quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Terça- feira fui à feira

Mercado em Goroka ( Papua Nova Guiné)
Gosto de feiras. Daquelas que estão incluídas nos roteiros das principais cidades europeias, onde se vendem roupas e quinquilharias adjacentes, como relógios Rolex “made in Thailand” e óculos RayBan, provenientes de Taiwan, misturados com “antiguidades” feitas num vão de escada de uma vila esconsa.Mas as feiras de que realmente gosto são as tradicionais, onde se pode comprar de tudo e ter a sensação de estar num gigantesco centro comercial, com hipermercado acoplado, com a vantagem de gozar os prazeres do ar livre.
Nos espaços estreitos entre as bancadas cruzam-se, na azáfama das compras, pessoas de todas as idades, raças, credos, cores políticas e escalões sociais.Peças de lingerie misturam-se com sacos de grão, camisas Benetton com blusões Levis, garrafas de Coca Cola com latas de Red Bull , numa orgia de marcas. Brancos coelhos, de olhar rosáceo, ruminam pacientes , lado a lado com galos cacarejantes. Pregões de feirantes ecoam no ar, enquanto “vendedores de banha da cobra” exaltam, empoleirados no tejadilho de uma Ford Transit, a qualidade de atoalhados, lençóis e colchas indianas, feitas numa qualquer fabriqueta do Vale do Ave. De repente, eclode uma zaragata e o burburinho entrecorta os ares. É uma "vendedeira" que, cansada de tanta “regateirice”, por parte de uma senhora envergando um casaco de pele de coelho ameaça, de "cachucho" em riste, teatralizar um poema de Tolentino, pondo em sentido a impertinente que ousou pôr em dúvida a frescura do pescado.
O regateio é uma cena peculiar das feiras, chegando a confundir-se a feirante com a cliente, igualizadas democraticamente no vernáculo do linguarejar. Por vezes, putos mal educados envolvem-se em rixas na defesa das matriarcas, emprestando um ar picaresco à confusão reinante.A feira nunca mais se olvida. Não há nada igual. A feira pode ser a rixa momentânea, o insulto democratizado, mas também é altivez. A feira é a desconfiança, mesclada com o prazer de lá ir. É Rui Veloso lado a lado com Quim Barreiros. É prostitutas ombreando com senhoras “queques”. É putos reguilas, em tirocínio para a idade adulta, construída em malgas de sopa onde fumega um pouco de água fervida, misturados com “betinhos” mal educados em aprendizagem das regras da lei do mais forte, do desrespeito pelos outros, com personalidades deformadas construídas em pretensos berços de oiro. É nas feiras que encontramos o verdadeiro retrato , sem maquilhagem, do fenómeno do consumo. É lá que reina a contrafacção? Será... mas que importa se as pessoas, embriagadas pela publicidade aspiram mais a “parecer” do que a “ser”?
Cá por mim, continuo a gostar de feiras onde não há sorteios de Mercedes, nem cartões Visa ou de fidelização, mas há o calor dos feirantes. Onde não há empregadas anoréticas, vestidas a rigor com sorrisos de plástico, mas há um rosto humano por trás de cada banca. Não há luzes psicadélicas imitando o sol e o estralejar de foguetes, nem cassettes gravadas imitando o canto de passarinhos, porque tudo isso está lá, em estado natural , fazendo também parte da grande festa. E nas feiras há, acima de tudo, a mescla de odores e sons que faziam parte da minha infância.
( Post publicado em 25/01/2008)

Deixem-nos respirar! *



No ano 2000, a União Europeia lançou a iniciativa do “Dia Sem Carros”, no propósito de alertar os cidadãos para o ( mau) ambiente urbano. A adesão das autarquias foi grande. Era uma novidade e fez-se muita festa. Mas houve também muita gente a protestar, pelo que no ano seguinte já foram menos as autarquias a aderir. Enquanto Pedro Santana Lopes considerava a iniciativa uma medida folclórica, a União Europeia salientava o seu sucesso e, em 2003, substituiu o Dia sem Carros pela Semana da Mobilidade. Portugal aderiu.
Não sei se a iniciativa tem resultados positivos e contribui para que todos os anos algumas pessoas troquem o carro pelos transportes públicos. Duvido…
Basta ver as imagens das caravanas partidárias durante a presente campanha eleitoral, para perceber como os diversos partidos dão importância ao assunto.
Não será, porém, pelo facto de os partidos se estarem marimbando, que deixarei de lembrar as questões colocadas pelo excesso de trânsito nas cidades, durante a Semana da Mobilidade que se iniciou ontem e termina no dia 22.
Aqui fica o meu primeiro contributo.

Em média um homem precisa para sobreviver, em condições ditas normais, de cerca de um quilo de alimentos e mais de 1 litro de água por dia. Compreende-se, pois, que haja uma grande preocupação com a qualidade dos alimentos que ingerimos ou da água que bebemos. Mas precisamos também de 25 quilos de ar!
Todos sabemos que ninguém vive apenas de ar... no entanto, a importância do ar para a nossa sobrevivência é tão determinante, que se estivermos apenas alguns minutos sem respirar morremos, mas poderemos sobreviver alguns dias sem nos alimentarmos ou sem beber qualquer líquido.
Todos somos afectados pela deficiente qualidade do ar, especialmente idosos, recém nascidos e pessoas com problemas respiratórios. Mas que sabemos acerca da qualidade do ar que respiramos? Sabemos, por exemplo, que os parisienses respiram ar de má qualidade um em cada quatro dias do ano, que morrem anualmente milhares de pessoas nas grandes capitais europeias, vítimas de doenças respiratórias e cardiovasculares, provocadas pela má qualidade do ar que respiram, mas em Portugal, embora desde o Verão de 1998, Lisboa e Porto estejam dotadas de estações de controlo e medição da qualidade do ar, pouco sabemos.
É certo que esses dados estão disponíveis e ainda este Verão nos informaram que estivemos vários dias a respirar ar impróprio para consumo, mas desafio os leitores a enunciarem uma única medida que tenha sido tomada para debelar o problema. Ao contrário, em circunstâncias idênticas ( e só para dar um exemplo...) o trânsito automóvel foi proibido, de uma assentada, em oito cidades francesas.
E nós, cidadãos, porventura nos preocupamos com a qualidade do ar que respiramos? Todos os dias queremos saber as condições metereológicas, mas acerca da qualidade do ar, talvez falemos de fugida numa roda de amigos. Depois seguimos em frente, com um encolher de ombros, como se nada pudéssemos fazer, ou o assunto seja pouco importante.
Compreende-se... a chuva molha e podemos apanhar uma constipação no dia seguinte, enquanto o ar poluído mata, mas demora algum tempo!
* Este post nada tem a ver com a asfixia democrática

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