segunda-feira, 16 de março de 2009

Justiça social

Olga, mãe solteira com um filho para sustentar, começa a trabalhar às 8h30 e “larga” às 17.30. Para arredondar o seu magro salário de 700€ faz uns biscates pela vizinhança.
Vítor não tem horário de trabalho, nem filhos para sustentar, pois já são todos independentes. Tem carro de serviço, cartão de crédito da empresa e outras mordomias. No final do mês, recebe 15 mil €.Vítor é uma pessoa com sentido de justiça por isso, perante a crise, alvitrou que os salários fossem congelados, ou mesmo reduzidos. Não, não se referia ao dele, mas sim ao de Olga.

Relativismo cultural

Sentado na esplanada de um hotel de Rabaul, na Papua Nova Guiné, ouvia o relato de um indígena que me confidenciava, amargurado, num inglês de escola primária, ter sido expulso da sua tribo. Procurei indagar de forma mais circunstanciada as razões do seu desespero e acabei por perceber, com a ajuda de um intérprete, que aquele homem que com lágrimas contidas me relatava a sua história, vivia um duplo drama.
Por um lado, se não conseguisse sair-se airosamente da difícil tarefa de ser acolhido por outra tribo, seria eternamente considerado um pária, sem direito a constituir família, condenado a viver do esmolar dos turistas ou do recurso ao furto. Por outro, se a almejada permissão lhe fosse concedida, sabia de antemão que teria de se sujeitar à "degradante condenação" de ser obrigado a trabalhar. E isso, para um homem das tribos da Papuásia, equivale a ser equiparado a uma mulher- que por tradição nas tribos daquelas paragens é quem tem de trabalhar, enquanto os homens se dedicam às nobres artes da caça e da pesca, entremeadas por orações no fresco remanso dos "tambourans", onde pedem aos deuses que concedam às suas famílias o favor das suas graças. Ser impedido- como as mulheres- de entrar num templo para fazer as suas preces e condenado a trabalhar, eram para aquele indígena punições demasiado fortes a que dificilmente conseguiria sobreviver com dignidade.
Lembrei-me deste episódio, durante o fim de semana, a propósito deste post

Novas Oportunidades

Critica-se muito o investimento público em tempo de crise. Eu não percebo nada de economia ( o que é uma vantagem sobre os economistas, pois assim ninguém me acusa de estar sempre a errar as previsões), mas sempre me pareceu uma boa ideia o Estado investir para dinamizar a economia. Vou tentar explicar porquê.
Depois de ter escrito sobre a tendência dos portugueses para a lamechice- uma questão transversal à sociedade portuguesa- dei comigo a matutar no comportamento dos empresários portugueses.
Quando as coisas correm mal, a economia estagna, ou o país entra em recessão, os empresários culpam o governo e desatam a pedir subsídios para salvar a sua área de actividade. Em tempo de vacas gordas, os mesmos empresários acusam o Estado de ingerência, de impedir o funcionamento livre do mercado, de não o deixar auto-regular-se e chamam a si os louros pelos êxitos alcançados.
Embora esta postura não seja exclusiva do empresário português, tem uma forma peculiar de se expressar em terras lusas, porque é maioritária.
Em tempo de crise, Portugal precisava de empresários ousados, capazes de aproveitar as oportunidades que uma crise económica sempre traz acopladas. A verdade, porém, é que se em tempo de vacas gordas, a maioria dos empresários portugueses é avessa ao risco, não podemos esperar que seja em tempo de crise que apareça gente a arriscar grandes investimentos.
É óbvio que sendo o empresário português iletrado ( é bom não esquecer que cerca de 90% tem como habilitações literárias a antiga 4ª classe), não há razões para grandes expectativas na inversão da tendência para o risco ZERO.
Ora se os empresários não investem, parece-me natural que o Estado o faça…
Aliás, penso mesmo que o governo deveria aproveitar para lançar uma nova versão do programa “Novas Oportunidades”, destinada aos empresários portugueses.