sexta-feira, 5 de junho de 2009

"De pequenino, se traça o destino..."


Aos cinco anos, Laura conheceu pela primeira vez o significado da palavra "desemprego".
Com apenas dois anos, os pais alugavam-na diariamente a uma vizinha que a utilizava como chamariz para pedir esmola junto de pessoas condoídas."Beliscava-me para eu chorar e às vezes batia-me até ficar negra, para que as pessoas sentissem pena"- explica sem grande ressentimento.
Um dia, três anos mais tarde, Laura foi devolvida aos seus progenitores por alegadamente estar excessivamente pesada e já não despertar "sentimentos de caridade".No dia em que deixou de ser "menina de aluguer", Laura foi sovada com chicote pelo pai que a acusava de comer demasiados doces que os clientes de uma pastelaria das Avenidas Novas frequentemente lhe ofereciam.Meses mais tarde, carregando com a culpa de "não servir para nada e ter sido despedida", Laura entrou para uma escola primária na zona do Lumiar. Desses tempos, recorda uma professora bondosa e de olhar sereno que constantemente a acarinhava e incitava a estudar "para ser uma grande mulher", mas o sentimento de culpa não a largava e Laura, mal terminadas as aulas, ia expiar as suas culpas vendendo "pensos rápidos" aos automobilistas que passavam na zona do Campo Grande.
Laura repartia o seu tempo entre as filas de trânsito e a escola. E assim foi crescendo, alheia ao mundo que a rodeava, emoldurado de crianças iguais a ela, brincando com "Barbies", sem direito ao sonho de um dia casar de grinalda e flor de laranjeira com o "Ken" do conto de fadas da sua imaginação.
"Menina de aluguer" nasceu... também assim cresceu!A Laura que hoje está diante de mim, sentada à mesa de um "bar americano", tem 19 anos e uma filha de apenas dois, para quem reserva os melhores momentos. No ecrã de uma televisão distante, desfilam figuras de telenovela às quais não se pode equiparar, mas que nela despertam as recordações dos tempos em que o pai e um tio a perseguiam à compita, atraídos pelo despertar de um corpo "de cobiça".
Por trás de um verde olhar mesclado de tristeza, esconde-se ainda uma esperança no futuro com que sonhou no dia em que, incapaz de suportar as disputas familiares e já apaixonada pelo Marco, a ele se entregou , em troca de promessas de "Liberdade". Foi esse o dia da partida (tinha então apenas16 anos) para um destino incerto que "quis o acaso" a conduziu ao mesmo bar onde hoje, em troca de uma garrafa de espumante, me conta a sua ainda curta vida. Vida povoada de sonhos, onde cabe ainda a força para terminar o 11º ano e arrostar com as dificuldades de uma licenciatura como assistente social "porque não quero mais ver crianças a sofrer como eu sofri".
Dos tempos repartidos entre o Campo Grande e a escola, passou a tempos divididos entre o aconchego a clientes da noite e o prazer de "viajar" na companhia dos livros que a acompanham até ao local de trabalho. "Sabe, a vida da noite não está fácil e muitas vezes, como não há clientes, aproveito o tempo para estudar ou para ler".
O patrão, caso raro, também se mostra compreensivo . Perante a força indómita de Laura e a sua "fúria de aprender", quando a noite "está mais fraca" lá a manda para casa, para os braços do seu Marco,onde desfruta de alguns momentos de ternura partilhados com Daniela, a filha de um momento de liberdade.
(Crónica publicada em 1998)

O assassino invisível


Já aqui escrevi, diversas vezes, que os "Dias de..." valem o que valem, mas não poderia deixar de vos lembrar, neste Dia Mundial do Ambiente, que anda por aí à solta um inimigo invisível , que é responsável por muitas das doenças que afectam a sociedade moderna: o monóxido de carbono.
Todos sabemos que os automóveis são os principais culpados pelo mau ar que respiramos nas cidades e por muitas mortes e doenças respiratórias e cardiovasculares que afectam quem nelas habita. Ao libertarem para a atmosfera grandes quantidades de óxido de azoto, monóxidos de chumbo e carbono, os automóveis assumem na hodierna vida urbana o papel de “assassinos de luxo”. Todos os admiramos, dificilmente prescindimos dele nas nossas deslocações, pagamos elevados preços pela sua companhia, mas desconhecemos que temos por companhia diária e imprescindível um assassino encapotado. Diga-se desde já, no entanto, que ao automóvel não podem ser assacadas todas as responsabilidades pela conspurcação do ar que respiramos.
O monóxido de carbono que os automóveis libertam, por exemplo, está presente em muitos outros aparelhos que nos ajudam a tornar o lar mais agradável e com mais conforto, especialmente no inverno. Para além dos automóveis, os esquentadores, caldeiras a carvão, chaminés, braseiras, salamandras ( e o inevitável cigarro) são fontes de produção de monóxido de carbono, resultado de uma combustão incompleta de substâncias orgânicas e seus derivados ( petróleo, carvão, gás e querosene).
A razão porque a maioria das pessoas não dá grande importância aos problemas que provoca, talvez se deva ao facto de se tratar de um gás silencioso, inodoro, incolor e insípido que actua como uma espécie de “assassino invisível e silencioso”.Como a sua densidade é semelhante à do ar, mistura-se com facilidade na atmosfera ambiente, seja a nível do solo, seja em camadas de ar mais elevadas. Penetrando no organismo através da respiração, o monóxido de carbono entra com facilidade nos pulmões e no sangue, substituindo o oxigénio na hemoglobina. A princípio os seus sintomas são dificilmente detectáveis: dores de cabeça e náuseas (que com facilidade atribuímos à ingestão de produtos alimentares). Só mais tardiamente, quando a mobilidade dos membros é afectada e surgem problemas neurológicos é que é possível identificar as causas, mas não são raras as vezes em que já não há nada a fazer.
Assim, é sempre bom mandar verificar os aparelhos a que fizemos referência, para ver se estão em bom estado. Por outro lado, sempre que estes estejam em funcionamento, tomem a precaução de manter os compartimentos arejados e os aparelhos e equipamentos bem conservados. Poderão, também, adquirir um detector de monóxido de carbono, mas alerto-vos desde já que estes aparelhos são pouco fiáveis e não devem ser colocados em locais húmidos, como é o caso das casas de banho.
Outro aspecto que merece a pena realçar, prende-se com a potência dos aparelhos. Um aquecedor a gás muito potente num compartimento de dimensões reduzidas cria condições favoráveis à produção de monóxido de carbono e no caso de casas com chaminé, um abaixamento brusco da temperatura exterior pode provocar perturbações de tiragem, e favorecer a concentração dos gases de combustão.
Portanto, já sabem. Tenham em atenção alguns cuidados, a fim de evitar dissabores com esse indesejado intruso que se chama monóxido de carbono, que entra em sua casa sem se fazer anunciar.