sexta-feira, 8 de maio de 2009

Tá tão giro, num tá?



Seria difícil não falar, hoje, da inauguração do Dolce Vita Tejo, essa majestática cidade virtual, recentemente instalada não sei onde, que se proclama como a maior da Península Ibérica.
A exemplo do que aconteceu nos anos 80 com o Amoreiras e, nos anos 90, com o Colombo, a primeira década do século XXI vai ficar marcada, no nosso orgulho luso, por mais um centro comercial que é o maior da Península. Aí acorrerão, certamente, muitos milhões de portugueses espicaçados pela promoção, mas também pelo deleite de se poderem passear num megacentro comercial que fará inveja aos nossos vizinhos espanhóis a quem o futuro reserva o dispêndio de muitos milhares de euros da sua crise, directamente vertidos nos depauperados cofres do grupo Amorim .
Não vou, no entanto, escrever sobre as virtudes e inconvenientes deste "grandioso empreendimento" com nomes de ruas soando a paraísos tropicais, ornamentadas de árvores cheirando a plástico, onde repousam pássaros de cântico electrónico.( Não fui lá, mas deve ser assim…) Vou apenas escrever sobre aqueles portugueses que, embora cheguem todos os dias atrasados ao emprego, não falham a abertura de um centro comercial. Juntam o útil ao agradável: recebem uns brindes e têm tema de conversa à hora da janta.
Informa “o Público” que lá estavam muitos, ontem, às 5 da manhã (as portas abriam ás 10) prontos a reclamar o vale de compras de 100 euros para gastar numa papelaria. De olhos esbugalhados e pescoço de girafa, faziam comentários à beleza que se lhes deparava diante dos olhos.
Habituados a reclamar contra os transportes, o trânsito, ou as obras do Metro, ontem não se insurgiram contra os parques de estacionamento fechados, o estacionamento caótico, ou o pó proveniente das obras ainda por terminar. Alguns meteram um dia de férias, outros terão faltado alegando indisposição momentânea. O importante era encontrar um bom pretexto para não perder a oportunidade de ser dos primeiros a visitar a nova catedral de consumo.

Onde está o dinheiro?

O BPP anda há seis meses a "estudar" a forma de restituir aos depositantes , o dinheiro que lhes "derreteu" em aventuras de "off-shores", "fundos tóxicos" e "tutti quanti".
Enquanto os depositantes continuam a arder e ocupam a sede do banco, numa tentativa desesperada de reaver o dinheiro, começa a perceber-se como é que ele foi utilizado. Para já descobriu-se a careca do sr. Rendeiro. Fazendo jus ao nome, deve ter feito uma rica renda com esta técnica. Cada vez tenho mais pena destes banqueiros que, na opinião do sr engenheiro, são quem traz riqueza ao país.
Agora, Teixeira dos Santos diz que o Estado vai pagar. Seria mais correcto dizer que os contribuintes portugueses vão pagar...

Rochedo das Memórias (105): A Censura do Livro no Estado Novo-VIII

Dez anos mais tarde, em 1943, o Decreto-Lei 33015 de 30 de Agosto vem legitimar uma prática já habitual, alargando a obrigatoriedade de sujeição aos serviços de Censura às editoras livreiras.
De acordo com o diploma legal, os transgressores poderão ser penalizados com multa até 200 contos, suspensão de actividade até 180 dias, ou mesmo obrigados a encerrar definitivamente a empresa. Mas este diploma vai mais longe e aplica aos proprietários das editoras um preceito já instituído desde 1936 para a imprensa: a necessidade de uma autorização prévia do Governo para a criação de uma editora, que só será concedida mediante a análise da idoneidade moral e financeira” do(s) proprietário(s).
Alargava-se a discricionaridade da actividade censória, tornando-a ainda mais subjectiva e cerceando a possibilidade de criação de editoras. Mais grave ainda, fazia-se incidir sobre as próprias editoras os encargos da Censura, como se pode perecber através da leitura do artº 2º do mesmo Decreto 33015 de 30 de Agosto de 1943.Independentemente da aplicação de outras sanções aí se estipulava que “junto das empresas responsáveis e à custa destas, funcionem delegados do Governo com as funções que lhes forem fixadas nos despachos de nomeação”.
Em 1944, a Censura é entregue ao SNI (Secretariado Nacional da Informação) organismo que fica a depender directamente de Salazar. O homem que em 1933 dissera em entrevista a António Ferro que concordava ser a Censura “uma instituição defeituosa e por vezes injusta, sujeita ao livre arbítrio dos censores, às variantes do seu temperamento, às consequências do seu mau humor (...)", chamava a si a sua orientação, alegando que “A Censura constitui a legítima defesa dos Estados livres, independentes, contra a grande desorientação do pensamento moderno, a revolução internacional da desordem...” O ditador justificava a existência dos censores, com a necessidade de “defender a felicidade dos homens”! Mesmo que isso significasse cortes fundamentados apenas em vinganças, ódios, ou simples livre arbítrio, o importante era garantir a autoridade do Estado e exorcizá-lo de forças nefastas. Daí a importância da actividade complementar da PIDE em todo o sistema: quem não respeitasse a obra de reconstrução e saneamento moral, que era o seu grande desígnio, podia ser perseguido pela PIDE, encarcerado, torturado, deportado ou sujeito a sevícias. A BEM da NAÇÃO!
Logo após ter terminado a Segunda Guerra Mundial, o regime dá mostras de um aparente abrandamento. Nem toda a gente, porém, acreditava nas “boas intenções” e muitos sabiam que, mesmo que a Censura viesse a "relaxar", ninguém poderia reparar os males que já causara. Disso mesmo, aliás, se fazia eco Ferreira de Castro em entrevista ao Diário de Lisboa,em 1945:
Eu declaro aqui, com uma melancolia enorme, que só pode ser compreendida por outros escritores, que a minha obra literária foi irremediavelmente prejudicada pela existência da censura e que, mesmo vindo agora a liberdade, eu já não poderei recupera o tempo perdido. Os assuntos que mais me empolgaram, aqueles em que eu poderia realizar completamente a minha personalidade, fui-os abandonando sucessivamente, por não serem compatíveis com as instruções a que a censura obedecia. À satisfação de descobrir o argumento de um romance, sucedia sempre o desespero de ver que não o podia tratar”.
É por essa altura que surge o MUD (Movimento de Unidade Democrática) e um grupo de intelectuais, entre os quais se encontram os escritores Aquilino Ribeiro, Artur Portela, José Gomes Ferreira e Mário Dionísio, entrega ao Presidente da República um abaixo assinado contendo 230 assinaturas, pedindo a eliminação da Censura e a garantia de expressão livre do pensamento. Estávamos em 1946, mas a resposta só chega três anos mais tarde. Em Junho de 1949, Salazar faz publicar o Decreto 37447 que regula a apreensão de publicações e o encerramento das tipografias “que imprimam publicações, manifestos, panfletos ou outros escritos subversivos que possam perturbar a ordem pública”. O mesmo diploma estabelece que “serão aprendidos, revertendo para o Estado, as respectivas máquinas e restantes bens móveis”.O Estado Novo descobria mais uma forma de equipar a custo zero os gabinetes dos Ministérios.