quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O jipe e a dondoca

A “dondoca” seguia a boa velocidade por uma das faixas laterais da Av. da República em direcção ao Saldanha, conduzindo o seu “Jeep”. Já há algum tempo tinham batido as seis badaladas vespertinas mas, àquela hora, carrinhas e camiões ainda estacionavam descontraidamente em segunda fila, numa azáfama modorrenta de cargas e descargas. Ziguezagueando entre os camiões estacionados, a “dondoca” ia gesticulando com alguma agressividade, manifestando o seu desagrado por conduta tão desrespeitosa quanto ilegal, que os brandos costumes da polícia toleram com bonomia.
“Vai certamente com presa de regressar a casa” – pensei na minha inocência -quando a vi passar descontraidamente um sinal vermelho, provocando um “guinchar” de travões dos carros que vinham da Miguel Bombarda com o sinal verde aberto, na desesperada tentativa de evitar a colisão. Acelerou e continuou o seu caminho, acenando com a mão direita , enquanto a esquerda segurava o telemóvel. Cem metros adiante, abrandou, ligou os piscas, estacionou em segunda fila, trancou as portas e dirigiu-se em marcha lenta para a farmácia.
*Post publicado em 18/02/2008

Derniers baisers*


“Quand vient la fin de l'été sur la plage
Il faut alors se quitter peut-être pour toujours
Oublier cette plage et nos baisers
Quand vient la fin de l'été sur la plage
L'amour va se terminer comme il a commencé
Doucement sur la plage par un baiser
Le soleil est plus pâle mais nos deux corps sont bronzés
Crois-tu qu'après un long hiver notre amour aura changé ?...”
(Derniers baisers- Les Chats Sauvages)
Inicio o regresso a Lisboa ao fim da manhã, depois de me despedir do Douro. O dia está magnífico, faço um desvio para almoçar em Pedrógão. Praia quase deserta, apesar da temperatura convidativa. Um casal joga raquetes, outro passeia de mão dada à beira mar. Mais adiante, vislumbro um guarda sol que protege dois corpos femininos. Dois casais com aspecto nórdico irrompem no meu campo de visão. Devem andar na casa dos quarenta. Usam todos gangas e t-shirts. Avançam em correria alegre em direcção ao mar. Molham os pés durante uns segundos e voltam para trás em passo lento. Caminham em direcção ao restaurante.
Na esplanada e lá dentro, bastantes turistas. Quase todos nórdicos. Enquanto aguardo a chegada do robalo grelhado, mantenho os olhos fixos na paisagem. A luminosidade, a cor do céu e do mar,a quase ausência de vento e de pessoas na praia, a maioria do comércio fechado, são indícios do fim do Verão. Apenas a elevada temperatura teima em nos confundir nesta dança de estações, cada vez mais mescladas.
Chega o robalo. Não tenho apetite. Sem querer, deixei-me invadir pela força nostálgica do Outono. Olho em volta. É de praias quase desertas que eu gosto mas, neste momento, preferia que estivesse cheia. Tenho sentimentos contraditórios em relação ao Outono. Gosto dos tons acobreados das folhas, da luminosidade dos seus dias de sol. Não gosto do anúncio de fim de ciclo, que culminará no Inverno. Não gosto dos dias chuvosos em que anseio a noite. Já não sinto tristeza. É mais uma sensação de amargura, de quem se despede de um amigo, sem ter a certeza se o vai voltar a ver.
Vendo o robalo quase intacto, a empregada pergunta-me se há algum problema. Não há problema nenhum. Eu é que tenho um problema com estes dias que me provocam sentimentos contraditórios. Animo-me quando penso que o paredão do Estoril vai voltar às suas manhãs felizes. Que vou poder voltar a percorrer o caminho entre o Estoril e a Casa da Guia, sem estar constantemente a tropeçar em gente. Sem ouvir gritos de crianças em birra. Sem me arriscar a apanhar com uma bola, enquanto leio o jornal ou folheio um livro.
O meu Rochedo ganha mais encanto com a paisagem desanuviada. Animado, acabo o robalo e peço a conta. Quero passear um pouco junto à praia antes de retomar a viagem. Decido que vou continuar junto à costa. Quero dizer um último adeus ao Verão em Vieira de Leiria, S.Pedro de Muel, Nazaré, S. Martinho do Porto... com o cabelo ao vento e a música de outras férias a ribombar nos meus ouvidos. Como a que escolhi para título deste post. Espalharei beijos pelos areais. Recordarei estios que ficaram selados com um beijo** e promessas de amor eterno. Quando chegar a Lisboa, conto-vos como foi.
*Derniers baiser é uma canção de 1962 dos “Les Chats Sauvages”, mas a versão que vos deixo aqui é mais recente, interpretada por Laurent Voulzy . Dos criadores desta canção deixo-vos outro dos seus grandes sucessos.
** O título da versão inglesa era “Sealed with a kiss”

Eles divertem-se no Rochedo

Brites- Socorro! Socorro! Estou a morrer asfixiada…
Sebastião- Já não é assim, estás desactualizada. Agora tens de gritar “tenho medo, tenho medo”
Brites- Caramba, estão sempre a mudar!
Sebastião- Que queres que te faça? Desde que o sr. Silva entrou na campanha, temos de dançar às suas ordens. Vá lá, muda o slogan...
Brites- Tenho medo, tenho medo!
Sebastião- De que é que tens medo?
Brites – Tenho medo de ser despedida, porque ontem entrei numa sede do PSD (choro convulsivo)
Sebastião- O que foste lá fazer? Não sabes que isso é crime e o governo tem instaladas câmaras de vigilância ocultas para ver quem entra e sai das sedes do PSD?
Brites- Julgava que isso era só no Público. Tenho medo, tenho medo!
Sebastião- Olha Brites, lamento desiludir-te, mas vais ter de mudar outra vez...
Brites- Então que é que foi agora?
Sebastião- Agora há um refrão novo. “Tenham medo, tenham medo, o PS vai formar governo com o Bloco de Esquerda”!
Brites- Ahahahahahah! Estou a morrer de riso…
Sebastião- Não e de riso, é de medo! Olha que isto é muito sério...Quando é que percebes o guião?
Brites- Olha, chama mas é o boxeur, o Morais Sarmento, porque eu não tenho paciência para isto!
Sebastião- Só mais um bocadinho, Brites. Já só faltam três dias…
Entra o proprietário do Rochedo ( Eu)
Vocês querem acabar com essa mania parva de brincar às campanhas eleitorais?Se querem brincadeiras e palhaçadas vão mas é para a Madeira, porque aquilo é que é uma democracia! Este Rochedo é uma casa séria...

Sugestão do dia

Lisboa S.O.S.