quarta-feira, 11 de março de 2009

Crise? Qual crise?

Não sei se já vos disse que sou fã do comércio tradicional e que o meu “centro comercial” preferido é a Guerra Junqueiro/Av.de Roma. Também frequento o centro comercial da Baixa, nomeadamente a Rua Augusta e o Chiado, mas nunca me desloco, propositadamente, para fazer compras pessoais. Só em caso de extrema necessidade ( que deverá ter ocorrido duas ou três vezes durante a minha vida) terei decidido reservar uma pequena parte do meu dia para ir às compras. Quando se trata de comprar roupa sou, pois, um consumidor compulsivo que segue a regra dos CINCO PASSOS:
Olho» Gosto» Entro» Provo» Compro.
Alguns estabelecimentos já conhecem o meu comportamento, outros não. Na última quinta-feira, à hora do almoço, entrei numa loja da Rua Augusta (onde às vezes faço algumas compras), depois de me ter enamorado de um par de calças que me acenavam da montra. O empregado- novo no estabelecimento- procurou o meu número, mas já não havia.
Alvitrei, como faço em circunstâncias idênticas, que talvez o número da montra fosse o que pretendia. O empregado foi ver. Era mesmo. Pedi, então, para as provar. Para meu espanto, recebi uma recusa.
“Peço desculpa, mas não posso desfazer a montra.Se quiser, faz a reserva das calças e passa aqui na segunda-feira a buscá-las..”
Tá bem, abelha! Voltem a falar-me de crise no comércio tradicional que eu explico as razões.

Adenda: Comemora-se, no dia 15 de Março, o Dia Mundial dos Direitos do Consumidor. A partir de hoje escrevo, no Delito de Opinião, alguns posts relacionados com o tema, sob o título "Consumições"

Rochedo das Memórias 96: O ano que mudou o Mundo


1989 foi um ano de grandes mudanças no mundo. Os ventos de Leste sopraram forte e, logo em Janeiro, morre o imperador japonês Hirohito. Será porém, em Junho, que do Oriente surgem sinais preocupantes. Muitos tiveram oportunidade de assistir, em directo, ao esmagamento de um tímido movimento democrático chinês. O ocidente conheceu uma nova Praça: chama-se Tian an Men, fica em Pequim, para ali convergiu a atenção do mundo inteiro e serve de porta de entrada para a Cidade Proibida. As imagens de um tanque a avançar em direcção a um jovem, perduram ainda hoje na memória de muitos.
Já se andava a prever há alguns anos, mas só acontece nos finais de 1989: o Muro de Berlim cai e atrás dele caem os regimes comunistas. Pela televisão assiste-se à morte em directo do ditador romeno Ceausescu e na Checoslováquia um poeta- Vaclav Havel- é eleito Presidente. A queda do Muro ocorreu em Novembro mas, em Maio, abrira-se a primeira brecha, com a Hungria a abrir as suas fronteiras com a Áustria, proporcionando assim a fuga de milhares de húngaros para a Europa Ocidental.
As convulsões chegam também à América Latina. Os ditadores sul-americanos começam a ser derrubados. No Paraguai , Stroessner é destituído por um golpe de estado e foge para o Brasil, onde a eleição do presidente Collor de Melo abria sinais de esperança. O bárbaro Pinochet, que durante 16 anos inundou de sangue o Chile, é finalmente arredado do poder pelo democrata-cristão Patrício Aylwin. Não se pode ainda falar de democracia no Chile, mas a ditadura de Pinochet terminara e o povo chileno respirava de alívio. Também na Argentina, Carlos Menem- presidente que apesar de tudo não deixaria saudades na pátria azul-celeste- coloca fim às sucessivas tentativas golpistas da direita.
Em Inglaterra, “ Os 4 de Guilford” tornam-se protagonistas do maior escândalo judicial na terra de Sua Majestade. Condenados a prisão perpétua, em 1975, quatro irlandeses são finalmente libertados, depois de conseguirem provar a sua inocência. O caso foi rocambolesco, com a justiça inglesa a recusar, durante 12 anos, aceitar o seu erro, apesar de os verdadeiros autores dos atentados terem confessado a autoria. Dava-se início a uma série de casos de erros judiciais que colocam em causa a isenção da justiça nos regimes democráticos.
A eleição de Bush pai, nos EUA, representa o início de uma época de rejeição das questões ambientais. Deixará de ser possível sonhar com o desenvolvimento sustentável.






Os jovens do mundo ocidental (ainda fará sentido a expressão?) vivem empolgados o desenrolar dos acontecimentos de 89. (Alguém, reparou que lido ao contrário é 68?) Mas os ídolos e os ícones são diferentes. Cohn Bendit é preterido em favor de Karl Popper, em vez de flores na cabeça usam cartões de crédito nos bolsos, e trocam a leitura de Salut Les Copains pelo Financial Times. Ao interesse pela evolução dos tops musicais, sucede-se uma crescente atenção às cotações da bolsa. É que os jovens do final dos anos oitenta já não são hippies. São yuppies e em vez dos jeans coçados envergam gravatas de padrões psicadélicos, fatos de marca e circulam em carros topo de gama, de telemóvel em riste.
Khomeiny apela à condenação à morte Salmon Rushdie, autor de "Versículos Satânicos", mas quem morre é o ayatollah.
Mais um desastre ecológico de grandes proporções é protagonizado pelo petroleiro Exon Valdez, ao derramar 42 mil toneladas de petróleo no Alasca. Em Espanha regista-se, em Outubro, um grave acidente na central nuclear de Tarragona. Quem já não assiste ao incidente é Salvador Dali que meses antes ( em Janeiro) morrera em Figueres, a escassas centenas de quilómetros da central nuclear. Entretanto começa a falar-se que em Inglaterra e na Holanda as vacas estão a ficar loucas. Para muitos trata-se de mera ficção, mas em breve vão perceber que estavam enganados.
A costa alentejana é atingida por uma maré negra, enquanto o País dança nas discotecas ao ritmo da Lambada. O telemóvel chega a Portugal e os portugueses lêem a "Crónica do Rei Pasmado". O novo aparelho é muito caro, apenas ao alcance de bolsas mais abonadas, mas não tardará que se transforme numa praga e um restaurante lisboeta afixe à porta: "Proibida a entrada a cães e a telemóveis".
A Revisão Constitucional permite as nacionalizações totais de várias empresas e com três letras apenas se passa a escrever a palavra imposto (IRS).