quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Adeus Tristeza *

"Na minha vida tive palmas e fracassos
Fui amargura feita notas e compassos
Aconteceu-me estar no palco atrás do pano
Tive a promessa de um contrato por um ano
A entrevista que era boa não saiu
E o meu futuro foi aquilo que se viu ..."
(Fernando Tordo)
Comecei cedo a trabalhar em jornais, depois experimentei várias actividades e só há cerca de 20 anos voltei a enveredar por esta nobre actividade, mas nem sempre a tempo inteiro. Nunca fui, pois, jornalista de grandes méritos, apesar de a generosidade dos meus camaradas de profissão -e de algumas entidades - me ter contemplado com alguns prémios ao longo da vida.
A reportagem sempre foi para mim a essência do jornalismo, mas a partir de determinada altura percebi que esse era um género em vias de prescrição, porque os jornais pensam que as pessoas não gostam muito de ler sobre a realidade e investir nesse género sai caro e não traz grande retorno. É mais fácil e rentável encher páginas com mexericos e fofocas, coisas que as pessoas fingem detestar mas na realidade adoram.
Já me perguntaram se era jornalista de causas. Fiquei sem saber o que responder. Interesso-me por assuntos que, acredito, podem contribuir para melhorar a sociedade e o mundo onde vivemos.Se isso é jornalismo de causas, então serei… Desde os anos 70 que escrevo sobre temas ambientais, consumo e direitos humanos, a partir dos anos 90 passei também a dedicar especial atenção às questões laborais e à política internacional. Repugna-me constatar a indiferença com que os políticos dos países poderosos olham para os mais desfavorecidos e enojam-me os jornais que servem de correia de transmissão a interesses económicos embora, convenientemente, finjam que estão preocupados com as trafulhices a que diariamente assistimos. Compreendo… a publicidade é que alimenta os jornais e portanto não convém hostilizar as empresas que a fazem. Há também aquela promiscuidade óbvia entre jornalismo e política, facilmente demonstrada com o número crescente de jornalistas que integram gabinetes ministeriais, ou cargos públicos. Eu próprio cedi a essa tentação no início dos anos 80,numa das minhas estadias em Portugal mas, em menos de um ano, percebi que fizera uma opção errada. O mais normal teria sido voltar ao jornalismo logo que descobri o erro mas, como sou um bocadinho lerdo, decidi não recuperar a carteira de jornalista no dia seguinte a ter abandonado o cargo de assessor de imprensa e andei durante cinco anos arredado dos jornais. Ou melhor: sem trabalhar em jornais, porque lê-los é um vício tão entranhado nos meus hábitos, como tratar da minha higiene pessoal. Nada de confusões… não acredito que os jornais e a maioria dos jornalistas contribuam para higienizar a vida deste país tão estrumado pela falta de pudor, pelo concubinato de interesses ínvios, pela fofoca cimentada em fontes não identificadas...
Sou, pois- e não é novidade para a maioria das pessoas que me lêem- um consumidor compulsivo de jornais e revistas. No entanto, a maioria das vezes, quando os compro, não vou à procura das notícias. O que procuro, de imediato, são as páginas onde alguns dos meus cronistas e colunistas de eleição escrevem. Gosto de me deixar inebriar pelas suas palavras e meditar sobre elas. Não estranhem, pois, se um destes dias, ao passarem por uma esplanada, virem um gajo com um jornal ou revista pendurado numa mão e o olhar, perdido e distante, de quem está a léguas ( normalmente marítimas…) daquele local. Muito provavelmente serei eu.
Todo este arrozoado tinha por única intenção dizer-vos que gosto muito de crónicas. De as escrever e, principalmente, de as ler. Mas também gosto muito de reportagens, razão por que leio cada vez mais revistas estrangeiras.
Já agora, se quiserem informar-me sobre as vossas preferências, a caixa de comentários é vossa…
* "Adeus Tristeza" é uma excelente canção de Fernando Tordo. A dupla que formou com esse fabuloso poeta chamado José Carlos Ary dos Santos produziu algumas das mais belas canções portuguesas de sempre. Só num país de merdosos engravatados, onde a maioria se recusa a pisar o risco do politicamente correcto, Ary está injustamente esquecido. A mediocridade pensante que engoma a cultura deeste país, com o pastéis de nata e bolinhos de bacalhau, nunca lhe perdoou ser simpatizante do Partido Comunista.

Memories- a canção do dia (24)

Os Jefferson Airplane só muito tardiamente foram conhecidos em Portugal. Esta canção, terá sido uma das primeiras a ser trauteada por cá: Somebody to love