sábado, 9 de maio de 2009

Rochedo das Memórias (106)- A Censura do Livro no Estado Novo -IX

A verdade é que a Censura continuava a ser uma máquina eficaz. Os autos de apreensão a que tive acesso mostram que esta acção repressiva se verificava em todo o território português, incluindo as cidades mais pequenas do interior do país, as ilhas e as colónias. Nesta acção participavam a PIDE, a GNR, a PSP e até os Correios.
Nos anos 40/50, a empresa Standard Electric fez um contrato com a PIDE para a instalação de um esquema radiofónico em todas estas áreas referidas. O objectivo era que uma ordem de apreensão dada em Lisboa fosse, dentro de poucas horas, recebida em todos aqueles pontos, e dentro de pouco tempo um livro podia desaparecer de todo o território nacional.
Durante a Guerra Colonial o regime aperta ainda mais os seus tentáculos e a perseguição a escritores acentua-se, sendo o caso já referido da atribuição do Prémio da Grande Novela a Luandino Vieira, então preso no Tarrafal, e o consequente encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores, exemplos paradigmáticos da época.
Em 1968, durante o II Congresso Republicano de Aveiro, Óscar Lopes , Marta Araújo e Egito Gonçalves retomam um pouco a ideia de Ferreira de Castro em 1945 ao sublinharem que a autocensura que o que o escritor acabava por impôr a si próprio “atinge até as características estilísticas da literatura e do articulismo destes últimos quarenta anos, obrigando o escritor e o jornalista a uma linguagem cifrada, indirectamente alusiva, pesada de circunlóquios e eufemismos”.
Idêntico desencanto manifesta no Congresso José Tengarrinha ao afirmar:
“O escritor é aljubado por delito de opinião. Apreendem-se as suas obras. Muitos viram-se obrigados a entregar livros à Censura antes de serem impressos ou postos à venda. A actividade criadora é condicionada de for a para dentro; e todo o livro acaba por ficar clandestino, na sua extensão livre e profunda: dele aparece o registo amputado que o regime deixará transitar… "
Quem quer que, de facto, haja tido experiência de um contacto, mesmo que breve, com a censura, sabe que as suas decisões eram imprevisíveis. Nunca a priori se poderá antever que tema ou palavras saem da realidade-dogma instaurada pelo regime. Talvez nem o censor o saiba. O dogma varia conforme os tempos. A acção da Censura é, ainda por tal motivo, uma permanente arbitrariedade. Cortar a mais não traz sanções. O dossier censura despertará um dia, quando aberto, o assombro, a repugnância.
( Continua)