terça-feira, 26 de maio de 2009

Dia Europeu do Vizinho

Neste blogobairro bem frequentado, onde os vizinhos se cumprimentam amiúde e a boa educação é uma regra por todos respeitada, o Dia do Vizinho é um bom momento para reflectir sobre as diferenças entre a vizinhança virtual e a do mundo real, que vemos nos nossos prédios diariamente, mas sobre a qual pouco ou nada sabemos.
Hoje queria contar-vos a história do meu primeiro contacto com os vizinhos do prédio onde vivo desde que regressei a Portugal. Era solteiro e bom rapaz, regressava com a sensação de que, em quase 25 anos de regime democrático, a mentalidade dos portugueses se tinha alterado.
A maioria dos leitores do Rochedo deve saber o que significa instalar-se numa casa nova. Gente que entra trazendo mobílias, a senhora dos cortinados, a em pregada doméstica que tacteia os cantos e entra e sai várias vezes ao dia, porque é preciso comprar mais qualquer coisa, o electricista, o homem que vem trazer o televisor e a aparelhagem de som, ,mais o da máquina de lavar, do fogão e do frigorífico, gargalhadas de amigos que não víamos há muito e apareceram para dar uma ajuda, o barulho de pregar na parede ( sempre durante o dia e nunca ao fim de semana, porque respeito a Lei do Ruído…) quadros e fotografias que fixam memórias de países longínquos, caixotes que chegam com aquilo que se foi acumulando ao longo de anos, noutras paragens, enfim, uma parafernália de sons e ruídos que mexem com o quotidiano de um prédio, mas que são inevitáveis quando nos queremos instalar confortavelmente e dar início a uma nova vida.
Saía do elevador carregando as últimas malas, quando uma senhora que já vira várias vezes, me abordou nestes termos, sem sequer me dizer boa tarde:
- Olhe, eu sou uma das administradoras do prédio. O sr. está a mudar-se para aqui, não é?
-Bem, neste momento só me estou a instalar, parto outra vez no final da próxima semana e só volto daqui a três meses. Estou a tratar de tudo para, quando regressar definitivamente, estar tudo em ordem e não ter sobressaltos.
-Vai voltar para Macau, é?
Arregalei os olhos. Como é que uma fulana com quem nunca falara sabia que eu tinha andado por Macau? E como é que se atrevia a fazer uma pergunta tão desconchavada, no primeiro contacto que tinha comigo? Mesmo assim, numa atitude de boa vizinhança esclareci-a:
- Já saí de Macau há uns tempos, agora estou a viver na Argentina. É para lá que vou…
- Bem, mesmo assim, deixe-me avisá-lo já de uma coisa. Já percebi que vem para aqui viver sozinho e quero que saiba que este prédio é muito calmo, não estamos habituados a gente solteira, por isso, não queremos barulho. Os homens solteiros gostam de fazer festas, trazer amigas e depois é um reboliço durante toda a noite. Para evitar problemas, é bom que saiba desde já quais são as regras do prédio.
Fiquei sem fala durante uns segundos. Depois lá consegui perguntar:

-Desculpe, como é que sabe que vivi em Macau e que sou solteiro?
- Quando o senhor andava em negociações para a compra da casa quisemos saber tudo a seu respeito. Quem era, de onde vinha, por onde tinha andado.
- Bem, pelos vistos a informação que lhe deram está desactualizada, uma vez que já não estou a viver em Macau …
- Mas vem para cá viver sozinho, não vem?
-Porque pergunta?
-Como não usa aliança e não vi ainda nenhuma senhora a acompanhá-lo com ar de ser sua esposa, penso que seja solteiro ou divorciado…
Não acreditava no que se estava a passar. Comprara casa numa zona onde, supostamente, o nível sócio-cultural das pessoas era pouco dado a mexericos e conversas de vão de escada. Pedi desculpa e, alegando cansaço, despedi-me. Sosseguei a senhora- que aparentava ser mais ou menos da minha idade- dizendo que respeitaria o direito ao repouso dela e de todos os vizinhos. Entrei em casa a remoer a situação e a dizer mal da minha vida. Ainda não me instalara e já estava com vontade de mudar de casa.
Quando voltei, ao fim de cinco meses- e não dos três que planeara – meti as malas em casa e decidi ir falar com a vizinha. Tinha o discurso estudado. Dir-lhe-ia “cheguei, agora vou ficar de vez e espero que não espiolhe a minha vida, não queira saber com quem entro em casa , salvo se estiver interessada em fazer-nos companhia”. Assim, curto e grosso a fim de evitar mais conversas.
Quando ela abriu a porta, fez um ar de espanto e disse:
- Ah! Até que enfim! Tinha dito que só demorava três meses, até pensei que tinha decidido ficar por lá por Macau… Olhe seja muito bem vindo, esperamos que se dê bem e gostávamos de o convidar para um dia destes vir jantar cá a casa. Eu e o meu marido cultivamos a boa vizinhança, sabe... e como não temos filhos, gostamos de receber os amigos em casa.
A minha cara deve ter-se coberto de um carregado sorriso amarelo, mas ainda consegui dizer:
-“ Um dia mais tarde combinamos, agora não é oportuno. Acabo de chegar e tenho que organizar primeiro a minha vida.”
Até hoje. A senhora já lá não mora, mas enquanto lá viveu, sempre nos cumprimentámos educadamente. Mais convites para jantar é que, felizzmente, não houve.Muitos dos vizinhos daquele tempo já se mudaram e chegaram alguns novos. Muitos são casais jovens. Tal como com os anteriores, os contactos são poucos. Apenas com meia dúzia de pessoas me demoro alguns minutos a conversar. Não frequentamos as casas uns dos outros. Vivemos com a urbanidade possível – uma palavra que detesto- discutindo duas vezes por ano os problemas do condomínio. Uma questão de Química... Lembram-se?


From Russia With Love?

Na sequência do post anterior, recomendo a leitura desta notícia do "Público". A mão biológica faz gravíssimas acusações à família portuguesa a quem entregou a criança e a outra filha chega ao desplante de afirmar que vai pedir uma indemnização "por danos morais". Além de estúpidas, são ingratas.

Vale a pena acompanhatr o trabalho que a televisão russa está a fazer sobre este assunto. Começou por divulgar as condições em que a miúda está a viver e vai entrevistar, na quinta -feira , os "pais portugueses" que se deslocam a Moscovo a convite do Canal 1 da televisão russa. O advogado da família também estará presente e afirmou que exige a presença de um tradutor idóneo, a fim de garantir que a conversa não seja deturpada. Vale a pena seguir o assunto com atenção. Não só pela "história", mas também sob o ponto de vista do tratamento jornalístico.

E agora, ninguém é responsabilizado?

Não ponho em causa a justeza da decisão, à luz da legislação que nos rege. Causa-me, no entanto, algum desconforto, saber que um juiz ordenou que uma menina de seis anos entregue pela mãe a uma família de acolhimento, com um ano de idade, seja devolvida à mãe biológica para ir com ela viver para a Rússia. A menina não fala uma palavra de russo, praticamente nunca conheceu a mãe, nem qualquer outro elemento da família sanguínea.
Admito estar a fazer um juízo precipitado. Não deixo, porém, de me interrogar como será o futuro desta criança, retirada em menos de 24 horas do ambiente onde nasceu e enxertada num meio familiar que, por muito amigável que seja, lhe coarcta a capacidade de comunicar.
Tal como no caso Esmeralda, vai ser necessário esperar vários anos para avaliar os efeitos da decisão judicial. Que poderão ser irreversíveis. Mesmo que venha a haver culpados, nunca serão punidos.
Espero que o video hoje exibido nas televisões, mostrando os maus tratos a que a menina está a ser sujeita pela mãe, tenha sido visto pelas pessoas que tomaram a decisão "no interesse da criança". E espero que seja obrigado a ver o video pelo menos 3 vezes ao dia antes das refeições . Já que a decisão não lhes tira o sono, pelo menos que lhes tire o apetite!