segunda-feira, 9 de março de 2009

Rochedo das Memórias (95) - A verdadeira história de Barbie


Hoje, muito se irá escrever sobre os 50 anos de Barbie. A verdade, porém, é que Barbie não faz 50, mas sim 57 anos e nasceu na Europa e não nos Estados Unidos, como conta a história e está escrito no seu Bilhete de Identidade.

Passo a explicar:

É verdade que a boneca Barbie, da Mattel, foi criada em 1959, mas a sua figura já existia desde 1952. Chamava-se Lilli e era figura de destaque de uma banda desenhada alemã. Ruth Handler gostou da personagem e decidiu dar-lhe vida, promovendo algumas alterações em relação ao modelo original. Depois crismou-a de Barbie, que era o nome da sua filha.
Esclarecido este ponto prévio, diga-se que a Barbie revolucionou a Casa das Bonecas , pois foi a primeira boneca adulta, criada a pensar nas crianças.


O segredo do seu sucesso e a sua eterna juventude, que faz a alegria de muitas crianças há 50 anos, em 160 países, prende-se essencialmente com a forma como se tem sabido adaptar aos tempos, acompanhando a evolução tecnológica ( em 1996 já tinha um site na Internet) sem se deixar deglutir por ela.
Durante anos, médicos e cientístas acusaram –na de ser responsável pelas dietas de emagrecimento de crianças em Inglaterra, que a todo o custo se queriam parecer com a boneca dos milhões. Psicólogos, sociólogos e jornalistas debruçam-se sobre as razões de tão estrondoso êxito.
Apesar de só ter aprendido a falar aos nove anos de idade,( mas aprendeu logo duas línguas- inglês e espanhol) a revista “Top-Model” não hesitou em compará-la, em 1992,a Claudia Schiffer. É mais conhecida que Madonna e invade as lojas de brinquedos de quase todo o mundo, desaparecendo dos escparates à velocidade de dois exemplares por segundo. Países como o Irão, receosos dos “efeitos catastróficos da cultura Barbie” criaram versões “alternativas” da boneca, adaptadas ao cariz islâmico.,enquanto as Barbie africana e latina se tornam igualmente modelos de sucesso.
Não foi fácil, porém, para Barbie, atingir o estrelato e tornar-se um paradigma do consumismo que a sociedade ocidental desenvolve de forma exacerbada a partir da infância, como se pode constatar pela história que se segue.





Corria o ano de 1959, quando Barbie se tornou boneca, desistindo da banda desenhada e deixando-se inebriar pelas luzes feéricas da cidade que deu a conhecer ao mundo: Los Angeles. Atordoada pelo sucesso estrondoso rapidamente alcançado e instigada pela mãe (Ruth Handler), Barbie decide atravessar o Atlântico em 1961, para experimentar o êxito na Europa. Tinha então 18 anos de idade e apenas dois anos de existência, situação apenas possível em histórias de bonecas, ou em certas mulheres depois dos 40…
Aportou a Inglaterra ainda sem saber falar e sem namorado (só em 1968 surgirá a Barbie falante…) e o seu sucesso foi imediato, apesar de trajar vestuário francês.
Só que os ingleses, nem no mundo dos brinquedos perdoam o sucesso dos americanos e por isso dão à luz, no condado de Kent, uma outra boneca chamada Sindy que, embora tendo apenas 12 anos, começa a pretender discutir com Barbie, a supremacia na “casa das bonecas”.~Mais modesta e prescindindo de carros luxuosos, motoristas e casas com piscina Sindy, apesar da sua tenra idade, mostra desde logo notórios vícios consumistas, atingindo igualmente estrondoso sucesso.
Rapidamente as duas bonecas se vêem rodeadas de inúmeras primas, mas nenhuma consegue atingir o estrelato, limitando-se a ser figuras de segundo plano, cópias por vezes grosseiras das duas altivas figuras que discutiam entre si a supremacia no reino faustoso da “casa das bonecas”. Algumas, acabaram mesmo os seus dias nas feiras, mercados e ruas adjacentes, nos mais variados recantos da Europa ou da Ásia, na bagagem-ferramenta de ciganos, vendidas ao lado de “Lacostes” e “Rolexes” de imitação, a preços tentadores.



Tal como acontece no mundo real, também na “casa das bonecas” há desigualdades gritantes. Barbie e Sindy têm carisma e vendem a sua imagem mas as outras, por mais que se esforcem, não conseguem ascender ao estrelato, apesar dos esforços dos seus criadores. Faltou-lhes o suporte dos grandes grupos económicos, a força de massivas campanhas publicitárias que impusessem a sua imagem.Barbie e Sindy viveram mais de 20 anos sem grandes conflitos. Souberam demarcar os seus terrenos e, embora fosse visível que a inglesa exercia muito menos fascínio que a americana, Sindy aceitou sem rebuço a superioridade da rival. Esta tinha, além do mais, o privilégio de ser mais velha, factor importante no reino das bonecas onde, em flagrante contraste com o mundo real, não se atira para os jovens a responsabilidade de corrigir erros que os adultos laboriosamente constroem ao longo dos anos.
Como disse, as duas bonecas tinham gostos diferentes. Barbie, 18 anos, namorado a tiracolo, tinha especial apetência por uma vida faustosa, onde pontificavam casas com piscina, carros luxuosos, motorista e uma variedade de toilettes, criteriosamente desenhadas por Charlotte Johnson, capazes de fazer inveja a Imelda Marcos. Adorava ir a galas de ópera, frequentar vernissages e outros eventos sociais a que os adultos adoram comparecer de copo de whisky na mão, posando para as fotografias de uma “Caras” qualquer e, no dia em que celebrou os 25 anos, foi vestida por costureiros famosos como Yves Saint Laurent, Piere Cardin , Christian Dior ou Jean-Paul Gaultier.Sindy, pelo contrário, era uma criança de 12 anos que gostava de ajudar a mãe na cozinha, tratar do seu poney de estimação e dedicar-se a inocentes brincadeiras de crianças.





Tudo mudou, no entanto, no dia em que o progenitor de Sindy decidiu vendê-la a um mercador de passagem , que por ela se apaixonou. Pouco escrupuloso, este pai adoptivo depressa obrigou Sindy a mudar de hábitos, fazendo-lhe ver que se dispensara tão grossa maquia na sua compra, ela estava obrigada a tudo fazer para disputar a supremacia da rival. Em reforço dos seus argumentos, apresentou-lhe os seguintes números: enquanto Barbie rendia 75 milhões de contos anuais à sua criadora, Sindy apenas depositava na conta do seu pai adoptivo a “irrisória” quantia de 5 milhões de contos em igual período.( Estávamos em 1992)
Foi vergada a este argumento que, para tristeza de muitas crianças que a preferiam à Barbie, Sindy se foi transformando numa imitação da rival, crescendo e adquirindo os hábitos consumistas de Barbie.
Quem não gostou desta mudança foi a Mattel que, ao ver a acumulação de lucros a crescer a um ritmo mais lento, decidiu pôr um processo em tribunal, exigindo que Sindy refreasse os seus instintos expansionistas. A peleja judicial arrastou-se alguns anos, tendo por palco tribunais europeus. Sindy acumulou derrotas sucessivas, vendo-se apeada dos escaparates das lojas de brinquedos das grandes cidades e obrigada a voltar ao estilo inicial, por força das decisões dos magistrados. Em alguns países, Sindy virou mesmo Cindy, acabando como outras em tendas de ruas esconsas, vendida ao lado de relógios Rolex made in Taiwan. Triste fim para uma boneca de sucesso que teve o azar de cair nas mãos de um pai adoptivo pouco escrupuloso e de ambição desmedida.



Entretanto Barbie prossegue na sua imparável onda de sucesso, apesar de a sua criadora – Ruth Handler – ter sido despedida da Mattel e processada por violação de leis Federais sobre bancos, correios e valores, mediante a apresentação de declarações falsas. Não apresentou defesa e foi condenada a realizar 2500 horas de serviço comunitário e ao pagamento de 57 mil dólares para financiar um centro de reabilitação para criminosos.
Ruth Handler afirmou um dia, que quando criou a Barbie considerou importante que uma criança brincasse com uma boneca que tivesse seios. Depois de ser submetida a duas mastectomias e despedida pela Mattel, fundou a sua própria empresa de próteses mamárias… Acabaria por morrer, vítima de cancro da mama. Um caso de revolta da criação contra a sua criadora?



Adenda: desde 1984, que o dia 9 de Março é assinalado, em Nova Iorque, como “Dia da Barbie”. Já neste século, torna-se estrela de cinema.

Texto reeditado e actualizado, a partir de um artigo que escrevi para o jornal “Tribuna de Macau” em 16 de Março de 1992