quarta-feira, 6 de maio de 2009

O coração tem razões...

Não conheço pessoalmente Pedro Namora. Parece-me ser uma daquelas pessoas que falam- e muitas vezes pensam- com o coração. Gosto do género. Não gosto de pessoas estudadas, com discursos programados, sempre em busca do politicamente correcto para agradar a quem o escuta.
Sei, por experiência própria, que ter o coração ao pé da boca pode trazer dissabores e que pessoas assim devem evitar fazer denúncias e acusações em praça pública, sem estarem convenientemente fundamentadas. Para se defenderem a elas próprias, e evitarem ser manipuladas por jornalistas manhosos. Como muito bem lembra Ferreira Fernandes no DN, “maus magistrados e opinião pública analfabeta serviram-se dele tão indecentemente quanto os abusadores da Casa Pia”.
Assim se tornou figura pública. Para o bem e para o mal. Talvez tenha sido maior o sofrimento do que a glória., mas esses são os custos de quem se torna figura pública.
Quando hoje li que Pedro Namora se demitira do PCP para se candidatar à Câmara de Setúbal, pelo PPM, engoli em seco. Como é possível um homem, que foi comunista desde sempre, deixar o partido de um dia para o outro e candidatar-se pelo PPM no dia seguinte?
Depois fiz a pergunta ao contrário: como é que o PPM escolhe como candidato um ex-comunista que, no dia em que se demite do partido, reafirma a sua fidelidade aos princípios do comunismo e faz, no seu blogue, a apologia do comunismo?
Foi mais fácil encontrar a resposta a esta pergunta. Infelizmente.

Pequenos gestos, grandes lições!


Lembram-se da Sílvia? A maioria dos leitores do Rochedo não a conhecerá, pelo que sugiro uma leitura aqui
Ontem, à hora do almoço, disse-me que ia regressar à Moldávia no final do mês. Fiquei surpreendido, pois ela sempre manifestara vontade de regressar, mas apenas quando o Igor fizesse 5 anos, altura em que deverá entrar para a escola. Explicou-me que decidira regressar mais cedo porque o marido está sem trabalho desde Outubro e, asssim, já não compensa viver em Portugal."Para estar mal, prefiro voltar para a minha terra"- disse num sorriso amargo.
Quando paguei a conta, entregou-me um envelope e disse: "gostávamos muito que aceitasse".
Abri. Dentro estava uma fotografia da família e um convite para almoçar no domingo em casa deles.
Senti aquele nozinho na garganta e a visão ficar mais turva. Confirmei de imediato a minha presença. Depois, quando regressava ao meu gabinete de trabalho, fiquei a pensar como às vezes um pequeno gesto ultrapassa largamente o significado que lhe pretendemos dar.
Vou eleger os carapins como embaixadores da amizade Portugal-Moldávia

Rochedo das Memórias (104)- A Censura do Livro no Estado Novo - VII

OS FUNDAMENTOS DA CENSURA:
CONTRIBUTOS PARA UMA HISTÓRIA (BREVE) DA CENSURA NO ESTADO NOVO
“Ela (a Censura) é uma arma de dois gumes. Pode cobrir todos os erros dos que a estabelecem e mandam; pode iludir a opinião pública e criar falsos ídolos; pode sustentar no Poder, durante dezenas de anos, homens ou ideias que, só por eles, talvez não se sustentassem por dezenas de dias; mas, quase sempre, a Censura acaba por ser fatal também àqueles que a instituem”.
Ferreira de Castro (1946)
(Mensagem enviada ao MUD)
Tendo como bases de fundamentação os diplomas que ao longo do tempo Salazar e Caetano fizeram publicar, a actividade da Censura era, óbviamente, seguidista e discricionária. Apesar de tudo, não foram raras as vezes em que o velho ditador se insurgiu contra a brandura das punições aplicadas pela Comissão de Censura e ele próprio as fez agravar.
Da análise dos diplomas legais publicados desde 28 de Maio de 1926, é possível retirar alguns exemplos do que se pretendia com a actividade censória. Logo em 22 de Junho de 1926, o poder saído do golpe de 28 de Maio assume frontalmente a censura, impondo-a como uma característica intrínseca do regime, de que dá conhecimento a toda a imprensa através de uma nota da Polícia Cívica: “Por ordem superior levo ao conhecimento de V. que a partir de hoje é estabelecida a Censura à Imprensa, não sendo permitida a saída de qualquer jornal, sem que 4 exemplares do mesmo não sejam presentes ao Comando Geral da GNR para aquele fim. E todos os jornais passam a levar o dístico “Visado pela Comissão de Censura”.
A Lei de Imprensa é publicada duas semanas depois, a 5 de Julho, mas três dias mais tarde é suspensa, sendo reposta no dia seguinte, após o golpe de Estado que depõe Gomes da Costa e outorga o Poder a Carmona.
Para conhecer os fundamentos da Censura é imprescindível a análise das circulares profusamente distribuídas pela Direcção Geral dos Serviços de Censura. Em 28 de Agosto de 1931, a DGSC justifica a Censura como “um meio indispensável na obra de reconstrução e saneamento moral” e um ano mais tarde, em Julho de 1932, uma outra nota volta a insistir nesta medida indispensável, mas acrescenta outros elementos curiosos:
“A intervenção da Censura, rigorosamente condicionada pela necessidade de evitar a publicação de ideias e factos, considerados prejudiciais ao bem público, deve exercer-se na medida justa (...); não serão permitidas referências desprimorosas, irreverências às autoridades, notícias de atentados e julgamentos por motivos políticos, críticas aos actos da Ditadura, alusões aos serviços da Censura”.
Embora tendo como alvo prioritário a imprensa, estas “Notas Oficiosas” permitem descortinar as bases em que se fundamenta a Censura que, a partir de meados da década de 30, se abate com veemência também sobre o livro. Baseado em fundamentações de respeito pela moral e pelo bem público, o Estado Novo estava essencialmente preocupado em que não fosse revelada a verdade. Para que não restem dúvidas sobre o alcance dos tentáculos da Censura, é publicado em 1933 o Decreto-Lei 22469 de 11 de Abril, onde se pode ler: “continuam sujeitos a Censura Prévia as publicações periódicas definidas na Lei da Imprensa e bem assim as Folhas Volantes, Folhetos, Cartazes e outras publicações, sempre que em qualquer delas se versem assuntos de carácter político ou social (...) A Censura terá somente por fim, impedir a perversão da opinião pública na sua função de força social”.
(continua)