quinta-feira, 30 de abril de 2009

Rochedo das Memórias (102): A Censura do Livro no Estado Novo-V

CENSURA DO LIVRO:MEMÓRIAS E REMINISCÊNCIAS

“Chego a concordar que a Censura é uma instituição defeituosa, injusta, por vezes, sujeita ao livre arbítrio dos censores, às variantes do seu temperamento, às consequências do seu mau humor (...). Eu próprio já fui em tempos vítima da Censura e confesso-lhe que me magoei, que me irritei, que cheguei a ter pensamentos revolucionários”António de Oliveira Salazar em entrevista a António Ferro (1933)
(Citado em A Censura na iconografia e na caricatura Portuguesa - Humorgrafe/Museu da República e da Resistência 1997)
Trinta e cinco anos depois daquela manhã de Abril, em que os militares decidiram devolver a Liberdade aos portugueses, falar em Censura é algo que soa a passado e cuja memória colectiva se vai lentamente esboroando no percurso do tempo. É pelo menos essa a sensação com que se fica, ao falar com pessoas que durante o Estado Novo foram vítimas da Censura. Atente-se, por exemplo, no que diz Augusto Abelaira que em 1965 era Presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores e, por inerência, do Júri que atribuiu o Grande Prémio da Novela a Luuanda de Luandino Vieira, que na altura se encontrava preso no Tarrafal:“Confesso que não consigo relembrar com exactidão todos os pormenores que se seguiram à atribuição do Prémio a Luandino Vieira. Constatei isso alguns anos depois do 25 de Abril quando fui convidado, juntamente com outro dos membros do júri (Alexandre Pinheiro Torres), a deslocar-me a Luanda para aí efectuar uma palestra sobre as peripécias em que nos vimos envolvidos e, com alguma mágoa, reparei que em muitos pormenores as nossas memórias não coincidiam.” Uma coisa, no entanto, é certa: apesar de a atribuição do Prémio ter sido decidida por maioria (e não por unanimidade), nenhum dos membros do Júri esperava a reacção intempestiva da PIDE, uma vez que o livro já recebera um prémio em.... Luanda! A verdade, porém, é que quase todos os membros do júri acabariam por ser presos e passar alguns maus bocados na António Maria Cardoso. Para além disso, a Censura transmitiu aos jornais instruções, impedindo que os nomes dos membros da SPE que tinham atribuído o Prémio da Novela a Luuanda aparecessem nos jornais. “Era como se estivéssemos mortos”- diz o autor de “A Cidade das Flores”. Mas os estragos não se ficaram por aqui. A Gulbenkian, que dava o dinheiro para o Prémio, suspendeu o seu patrocínio e a SPE foi encerrada, só vindo a reabrir em 1969, como nome de Associação Portuguesa de Escritores, durante o Governo de Marcelo Caetano. Episódio picaresco que demonstra como a Censura nem sequer respeitava trabalhos científicos, mesmo quando o seu autor era um Prémio Nobel da Medicina, relataem 1953 Egas Moniz em entrevista ao Jornal República:“ Por mim lhe digo: as Confidências de um Investigador Científico, tiveram cortes em páginas que guardo como sinal dos tempos. Não se tratava de assuntos fundamenatis; aliás, apesar de ir adiantada a impressão, não seriam publicadas. Mas ficou gravada a garra do vexame. Mais curioso é o que se passou com outro livro meu A vida Sexual, que originariamente estava dividida em dois volumes (depois reunidos em um só:Filologia e Patologia). O primeiro serviu de dissertação no meu acto de conclusões magnas, em Coimbra, que me deu o capêlo na Universidade, e o segundo foi a tese de concurso que melevou ao perofessorado. Já andava pelo trigésimo ano da primeira publicação e já entrava o livro na 19ª edição, quando foi proibida a sua venda! O editor, que se sentiu muito prejudicado, protestou e solicitou ao ministro do Interior dessa época solução menos gravosa para o assunto. Depois de muito trabalho, obteve dos poderes públicos a concessão de ser vendida a obra sob requisição médica e mais tarde também dos advogados! Resultado: esgotou-se o volume, que passou a ser raro.
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i Em entrevista à Revista Ler do Outono de 1995, Alexandre Pinheiro Torres faz várias revelações extremamente importantes que clarificam o que se passou após a entrega do prémio, razão porque reproduzirei, em anexo, e na íntegra, o excerto dessa entrevista que considero essencial para uma melhor compreensão do que efectivamente se terá passado e mesmo para o que era na época a Censura e a Sociedade Portuguesa de Escritores.
iiEm algumas situações os depoimentos convergem, mas Alexandre Pinheiro Torres revela dados que Augusto Abelaira ou não recorda, ou preferiu ocultar. Na verdade, o próprio Governador de Angola entregara a um representante de Luandino Vieira o prestigiado prémio Mota Veiga, atribuído a Luuanda. Como diz Alexandre Pinheiro Torres na entrevista à “Ler”, a Censura e o próprio Governo desconheciam o livro. iiiFernanda Botelho esteve sempre em liberdade, pois era secretária particular do embaixador da Bélgica e este ameaçou o governo português com um incidente diplomático se a prendessem (Alexandre Pinheiro Torres,e.c.)

Sabedoria chinesa

Antes de escrever o post anterior, devia ter pensado num provérbio chinês muito importante para evitar problemas na vida, que a minha mãe me está sempre a lembrar:
"Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida."
Agora é tarde, já não há remédio. Paciência. Uma vez mais as minhas desculpas, se ofendi alguém, mas procuro sempre ser bem educada com todos.
Martinha