segunda-feira, 20 de julho de 2009

If you were a sailboat*

“(...)Sometimes I believe in fate,
But the chances we create,
Always seem to ring more true(…)”
(Katie Melua)


Mesmo não tendo de pagar a viagem- graças às milhas acumuladas na TAP – e ficando a dormir num barco em Riddar Holmen, perto do palácio real- uma ida à Suécia nunca é barata, porque tudo, a começar pelo preço das refeições, é muito elevado (já não estou naquela idade de andar pelos Mc Donalds) e é preciso pensar duas vezes antes de nos sentarmos numa esplanada para tomar qualquer coisa e desfrutar da paisagem.
No primeiro dia, quando se aproximava a hora do jantar, decidi esquadrinhar as ruas, praças e vielas de Gamla Stan- a cidade velha- em busca de um restaurante barato. Quando lá estive, era a zona mais barata da cidade, mas o turismo fez disparar os preços e hoje, os preços aí praticados são tão caros como os da maioria dos restantes locais da cidade. Verifiquei listas- iniciando a leitura sempre pela coluna da direita- e comecei a deitar contas à vida.
Percorria a Västerlangattan- rua principal da cidade velha- quando,junto a um pub irlandês, o meu olhar encontrou um pequeno restaurante, com uma esplanada de apenas três ou quatro mesas. Fui ver a lista e a coluna da direita agradou-me. Passei à coluna da esquerda e as minhas papilas salivares rebentaram em estrépito clamando, libidinosas, pela oferta daquela iguaria: um bife de chorizo ( de carne genuinamente argentina) por 140 coroas ( cerca de 14 €) pareceu-me dádiva irrecusável. Claro que imediatamente me imaginei, desiludido, a olhar para um prato enorme, onde repousaria um bife de 50 gramas emoldurado em duas rodelas de tomate mas, resoluto, decidi entrar. A partir daí, foi um acumular de surpresas.
O restaurante estava cheio, havia apenas uma mesa junto à janela para duas pessoas. A um metro de distância, um velhote tocava tangos no seu bandoléon. O meu olhar deve ter denunciado a minha surpresa e alegria, porque o homem começou a tocar com mais entusiasmo.
O homem que me levara à mesa perguntou- me se queria a lista em inglês, sueco ou espanhol. Resoluto respondi: espanhol.
Foi então que me começou a falar num castelhano com iniludível sotaque argentino. Arrebitei a orelha e perguntei-lhe se era argentino. Confirmou e perguntou-me a minha nacionalidade. Quando lhe disse que era português, mas tinha vivido na Argentina e pensava para lá voltar, percebi os seus olhos humedecerem-se. Engoliu em seco e perguntou-me se estava com pressa. Disse-lhe que não e então propôs-me continuar a conversa depois do jantar, ao que acedi de imediato.
Olhou-me de soslaio quando optei pelo acompanhamento de vegetais grelhados (coisa que um porteño nunca faria) e optei por vinho chileno.
O bife de dimensão avultada , acompanhado de uma generosa variedade de legumes grelhados, chegou perante o aplauso frenético das minhas papilas que, no entanto, torceram o nariz quando degustaram o vinho. Ingratas! De sobremesa um “dulce de leche” ( oferta da casa) e a rematar um “expresso” de boa qualidade. Enquanto comia, confirmei que os restantes comensais que haviam optado pelo bife de chorizo eram servidos de forma igualmente substancial, pelo que foi com alívio que percebi não estar a ser alvo de nenhum tratamento especial.

Foi já ao balcão, tendo como testemunha um “Bushmills” que fiquei a saber a razão de um argentino se instalar em Estocolmo: 1,80m de beleza pura! Mas caramba, com tanta beleza espalhada pelas ruas de Buenos Aires, como é que este homem “licenciado” em tardes “tangueras” da “Confiteria Ideal”, com casa na Av. Santa Fé, a escassos 10 minutos do emblemático Café Tortoni, “bon vivant” e boémio, se deixa embeiçar por uma sueca, ao ponto de trocar as cálidas noites “porteñas” pelo frio glaciar de Estocolmo?
A história, narrada pelo próprio, conta que deixou a Argentina para viajar pelo mundo. Percorreu os Estados Unidos de lés –a lés- durante dois anos, passou pelo Japão, Tailândia, Índia,Singapura e arribou à Europa. Pela Europa vagueou durante oito anos, até que um dia chegou a Estocolmo e se deixou perder de amores por Selma, trinta anos mais nova do que ele. Pensou ficar apenas um ou dois anos, mas foi-se acostumando e já está na Suécia há 15. Ou seja, ancorou aos 50, uma boa idade para ganhar juízo. Ou talvez não, quando nessa idade juntamos a nossa vida a uma mulher de 20…
Conheces Espanha? Não. Talvez um dia…
Quando saíste da Argentina? Em 1980, ou81 já nem lembro bem
Faço contas. Não quero fazer perguntas incómodas. Se calhar prefiro não saber de que lado estava este homem que tão bem me acolheu no seu restaurante, durante a ditadura. Fico suspenso da resposta. Olho para o restaurante. Já só há uma mesa ocupada. O relógio marca as 11. Despeço-me, com a promessa de voltar.
“Amanhã estamos fechados”- diz Selma com um sorriso.
Saio para a rua. Ainda está dia claro. Caminho em direcção ao barco. Volto a fazer contas. Saiu da Argentina com 37 anos, quando a ditadura estava próxima do extertor. Pode ser um escroque, mas também pode ser uma vítima. Será que vou voltar lá para tentar saber? Dois dias depois, decidi que não voltaria. Prefiro ficar na dúvida. Na terrível e eterna dúvida. Parece-me ter percebido que ele preferia assim.
* If you were a sailboat" é uma das muitas canções de Katie Melua que me põe os pêlos todos em pé. Escolhi uma canção dela, porque durante esta semana vai estar em Portugal, para actuar no Cool Jazz Festival. Não vou perder. Escolhi esta, porque vai bem com o tema do post.



Memories- a canção do dia (1)



"Tous les garçons et les filles" foi a primeira canção a dar-me a volta à cabeça. Ouvia este disco até à exaustão, num roufenho gira-discos que uns tios me tinham oferecido no Natal anterior. Enquanto a minha mãe exasperava, eu procurava mostrar-lhe a beleza da canção e da letra.

Não explico a minha paixão por esta canção, mas já depois de me ter apaixonado por ela, ficou ligada a um episódio da minha vida. Lembro bem a surpresa de Françoise Hardy quando, em 1962, ouviu um miúdo português a cantar-lha, embevecido, na sala de jantar de um hotel em Benidorm. Era eu!

Era muito miúdo, mas os meus irmãos tinham idades próximas da dela e foram eles que me incentivaram a ir cantar ( espertalhões, estão a ver...). Envergonhado, aproximei-me da mesa onde ela estava a jantar com Sylvie Vartan e Johny Haliday, - que nessa noite actuavam em Benidorm. Ela fez-me uma festinha e perguntou-me em francês a nacionalidade. Felizmente aprendi a falar francês aos 8 anos e respondi-lhe:


" Je suis portugais e j'ai une chose pour te montrer". E, para gáudio dos meus irmãos, comecei a cantar. Estão a imaginar a cena, não é?
Não posso dizer que me tenha tornado amigo dela, pois era muito miúdo. Os meus irmãos é que a conheceram melhor e com ela partilharam , durante alguns anos, algumas aventuras de férias.
Tenho todos os discos de Françoise Hardy, desde este até ao último, lançado em 2006 ( Parenthèses). Nunca tive ídolos, mas assim que saía um disco de Françoise Hardy, eu rebentava com as minhas economias e corria a comprá-lo.
Quem duvide da sua beleza, veja aqui....
Pronto, está aberto o segundo passatempo. Espero pelas vossas histórias.

Summertime (1)

Salvatore Adamo foi um dos cantores mais populares da música francesa durante a primeira metade da década de 1960. Os seus maiores sucessos foram “ La Nuit” e “Tombe la neige”, mas "Inch'Allah",“ Mes main sur tes anches”, “Vous permettez monsieur” ou “Une mêche de cheveux” foram igualmente êxitos que marcaram os verões dessa década. Já na sua fase descendente- quando a música anglo-saxónica se impunha em todo o mundo- gravou uma canção que teve algum êxito e era dedicada a uma princesa de um país europeu.
1- Qual o título da canção?
2- Qual a nacionalidade da princesa a que me refiro?
3- Qual a nacionalidade de Salvatore Adamo?

Nota: Vá lá participem, mas não façam batota indo ver ao Googgle, está bem?