quinta-feira, 23 de abril de 2009

Pausa para leitura(s)


Chego a casa ainda com muito trabalho para fazer, muitas teclas para bater, formar palavras, construir frases que formem um texto coerente, capaz de transmitir a mensagem que pretendo levar aos leitores que me vão ler lá pelo hemisfério sul.
Olho para os livros empilhados na mesa ao lado da minha secretária, à espera de serem manuseados pelas minhas mãos sedentas. Quase pressinto um sussurro de alguns que se interrogam: “nem hoje, Dia Mundial do Livro, ele nos vai dedicar uns minutos de atenção?”.
Sou sensível ao apelo. Toco-lhes. Afago-lhes as capas. Folheio ao acaso uns dois ou três. Detenho-me a olhar a capa de “A Sul da fronteira, a Oeste do Sol” de Haruki Murakami. Abro ao acaso e leio:
“Durante o liceu transformei-me num adolescente como tantos outros. Essa foi a segunda fase da minha existência, um novo estádio no meu processo evolutivo. Abandonei a ideia de vir a ser diferente e contentei-me com o estatuto de pessoa normal. Claro que aos olhos de uma pessoa observadora os meus problemas não teriam escapado. Mas também qual é o rapaz de 16 anos que não passa por isso?Pode dizer-se que aos poucos , comecei a aproximar-me do mundo, ao mesmo tempo que o mundo vinha ao meu encontro…”.
Já não estou à secretária. Voei no tempo. Recuei à minha adolescência. Mas não posso continuar a voar nas asas do meu passado. Não tenho tempo para continuar a ler. Está prometido. Amanhã, pela noitinha, vou levar este livro comigo. Com ele irão mais dois ou três que começarei a desbravar, ancorado num stop over sem saudade. Depois voarão comigo nas asas de um Airbus. Rumo à felicidade.
Esperem só mais um pouco, meus amigos inseparáveis. Amanhã encontrar-nos-emos de novo. Nada temeis. Nunca vos trocarei pelas plataformas digitais, sem alma, nem cheiro, onde não vos posso tocar. No sábado estareis comigo, nos jardins de Palermo, bem junto à casa de Borges. Teremos então tempo para trocar algumas ideias.

Rochedo das Memórias (98): A censura do livro no Estado Novo


Inicio hoje uma série de posts dedicados à Censura do Livro durante o Estado Novo. Foi a maneira que escolhi para evocar , este ano, o 25 de Abril.


Livros e democracia


“Ao longo de gerações e gerações, através de monarquias e impérios; de inquisições e ditaduras; arrastando silêncios, arrastando exílios, uma lenta procissão de mártires desfilou por esse incalculável corpus de naufrágio que são os milhares de quilómetros de textos lançados às fogueiras e aos arquivos”.


(José Cardoso Pires)


O livro sempre foi visto com alguma desconfiança por poderes autoritários mas serviu, simultaneamente, de meio de propaganda desses poderes. Salazar, ao que consta, gostava de ler, mas foram muitos os livros cuja edição foi proibida em Portugal, por serem considerados “transmissores de ideias perigosas e nefastas, susceptíveis de corromperem a sociedade e os cidadãos”. Nem mesmo a literatura infantil escapou aos poderes da censura. Este excerto de uma ordem emanada pela Direcção dos serviços de Censura de Instruções sobre a literatura infantil, ilustra-o bem:
“Parece desejável que as crianças portuguesas sejam cultivadas, não como cidadãos do Mundo, em preparação, mas como crianças portuguesas que mais tarde já não serão crianças, mas continuarão a ser portuguesas.”
No entanto, Salazar não menosprezava (e até incitava) a edição de livros que apregoassem as virtualidades do regime, que exaltassem a “nossa gesta”, ou os nossos “bons e brandos costumes”. Ditadores de sinal contrário tiveram atitudes idênticas ao longo da História e, só neste século, muitos foram os escritores obrigados a emigrar dos seus países para poderem divulgar as suas obras. Solnietsjine e Kundera, são apenas dois casos entre muitos que se podiam citar.
O cinema também nos deu, com Farehneit 451, uma imagem clara dos medos que os ditadores sempre tiveram dos livros e, em O Palácio dos Sonhos do escritor albanês Ismail Kandaré, ficámos também com uma visão dantesca da relação entre o Poder, a Censura e os livros.

Resulta assim que, para exercer em plenitude a sua função, o livro precisa de sociedades democráticas. É aí que o livro se sente bem, pois só em democracia (numa perfeita e sã concorrência de títulos e autores) consegue derramar, despojado de ideias pré-concebidas, o conteúdo das suas mensagens. É em democracia que o livro se assume, sem subterfúgios, nas suas diversas - e por vezes antagónicas - vertentes: veículo de informação ou propaganda, instrumento de entretenimento e cultura, ou simplesmente objecto estético, destinado a emoldurar as prateleiras de uma estante, depositário de saberes, ou despertador de consciências.

Só que uma sociedade democrática não se mede apenas pela democracia dos poderes e das instituições, mas também pela capacidade de acesso das populações aos bens culturais (onde se inclui o livro) ou pelos hábitos de leitura, mas isso levar-me-ia por caminhos que não pretendo aqui abordar. Apenas pretendo deixar bem vincada a ideia - que não é só minha- de que o livro, embora movendo-se numa trajectória específica deste mundo global, tem resistido a todos os ataques, incluindo os da Censura e da PIDE. Ferozes na Metrópole, mais brandas mas igualmente tentaculares nas ex-colónias. Como adiante se verá!.... (Continua...)