domingo, 19 de abril de 2009

Ary dos Santos: 25 anos depois



Hoje, pelas 18 horas, no Instituto Franco- Portugais, assinalam-se os 25 anos da morte de Ary dos Santos. Uma justíssima homenagem a um dos mais talentosos poetas portugueses, que perdura na memória de muitos, mas os mais jovens desconhecem.

Presto-lhe a minha homenagem , transcrevendo o poema "Poeta Castrado, não!"

Serei tudo o que disserem

por inveja ou negação:

cabeçudo dromedário

fogueira de exibição

teorema corolário

poema de mão em mão

lãzudo publicitário

malabarista cabrão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado não!

Os que entendem como eu

as linhas com que me escrevo

reconhecem o que é meu

em tudo quanto lhes devo:

ternura como já disse

sempre que faço um poema;

saudade que se partisse

me alagaria de pena;

e também uma alegria

uma coragem serena

em renegar a poesia

quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu

a força que tem um verso

reconhecem o que é seu

quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala...

é tão vulgar que nos cansa...

mas que dizer de uma bala

num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história...

a morte é branda e letal

mas que dizer da memória

de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser

o poema dia a dia?

Um bisturi a crescer

nas coxas de uma judia;

um filho que vai nascer

parido por asfixia?!

Ah não me venham dizer

que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem

por temor ou negação:

Demagogo mau profeta

falso médico ladrão

prostituta proxeneta

espoleta televisão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado não!

(José Carlos Ary dos Santos)

Que falta nos faz, Zé Carlos, uma voz como a tua, que se erga para denunciar, sem rebuço, os podres deste país de corruptos autodidactas, sempre de dedo em riste, apontando indignados, a perversão da moral e os " maus costumes".