quinta-feira, 16 de julho de 2009

(Sittin' on) The Dock of the Bay


“Sittin' in the mornin' sun
I'll be sittin' when the evenin' come
Watching the ships roll in
And then I watch 'em roll away again…”
(Otis Redding, 1968)


Estou sentado no meu Rochedo, desfrutando desta magnífica paisagem de mar imenso que o Guincho oferece. Já peguei em vários jornais e revistas de leituras atrasadas. As notícias provocam-me um ligeiro frémito. Rejeito –as com um esgar de enfado. Sinto algum desconforto. Olho outra vez o mar à minha frente. Penso no país de maravilhosas paisagens que está nas minhas costas. O sempiterno Gerês. O Douro beijando as margens do meu amado Porto onde nasci , espreguiçando-se em direcção à Foz, depois de um percurso que o trouxe das profundezas de Sória, atravessando a agreste paisagem transmontana. Recordo as paisagens suaves da planície alentejana. Dou um mergulho no Vale do Tejo. Imagino a costa oeste, nublada e ventosa oferecendo-se, luminosa, à câmara de Nick Knight. Hesito entre desfrutar o momento presente e o regresso a dias atrás.
Um chiar de travões desperta a minha atenção. Um táxi acaba de evitar, “in extremis”, um atropelamento em cima de uma passadeira. Esta manhã, quando saí de casa para gastar quase 50 euros em notícias que só me trazem desânimo, desgosto, revolta, quase fui atropelado. Atravessei a passadeira com o sinal verde, depois de dois carros terem desrespeitado o sinal encarnado que os mandava parar. Não sabia, mas ainda havia um terceiro transgressor. Um taxista. Provavelmente daqueles que exibem no vidro traseiro auto-colantes do Correio da Manhã e se alinham em manifestações contra o governo gritando “slogans” de estiva.
Mas neste país não vivem apenas taxistas trogloditas e transgressores. Há também camionistas. E empresários gananciosos, trabalhadores desmotivados, classes sócio - profissionais eivadas de corporativismo, olhando apenas para o seu umbigo, juízes que trocam a sua função pelo calor dos holofotes, políticos que se julgam deuses infalíveis e outros que se apresentam como salvadores, brigadas anti-aborto, gente indignada com as coligações à esquerda e vice-versa, e uma comunicação social que se demitiu do seu papel.
Portugal é um país maravilhoso mas, por algum desígnio sobrenatural, foi escolhido para residência da Besta. É a Besta que nos governa (pelo menos desde o tempo do Estado Novo), que põe e dispõe, adormecendo-nos com uma parafernália de bens de consumo com que nos entretemos, na ilusão de que decidimos os nossos destinos. No fundo, os portugueses gostam da Besta e vivem com ela no coração. Por isso olham com nostalgia para o Estado Novo e lamentam o que perderam com a democracia. Os portugueses gostam de “sol na eira e chuva no nabal”, mas isso não é possível, porque a Besta não faz milagres….
Volto a pegar nos jornais. Leio agora que um jardim qualquer quer a Constituição a proibir o comunismo. Desde quando é que os jardins falam? São certamente jardins de papoilas,mas é preciso ter cuidado com os alucinogéneos...
Rejeito mais uma vez os jornais e pego num livro de Chatwin. Tal como ele, pergunto-me “O que faço aqui”?
A brisa serena leva-me até paragens distantes, no hemisfério sul, onde me aguarda o descanso final, junto ao Parque Nacional de Los Alerces, em convívio com as lendas de Butch Cassidy. Encarno a personagem de José Mauro de Vasconcellos em “Meu Pé de Laranja Lima”. Aí reside a minha esperança . Um dia destes, recebem um post meu a dizer: “Adeus, vou para a Patagónia”. Chatwin fez isso e não se deu mal…
Para já, vou continuar as minhas visitas pelo blogobairro, o melhor bairro do mundo!

* (Sittin’ on) The dock of the bay é uma magistral canção de Otis Redding de 1967 que vale a pena ouvir vezes sem fim e marcou um Verão da minha adolescência.