma conotação discriminatória que me irrita. No entanto, como hoje não se assinala o Dia dos Velhos, mas o poíticamente correcto Dia do Idoso, é sobre esse dia que escrevo. Para começar, lembrei-me de escrever sobre os Lares.
Há umas semanas, as autoridades (ASAE e Instituto de Segurança Social) encerraram um lar de idosos em Rio Maior. Causa: albergava 120 pessoas, num espaço que estava licenciado para 40.
É extraordinário como há indivíduos que não têm qualquer pejo em enriquecer, amontoando os velhos como porcos, em espaços sem condições. Tratando-os como coisas que se depositam num armazém, à espera que alguém as venha reclamar. Neste caso, à espera do cangalheiro.
Conheço muitos lares de idosos. Como em tudo, há os bons e os maus, mas há uma enorme voracidade de ganhar dinheiro à custa dos velhos. Os proprietários deste lar eram um exemplo disso. Não só os amontoavam, como não lhes disponibilizavam pessoal de apoio em número suficiente.Gente desta estirpe merecia ser severamente punida. Condenada a restituir aos velhos o dinheiro que lhes andou a cobrar ao longo de vários anos, proibida para sempre de explorar um lar e privada da propriedade onde os albergava, que reverteria para a Santa Casa da Misericórdia local.
Muitos destes velhos serão, provavelmente, pessoas sem problemas graves de saúde que mereciam maior atenção por parte das famílias e do Estado. Gente que precisa de atenção e carinho e não pode ser tratada como um objecto de quem a família se quer ver livre e a quem o Estado não dá condições de vida dignas. O actual governo tem tomado algumas positivas em relação aos idosos mas não tem criado condições para que as famílias não se vejam obrigadas – por falta de alternativa- a colocar os seus velhos em lares. Foi uma boa ideia criar um apoio especial para famílias que, tendo seniores a seu cargo, pretendam prestar-lhe assistência.
O problema é que ninguém pode deixar o seu emprego e viver à custa desse apoio…Não é com apoios financeiros e outros incentivos para os lares, que se resolve o problema dos velhos. É com disponibilização de afectos…
Esteve bem o Instituto de Segurança Social em proceder ao encerramento. Há uma enorme falta de lares, mas o problema não se resolve fazendo vista grossa às ilegalidades. Isso seria pactuar com exploradores. Essencial é que se multiliquem os lares oficiais e as IPSS com condições de habitabilidade aceitáveis, só acessíveis a um reduzido número de "eleitos", tal é a discrepância entre a oferta e a procura.
É muito importante que o Estado crie creches mas, num momento em que a população portuguesa está a envelhecer de forma preocupante, o investimento nos lares de terceira idade é igualmente prioritário.