segunda-feira, 13 de julho de 2009

The Last Waltz*

“I wondered should I go or should I stay,
the band had only one more song to play.
And then I saw you out the corner of my eye,
a little girl, alone and so shy.
I had the last waltz with you,
two lonely people together.
I fell in love with you,
the last waltz should last forever…”
(Engelbert Humperdinck)

Eu sei que o fulano era piroso, mas há dois dias que entrei na minha fase Tony Carreira e deu-me para isto, não há volta a dar-lhe…
Amanhã será o último dia por estas paragens. À noite despedir-me-ei da Beatrice, da Eva, da Sara, do Pablo e de toda a trupe que pára no Buddy’s, conferindo-lhe características únicas. Chegou, então, a altura de vos apresentar os meus amigos. Começo pela Beatrice, proprietária do Buddy’s, que para aqui veio em 2005. Conhecemo-nos acidentalmente, em Junho de 2006, numa noite fresca em que demandei um bar mais recatado na parte velha da cidade. É baixinha e roliça, mas no seu rosto ainda existem traços de uma beleza que a idade apagou. Veste frequentemente vestidos estampados, amarra os longos cabelos com uma pregadeira de Loja dos 300, fala com sotaque de série da BBC e não se cansa de dizer que “Portugal is looooooveeeelyyyyy!!!!”, embora só conheça Lagos, a Praia da Luz e Odeáxere - onde foi assaltada, ficando sem dinheiro nem documentos.
Este episódio ocorreu há quase duas décadas, mas ela conta-mo todos os anos. Em inglês… porque apesar dos esforços de Sara em lhe ensinar a língua de Cervantes, Beatrice mostra-se aluna pouco diligente. Desculpa-se, dizendo que é muito difícil falar espanhol por estas paregens, porque sempre que o tenta fazer, respondem-lhe em inglês. Rimo-nos e ela desvia a conversa, para falar de uma Lagos que já não existe. Em troca, conto-lhe histórias de uma Marbella que ela nunca conheceu.
Nunca me disse o que a trouxe para aqui ao bater dos 50 anos, mas sei que a sua vida tem sido um percurso com várias escalas junto ao mar. Temos em comum o gosto de viajar. Não foi, porém, esse gosto que nos aproximou, mas sim as características do Buddy’s. Não será por acaso que, existindo na mesma praça sete bares, este seja o único que está sempre cheio. Por aqui passa um conjunto de personagens que escreve a história deste local. São eles que me contam as notícias do ano, que me recebem com um sorriso nos lábios e se despedem invariavelmente com um “hasta siempre” ( das raras palavras que se pronunciam em castelhano naquele bar).
Para além de dois grupos de ingleses residentes, que todas as noites ocupam as mesmas mesas, o bar é frequentado por um conjunto de figuras curiosas: um marroquino que engole fogo, um senegalês que vende óculos, malas e carteiras de contrafacção e uma chinesa cintilante. Óculos, bandelete, brincos, pulseira, relógio,tudo pisca em cores psicadélicas à volta do seu corpo, conferindo-lhe um ar picaresco. Estas personagens só chegam depois da meia noite, para uma breve pausa no seu roteiro de vendas pela noite, que inclui uma passagem obrigatória pela marina.Para todos Beatrice tem sempre uma palavra afável e um sorriso aberto. Quando há crianças no bar vai atrás do balcão, tira uma caixa de rebuçados e caramelos e oferece, mas nega olimpicamente a oferta a qualquer adulto. À uma da manhã, pontualmente, encerra o bar que abriu, também pontualmente, às 7 da tarde. Seis horas de trabalho diário e a particularidade curiosa de encerrar aos sábados. “Também tenho direito a divertir-me”- defende-se quando lhe perguntam a razão de fechar no dia de maior negócio. A verdade é que Beatrice não me parece preocupada com o negócio. Ao contrário dos outros bares, apenas vende bebidas. Para comer, nem uma tosta mista. Não veio para aqui ganhar a vida, mas sim gozá-la, e não está para ter muto trabalho.
Bem diferente é Eva. A alemã que há 30 anos- com apenas 22- se perdeu de amores por um espanhol e por aqui ficou, trabalha no duro desde que o marido a trocou e partiu para a Tailândia com uma chinesa. Decidiu ficar. Foi empregada de bares e restaurantes, fez limpezas em apartamentos de Puerto Bañus e trabalhou num hotel, mas aos 50 anos conseguiu juntar dinheiro suficiente para montar o seu próprio negócio. Como já disse num post anterior, faz um delicioso “Wienerschnitzell” e mais duas ou três especialidades alemãs. Abre para os pequenos almoços e fecha por volta das 21.30 Alugou o espaço ano passado por 10 anos, mas lamenta-se por ter escolhido mal a altura. Para combater a crise, decidiu transformar o bar em salão de chá durante o Inverno e fazer uns bolos para vender aos ingleses “que passam a vida a fazer festas em casa uns dos outros”.
Desejo-lhe a maior sorte do mundo. Pelo menos a mesma que tiveram os dois filhos… Há uns anos começaram a cantar, à noite, pelos bares e restaurantes, entre Marbella e Torremolinos. “Aquilo dá dinheiro”- garante Eva. “ Nos meses de Verão chegavam a fazer mais de 500€ por noite mas, pelo menos 300, traziam sempre para casa”. Depois passaram a trabalhar durante o dia. Alugaram um barco a um amigo do pai e davam aulas de sky. Há dois anos abriram o primeiro bar na marina de Benalmádena, ano passado abriram outro em Marbella e este ano, se não fosse a crise, abalançavam-se a abrir outro em Puerto Bañus.
Hoje, fico-me por aqui nas apresentações. Quero apenas dizer-vos que olho à minha volta e aprecio a solidariedade que há entre os estrangeiros residentes nestas paragens. Faz-me lembrar Christiania e El Bolsón. Mas isso fica para os postais da Dinamarca. Por hoje a prosa vai longa e ainda vou dar um mergulho ali à praia.
Beijinhos e abraços para todos
* "The Last Waltz" não foi apenas a canção pirosa de Engelbert Humperdinck- um sucesso extraordinário de vendas que marcou um verão dos anos 70 . Foi também um memorável espectáculo de despedida do grupo canadiano “The Band”, realizado em S. Francisco em 1976, no “Dia de Acção de Graças”. O espectáculo foi filmado por Martin Scorcese e chegou às salas de cinema dois anos depois, com grande sucesso. Para os interessados, informo que foi editado há meia dúzia de anos em DVD.
Escolhi a música, para assinalar a abertura da “silly season” aqui no Rochedo, período para que prometo novidades – a anunciar ainda esta semana. Estejam preparados, porque esta cabecinha parece que enlouqueceu e promete muito disparate para as férias.
PS: Obrigado à Sun Iou Miou do "isto non e un caberé" (com link na coluna da direita) que me ensinou a maneira de contornar a falta do til!