sábado, 2 de maio de 2009

Finalmente, o triunfo dos porcos?


Uma cidade de 20 milhões de habitantes parada durante cinco dias. Estabelecimentos comerciais, salas de cinema e espectáculos encerradas, actividades desportivas a desenrolarem-se à porta fechada, actividade produtiva reduzida. É assim, por estes dias, a sempre buliçosa Cidade do México. Quase deserta, paralisada, sem vida. Parece filme de ficção, mas é o relato da realidade.
Tudo isto se passa por causa de um vírus que decidiu sair das entranhas de um suíno, alojar-se num corpo humano e multiplicar-se. Talvez insatisfeito com o hóspede que o albergou e dando largas à sua ânsia de viajar, decidiu introduzir-se noutros corpos e dentro deles atravessar oceanos e espalhar-se pelo mundo.
Sem passaporte, licença de trabalho, ou autorização de residência, começou a fazer o seu trabalho, deixando o mundo em suspenso.
Um mundo habitado por seres inebriados pelos prazeres consumistas e ufano por dominar as tecnologias – capacidades que os fazem sentir semi deuses – está m pânico porque não consegue controlar as diatribes de um ser microscópico que decidiu saltar das grilhetas do corpo de um pachorrento suíno e percorrer o mundo, divertindo-se com a suas diatribes.
Talvez em breve o homem volte, ufano, a proclamar que graças à sua sapiência conseguiu dominar o vírus e tudo volte à normalidade. Talvez… mas até quando será capaz de o fazer?
Enquanto aguardo o regresso a Lisboa, penso na gripe espanhola que há 90 anos matou milhares de pessoas Apesar de o homem dominar as tecnologias e a medicina ter feito progressos fabulosos, quase um século depois o homem não sabe quantas pessoas poderá vitimar este vírus mexicano.
Rebobino o filme. Há 90 anos a gripe espanhola, há 80 anos uma crise financeira idêntica à actual e há 70 uma guerra devastadora que pôs fim a uma crise financeira. Lembro-me que durante essa guerra os EUA lançaram sobre o Japão duas bombas atómicas cujos efeitos colaterais desconheciam totalmente. Apenas sabiam que iriam destruir duas cidades, matar milhares de cidadãos, mas desconheciam os seus efeitos a nível planetário. Mesmo assim arriscaram… Não apenas uma, mas duas, porque as bombas eram de fabrico diferente e os efeitos colaterais, aparentemente, poderiam ser contrários Faço as minhas conjecturas, mas guardo-as sigilosamente.
Sei apenas que, dentro de um minuto, carrego numa tecla deste computador e, poucos segundos depois, este texto poderá ser lido em todo o mundo. Maravilhoso, não é?
Mas enquanto faço um click para editar este post e o pôr a viajar pelo mundo inteiro, qual será a intenção do vírus que saltou do corpo de um suíno e atravessou o mundo? Que caminhos irá ele percorrer? Não sei, nem ninguém sabe. Os peritos da OMS andam às aranhas, os cientistas encerram-se num mutismo ignorante, os peritos das novas tecnologias que tudo resolvem, declaram que de vírus só percebem o que se passa dentro dos computadores. Se um dia um destes vírus decidir saltar do ecrã do computador e se alojar num corpo humano, o que poderá acontecer?
Sinto-me personagem de filme de ficção. Quando me chamam para regressar a Lisboa, penso que provavelmente todos teríamos a ganhar, se em vez da soberba de querer dominar o mundo, desprezando o meio ambiente e as espécies que connosco convivem no mesmo meio, parássemos um pouco para reflectir. Falta-nos uma boa dose de humildade e respeito pelos seres vivos que habitam este planeta. Talvez o Homem só aprenda a lição quando um desses seres vivos lhe mostrar que, afinal, não é dono e senhor do Mundo.