quarta-feira, 15 de julho de 2009

Le Méthèque*


“Avec ma gueule de métèque,
de juif errant, de pâtre grec
Et mes cheveux aux quatre vents.
Avec mes yeux tout délavés,
qui me donnent l'air de rêver
Moi qui ne rêve plus souvent.

Avec mes mains de maraudeur,
de musicien et de rôdeur
Qui ont pillé tant de jardins
Avec ma bouche qui a bu,
qui a embrassé et mordu
Sans jamais assouvir sa faim

Avec ma gueule de métèque,
de juif errant, de pâtre grec
De voleur et de vagabond
Avec ma peau qui s'est frottée
au soleil de tous les étés
Et tout ce qui portait jupon
(…)
Avec mon coeur qui a su faire
souffrir autant qu'il a souffert
Sans pour cela faire d'histoire
Avec mon âme qui n'a plus
la moindre chance de salut
Pour éviter le purgatoire
(…)”
(Georges Moustaki. 1968)


Se quiserem, depois de lerem este post denunciem-me às autoridades de saúde e peçam para me internarem, mas primeiro leiam tudo até ao fim, se faz favor, tá?
Eu sei que a maioria dos amigos e amigas que visitam o Rochedo são de outra geração, mas a minha é a geração de 60 e continuo a vibrar ( sem nostalgia, mas com muita paixão) com as recordações daquela década que parecia ir transformar o mundo. É verdade que transformou mas, infelizmente, fê-lo seguindo o caminho inverso daquele que prometera.
Ontem, a despedida foi cheia de música dos anos 60, como aliás é hábito no Buddys. Dos presentes, só a Sara, o Pablo e a Yuk ( a chinesa cintilante de que falei aqui e cujo nome significa Lua) estão na casa dos 30- uma geração abaixo da minha .
Surpreendi toda a gente porque, cada vez que a Giselle ensaiava os acordes de uma música francesa, eu sabia grande parte da letra. Hoje, ao levantar-me, estava de ressaca ( apenas musical…) e vai daí, meti-me ao caminho com um disco de Françoise Hardy.
A música francesa dos anos 60 é como as cerejas. Atrás de uma vem outra e por isso fiz toda a viagem ( quase 700 quilómetros) de cabelo ao vento, ouvindo música francesa dos anos 60. No leitor de CD passaram Sylvie Vartan, Adamo, Johnny Hallyday, Richard Anthony, Les Chats Sauvages, Jacques Brel, Charles Aznavour, Sheila, Claude François, Michel Polnareff, Christophe,Mireille Mathieu, Joe Dassin, Alain Barrière, Hervé Villard, Gilbert Bécaud e … George Moustaki.
Vim tão entretido durante a viagem, que nem me custou nada entrar em Portugal, porque continuei a fazer “rewind” e a recordar os momentos da noite de ontem, mas também as férias dos anos 60, enquanto atravessava o Alentejo.
Quando ouvi “Le Metheque”, decidi que esta seria a canção escolhida para o título deste post, que construí durante a viagem. Tem bastante a ver comigo… Ao contrário do que alguns pensam, Metheque não significa vagabundo. Tem origem na palavra grega “Metoikos”, utilizada pelos atenienses para definir aqueles que viviam na cidade, mas não tinham lá nascido.
Moustaki cantava-a com frequência aos emigrantes portugueses que viviam nos arredores de Paris e que eram, na altura, em número superior à população de Lisboa
Sou um “metheque” e sinto-me bem assim. Além deste espírito vagabundo, gostaria de continuar, até ao fim da minha vida, com este espírito inquieto “Et mes cheveux aux quatre vents/Avec mes yeux tout délavés/ qui me donnent l'air de rever…”
E agora, se pensam que preciso de ser internado, por ter vindo a ouvir música francesa durante toda a viagem, já podem apresentar queixa, mas antes leiam o rodapé e oiçam a música.

* Le Méthèque” é uma canção de Georges Moustaki (1968), mais um emigrante que escolho para abrilhantar o Verão do Rochedo. Nascido em Alexandria, de origem grega, GM foi viver para França, onde saboreou o sucesso que o tornou mundialmente conhecido.