terça-feira, 28 de julho de 2009

Memories- a canção do dia (7)

“ (…)Foi em Novembro que partiste
Levavas nos olhos as chuvas de Março
E nas mãos um mês frio de Janeiro
Lembro-me que me disseste que o meu corpo tremia
E eu que queria ser forte, disse-te que tinha frio
Falei-te do vento norte
Não, não me digas adeus, quem sabe talvez um dia...
Como eu tremia meu Deus, amei como nunca amei
Fui louco? Não sei, talvez! Mas por pouco, muito pouco,
Eu voltaria a ser louco amar-te-ia outra vez !

( Vítor Espadinha)

Não foi por imposição da Si, nem da ERC, que hoje escolhi uma canção portuguesa para canção do dia. Foram as circunstâncias de um fim de semana – que se prolongou até há pouco- que me trouxeram à memória várias canções que estavam arquivadas num qualquer cantinho do cérebro. Canções que me provocaram na altura comentários sarcásticos, mas a que acontecimentos deste fim de semana, por terras do Norte, deram outro significado.
“Recordar é Viver” , de Vítor Espadinha, foi uma dessas canções. Hoje percebo melhor o estrondoso êxito que alcançou na altura, tendo sido traduzida e interpretada em várias línguas. Há coisas que a idade ajuda a perceber e circunstâncias que podem alterar profundamente a nossa relação com uma canção. É esse, aliás, o espírito deste passatempo. Avivar memórias, tentar levar-vos a pensar as razões de terem amado ou odiado determinada canção.
Amanhã, espero voltar às histórias sobre canções que, na altura própria, foram importantes na minha vida. Por hoje, fiquemos com Vítor Espadinha. Num registo péssimo. Como o meu estado de espírito hoje… mas em ambos os casos, não foi possível encontrar melhor.E vocês, já alguma vez mudaram de opinião sobre uma canção, porque algum episódio influenciou a vossa maneira de a ouvir? Vá, pensem bem e sejam sinceros. Ninguém vos vai levar a mal por confessarem que um dia até descobriram que gostavam de uma determinada canção do Marco Paulo… ou da Ágata.

Porto Sentido*


“…E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa”
(Carlos Tê/Rui Veloso)
Era suposto ter retomado esta semana a actividade normal, começando ontem a preparar alguns trabalhos que tenho em agenda para entregar em breve. Era suposto… mas como diz o povo, na sua infinita sabedoria, “O Homem põe e Deus dispõe”. E Deus- ou alguém por Ele mandatado- decidiu que assim não havia de ser. Colocou entre mim e o trabalho uma casca de banana de encontro fortuito e obrigou-me a alterar os planos.
Sinto-me bem aqui pelo Porto, sem a mínima vontade de regressar a Lisboa para fazer entrevistas, pesquisas e escrever sobre assuntos sérios. Apetece-me continuar a sonhar que é possível fazer “rewind” nas nossas vidas e voltar a viver momentos que já lá vão há décadas. E, no entanto, foi possível. Pelo menos por umas horas.
Aqui, nesta esplanada, não tenho o mar do Guincho à minha frente, mas tenho um rio a correr para o mar da Foz, espreguiçando-se entre o casario da Ribeira e o Cais de Gaia. ( Obrigado, Luís Filipe Meneses, por ter feito com que Gaia se tivesse tornado o melhor ponto de observação para apreciar a beleza do Porto. Quem ainda não percebeu que esta é a mais bela cidade do País, deve andar muito distraído).
Apetecia-me ficar por aqui até me cansar da paisagem, da cidade, da… mas não vai ser possível. Regresso dentro de minutos a Lisboa, prenhe de sentimentos contraditórios. Entre a vontade de ficar por aqui e a consciência que devo fugir quanto antes, para evitar males maiores, opto pelo dever. Porque, bem feitas as contas, a vida não é um prazer, é um somatório de deveres quotidianos que temos de cumprir, para desfrutar de alguns momentos de prazer. Mas se não fosse assim, a vida não tinha tanta piada…


* Porto Sentido -uma criação de 1986 da dupla Carlos Tê/ Rui Veloso- é talvez a maior homeagem que a música alguma vez prestou à cidade. Não deve haver nenhum português que não a conheça e não tenha entoado alguns dos seus acordes quando se viu perante a deslumbrante paisagem que a fotografia mostra.