quinta-feira, 23 de julho de 2009

Return to Sender*

Agora que já tenho as fotografias que fiz durante as férias, vou postando algumas de vez em quando, mas o postal de hoje foi parar aqui. Vão lá ver...

* "Return to Sender" é uma cançao de Elvis Presley. Agora não tenho tempo para fazer o link

Memories- a canção do dia (4)

Quem nunca dançou ao som de “Je t‘aime moi non plus”?
Este sucesso estratosférico que tinha por condão aumentar rapidamente a temperatura dos recintos, logo que soavam os primeiros acordes, chegou a ser proibido em algumas festas públicas.
No Ateneu do Porto, por exemplo, alguns conjuntos que “abrilhantavam” os bailes receberam “orientações” para não tocar “a música do pecado”.
Nos convívios das tardes de quarta-feira e sábado, nas Faculdades de Direito e Medicina, era presença obrigatória. E agora pasmem… nas festas do Colégio Pio XII, nunca os suspiros de Serge Gainsbourg e Jane Birkin deixaram de ser ouvidos. Pelo menos, enquanto lá estive a viver…
Esta música aviva-me muitas memórias, mas história que tenho para vos contar, foi a que comecei a contar ontem na resposta ao comentário da Si.
Em minha casa, organizava várias festas na cave. Sempre respeitando os parâmetros dos meus pais, que exigiam bastante luz e muita decência. Para comprovar que as regras eram respeitadas, revezavam-se, periodicamente, numa visita de “cortesia”, que mais não era do que um controlo para verificar se a decência era mantida. Sempre aceitamos bem isso, porque acima de tudo queríamos divertir-nos, ouvir música e conviver.
Certo dia, estava eu de férias no Porto ( como não era Verão, só podia ser Natal ou Páscoa) os meus pais anunciaram que iam passar o sábado a Vigo, mas regressariam por volta da meia noite.
Caí na asneira de dar a notícia aos meus amigos, que nunca mais me largaram exigindo que organizasse uma “surprise -party”. Ofereci alguma resistência, mas lá acabei por ceder, desde que todos assumissem o compromisso de saírem antes das 8 da noite.
Na tarde de sábado, por volta das 4 da tarde, uma das salas da cave, profusamente decorada com luzes psicadélicas de cores quentes, estava a abarrotar de “teenagers”. Tínhamos comprado umas bebidas (nada de álcool) e “subornado” algumas empregadas para preparar umas sandochas que entretessem o estômago.
A determinada altura, alguém colocou no gira-discos o “Je t’aime, moi non plus”. Estava a música a meio quando ouço um pigarrear familiar, anunciando tempestade. Levanto a cabeça do ombro onde estava apoiada, e vejo à porta o meu bondoso, mas também implacável, pai!
Não precisou de me dizer uma palavra. “Despeguei-me” de imediato e fui ter com ele. Subimos ao primeiro andar, onde ouvi uma fortíssima reprimenda. Talvez a mais dura e mais justa que alguma vez ouvi do meu saudoso pai. O meu pai não aceitara a ideia de ter sido enganado e tinha toda a razão. Se lhe tivesse dito que pretendia organizar uma festa ele não teria dito que não e era isso que mais o magoava. No final, disse-me em tom firme:
“Agora podes continuar a festa, mas com luz e sem a música aos berros”.
Quando voltei a descer, sentindo-me um traidor, os meus amigos ( e principalmente as amigas) preparavam a debandada encabulados. Disse-lhes que podíamos continuar a festa, desde que baixássemos o volume do som e puséssemos mais luz. Alguns foram mesmo embora., mas a maioria ficou, de forma solidária, talvez temendo que se me deixassem sozinho a ira dos meus pais se abatesse sobre mim. Por outro lado, como todos eles eram frequentadores habituais de minha casa, conheciam bem os meus pais e sabiam que, saindo, estavam a ser desleais com quem sempre os acolhia com grande amizade.
Como forma de mostrar o nosso “arrependimento”, pusemos a tocar meia dúzia de músicas mexidas, mas era bem visível, no rosto de cada um de nós, o incómodo provocado pela situação.
Passada uma boa meia hora, a minha mãe, acompanhada de duas empregadas, entrou na sala. Traziam tabuleiros com sandes, salgados, bebidas e bolos. A minha mãe, sempre mais dura do que o meu pai, nem me dirigiu a palavra. Sorridente, dirigiu-se a alguns daqueles amigos mais próximos e disse:
- Desculpem lá, mas como não estava prevenida é só isto que se pode arranjar.
Depois começou a falar com cada um, perguntando pela família, fazendo conversa, como se nada se tivesse passado. (A minha mãe sempre teve aquele condão especial de saber desanuviar os momentos de tensão, embora por dentro esteja a “ferver”). Minutos depois saiu, dizendo:
- Estejam à vontade, continuem a divertir-se. Até à meia noite, já sabem que não há problema. Desde que não falte a luz… ( Também sabe usar o sarcasmo como ninguém).
O ambiente desanuviou um pouco e lá ficámos a divertir-nos até por volta da meia-noite.
Quando toda a gente se foi embora, a minha mãe explodiu. Valeu a calma do meu pai, que reagira no momento próprio, para serenar a situação.
Este episódio serviu-me de lição. Nunca mais voltei a desrespeitar os meus pais. O remorso de ter traído a sua confiança, acompanhou-me durante anos.
Há dias, conversava com um amigo de infância e recordámos este episódio. Quase 40 anos depois, disse-me uma coisa que me impressionou:
- Aquele dia marcou-me de tal forma, que procurei sempre ter com os meus filhos e os amigos deles, a relação que os teus pais tinham connosco. Em tua casa, todos nos sentíamos como filhos deles e isso foi uma lição para a minha vida.
A ideia foi corroborada pela mulher, também amiga de infância, mas que naquele dia não estivera na “suprise –party”.

Pronto, se tiveram paciência de ler este post até ao fim, chegou o momento de contarem as vossas histórias. Afinal quem não tem uma recordação de “Je t’aime, moi non plus”?
Para vos encorajar e avivar a memória, tentei fazer o link, mas deparei-me com esta surpresa!

Something stupid *

"...The time is right
Your perfume fills my head
The stars get red
And oh the night's so blue
And then I go and spoil it all
By saying something stupid
Like I love you
I love you..."
( Frank e Nancy Sinatra)

Um dia destes liguei a televisão antes de começarem os noticiários das 20 horas. A RTP passava o estafado “Preço Certo”, a TVI exibia a inevitável telenovela ( eles terão outros programas?) e a SIC um programa que desconhecia, chamado “’Tá a gravar”. O programa, como muitos saberão, consiste na exibição de vídeos enviados pelos telespectadores.
Fiquei a ver durante uns minutos. Fiquei elucidado. São o retrato do país. Como é possível que haja gente que não tenha vergonha em montar, propositadamente, cenas tão estúpidas, ( fingindo que são espontâneas) gravá-las e, ainda por cima, enviá-las para um canal de televisão?
Não sei se quem envia os vídeos recebe alguma coisa, mas deu para perceber que as pessoas fazem qualquer coisa, por mais ridículo e estúpido que seja, para se exibirem na televisão.
Quem não é nada estúpida é a SIC. Mesmo pagando qualquer ninharia pelos vídeos o preenchimento daquele horário fica-lhe ao peço da uva mijona…
Ao que me afiançaram, o programa é exibido várias vezes durante a semana e já dura há uns meses. Assim sendo, percebe-se melhor o estado do país.
* "Something stupid" , na sua versão original, foi cantada nos anos 60, por Frank Sinatra e pela filha Nancy. Dizem as más línguas que se tratou de uma forma de lançar a carreira da filha. como não consegui encontrar a versão familiar, deixo-vos uma versão mais foleirota e mais recente, interpretada por Robbie Williams e Nicole Kidman