sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Deixem sonhar o André!

Vive em Aveiro e tem 29 anos. Chama-se André e era desconhecido dos portugueses até há poucos dias. Saiu do anonimato quando foi chamado a substituir Marques Mendes no Parlamento e, deslumbrado, afirmou: os deputados ganham demais.
Mas André não se ficou pelas palavras. Passou aos actos e decidiu oferecer 10 por cento do seu vencimento a uma instituição de solidariedade social do distrito que o elegeu.Talvez por ser um rapaz genuíno, André pensou que estava a agir bem. Enganou-se. Não previu que os seus colegas de bancada reagissem como abutres a quem estão a roubar a presa. Reunião de emergência do Grupo Parlamentar, duras críticas e a exigência de que pedisse desculpas publicamente. Leram bem. PUBLICAMENTE. Ao bom estilo de uma "famiglia" calabresa, os deputados quiseram mostrar as regras ao neófito e mostrar o que acontece a quem não cumpre. André foi obrigado a admitir que tinha errado. Apenas por ter dito aquilo que pensava? Não. André talvez não soubesse que os deputados se preparam para duplicar o seu vencimento meio às escondidas. Sem aumentar o vencimento base, mas aumentando as mordomias. As declarações de André tornaram-se, por isso, ainda mais incómodas.
Aposto que no meio das críticas houve um deputado que lhe sugeriu a oferta do dinheiro ao Partido e uns quantos que o acusaram de ser populista.Pouco importa para o caso o partido de André, porque os partidos do arco do poder comportam-se todos da mesma maneira. Sob o guarda-chuva da disciplina partidária, tudo se justifica.
Imagino a amargura e a desilusão do André. Corromperam-lhe a boa-fé. Impediram-no de sonhar que em política se pode ser genuíno.
Não te percas, André! Sai da política enquanto é tempo...
* Post publicado em 22 de Fevereiro de 2008

As árvores morrem de pé*

Ainda que toda a vida tenha sido um profissional exemplar, ninguém está livre de um dia ver aparecer-lhe pela frente um qualquer idiota que o olha de alto a baixo e sentencia:
- Você está velho. Porque é que não se reforma?
Exemplos destes não faltam na administração pública. Uma "plêiade" de jovens , resguardados na força de um cartão partidário da jota rosa, laranja, ou azul e amarela que miraculosamente lhes confere a competência para dirigir qualquer estaminé, onde apenas procuram protagonismo político, sentencia amiúde a reforma antecipada de pessoas que muito tinham ainda para dar na sua vida profissional.
Foi o que aconteceu com Ruy de Carvalho, esse actor de excelência que um qualquer director do Teatro Nacional D. Maria II mandou para casa por ser “velho e reformado”. Contrariando a profecia, Ruy de Carvalho voltou ontem, aos 82 anos, ao palco do D. Maria II, integrando o elenco da peça “O Camareiro” . O convite partiu de Diogo Morgado, um jovem que soube reconhecer o valor de um “velho” com idade para ser seu avô. São exemplos destes que me permitem acreditar nos jovens. Nem todos crescem à sombra de partidos que os desumanizam e transformam em imbecis inúteis.

* Quando era miúdo fui ver, levado pela mão dos meus pais, a peça “As árvores morrem de pé”. Tinha apenas 14 ou 15 anos, foi a relação de amizade entre minha mãe e Vasco Morgado que me permitiu ver essa maravilhosa interpretação de Palmira Bastos, então com 90 anos. Nunca mais esqueci a cena magistral que fazia a plateia levantar-se num aplauso tremendo, capaz de fazer vir abaixo o teatro Monumental. Aquela estatura meã e aparentemente frágil de Palmira Bastos, batendo vigorosamente com a bengala e sentenciando de forma loquaz: “Morta por dentro, mas de pé. De pé, como as árvores!”

Sugestão do dia

Lavandaria