sábado, 19 de setembro de 2009

Desencanto à hora da sobremesa


No sábado de manhã o Jaime telefonou. Tinha chegado da Patagónia, onde esteve a passar férias com a Marta. Pelas suas palavras, percebi que vinha eufórico.Trazia também saudades de peixe e do mar do Guincho. Combinámos, por isso, um jantar à beira do Atlântico.
Fiquei feliz quando me apercebi da euforia do Jaime. Afinal eu fora co- responsável pela escolha da Patagónia como destino de férias, tantas vezes ele e a Marta me ouviram enaltecer a Argentina e esse paraíso imenso que é a Patagónia. Ajudara-os a preparar a viagem com todos os detalhes, mas avisando-os sempre que a Patagónia é o destino de férias ideal para podermos reprogramar itinerários diariamente, de acordo com a vontade do momento. Nunca, em nenhum lugar do planeta, dei melhor significado à expressão “férias em liberdade” do que na Patagónia.
O jantar foi animado, com o mar do Guincho em pano de fundo. Eu e a Ana estávamos ansiosos por ouvir o relato da viagem e o Jaime e a Marta por contar tudo ao pormenor. Tenho as minhas dúvidas que tenham apreciado a santola recheada e o peixe ao sal como pretendiam, tal era a sua sofreguidão em contar todos os detalhes das três semanas de aventura. Percorremos a Patagónia de Bariloche a Calafate, num mosaico de aventuras, partilhando descrições quando descobríamos que tínhamos pernoitado, comido, ou apenas parado para tomar uma bebida, num lugar que nos trazia recordações comuns.Mas quando chegou a sobremesa, a conversa ficou suspensa. É que a mousse de avelã das “Furnas do Guincho”, meus amigos, é um daqueles manjares que só um momento de luxúria divina permite conceber. Durante alguns minutos, subimos ao Olimpo e comungámos com Zeus e Athena momentos de lascívia, enaltecendo a criação.
Foi neste momento de suprema comunhão que eclodiu numa mesa à nossa esquerda uma conversa onde se falava de “rating”, reserve banking, índices Dow Jones spreads e taxas de juro. Creio ainda ter ouvido falar ( mas não estou certo...) de off shores e PSI 20. Rodei a cabeça 90 graus, no intuito de identificar os animados interlocutores, imaginado-os desde logo anciãos saídos de “limousines” de vidros fumados. A muito custo, não abri a boca de espanto, ao constatar que os intervenientes em tão animada conversa eram dois casais jovens, seguramente “under –30”. A tonalidade da tez denunciava um recente regresso de férias.
Foi então que desci do Olimpo e dei por mim, de pés assentes na Terra a perguntar-me ( estupidamente, claro) o que estaria errado naquele quadro. A animação de uns cinquentões falando de aventuras de férias ou os jovens, regressados de férias, a falarem com transbordante entusiasmo do Dow Jones?
A resposta, enviada por um qualquer mensageiro de Zeus, foi arrepiante e desoladora!

* Post publicado em 10/09/2007

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