sexta-feira, 6 de março de 2009

Às jovens mulheres portuguesas (1)

( Porque vale a pena lembrar, às mais jovens, que as mulheres portuguesas eram propriedade dos "machos" antes do 25 de Abril)
Há poucos anos, em Portugal, raras eram as mulheres na redacção de um jornal, os homens recusavam-se a ser consultados por mulheres médicas e consideravam-se previamente condenados, quando uma advogada aparecia em tribunal como defensora oficiosa.
Como aconteceu em quase todo o mundo, também em Portugal à mulher esitveram reservados, durante anos, os postos de trabalho que os homens recusavam. Nos anos 40, as suas profissões variavam entre o serviço doméstico, o trabalho rural, a enfermagem,( mas as enfermeiras não podiam casar...) o professorado (a esmagadora maioria no ensino primário) e o operariado, especialmente a indústria têxtil.
Vinte anos depois, o panorama não apresentava tão grandes diferenças, a não ser quanto ao escalão etário, já que crianças de 13 e 14 anos engrossaram o exército das empregadas domésticas, cuja contratação , porém, continuava a depender de "rigorosas informações".
Passavam-se situações bizarras antes do 25 de Abril, que punham em causa os direitos das mulheres. Apontemos alguns casos à guisa de exmplo.
No início dos anos 60, na secção "Questões de etiqueta" da revista “Flama”, uma leitora perguntava se uma mulher podia usar cartões de visita individuais. Como resposta, recebeu a seguinte pérola: "Não, a mulher casada tem de usar os cartões em conjunto com o marido". No entanto, os responsáveis da rubrica abriam uma excepção para o caso das mulheres solteiras ou órfãs "que vivam em casa própria". Essas, poderiam ter direito a usar cartão de visita, mas com duas importantes salvaguardas: NUNCA deveriam ter a morada, e as suas dimensões deveriam ser menores do que as dos cartões habitualmente utilizadas pelos homens.

nota: excerto do artigo " É uma mulher portuguesa, concerteza, que escrevi para a revista "Consumidores"

Rochedo das Memórias Especial: Dia Internacional da Mulher ( 3)

Pode afirmar-se que há ainda um longo caminho a percorrer, para que essa igualdade se torne efectiva. Para além de, diariamente, ter de travar lutas desiguais com o homem para alcançar lugares de topo nas empresas, a mulher continua a desempenhar, em casa, um papel muito mais preponderante que o homem, seja na lida doméstica, seja nos cuidados a prestar aos filhos.
Curioso, a este propósito, é um estudo recentemente divulgado que conclui que as mulheres que trabalham no mesmo local do marido ocupam, em média, mais uma hora diária nas tarefas domésticas, do que as que têm emprego em local diferente do do cônjuge. Por outro lado, se a emancipação da mulher é uma realidade nos países desenvolvidos, o mesmo não acontece na maioria dos países em desenvolvimento.
As taxas de analfabetismo entre as mulheres, nesses países, agravam a situação de subalternidade em que vivem em relação ao homem e dificultam a sua consciencialização. Muitas são também as que, ansiando melhores condições de vida, respondem entusiasmadas a ofertas de trabalho bem remunerado vindas de angariadores do mundo desenvolvido. Invariavelmente, o que as espera, quando chegam a esse El Dorado ocidental, é a escravatura sexual. Países asiáticos e latino-americanos são os preferenciais mercados de prospecção das cadeias internacionais de prostituição, mas os países do leste europeu tornaram-se também, nos anos 90, um mercado apetecível para estes angariadores de escravatura sexual.
Seja como for, em alguns países do terceiro mundo a situação das mulheres tende a melhorar. É o caso das Filipinas onde o movimento GABRIELA vem lançando sucessivas campanhas para defesa dos direitos das mulheres. Apesar de alguns reveses, como aconteceu com a ocupação por grupos de mulheres, de terras desocupadas há mais de 20 anos, que acabaram por ser devolvidas aos seus proprietários, graças à intervenção de militares, espera-se que o exemplo das 50 mil mulheres que integram o GABRIELA possa servir de estímulo a muitas outras que emigraram para países em desenvolvimento. É que muitas filipinas que emigram para esses países onde exercem, nomeadamente, tarefas domésticas, são jovens licenciadas que já têm alguma consciencialização que lhes permite comunicar a mulheres de outros países a sua situação.
Nota: extracto do artigo "Feminino, Plural", que escrevi para a revista DIRIGIR

Rochedo das Memória Especial: Dia Internacional da Mulher (2)


É depois da Segunda Guerra Mundial que as mulheres conseguem colher os melhores frutos da sua longa luta. O conflito contribuiu de forma significativa para que isso acontecesse pois, enquanto durou, as mulheres começaram a trabalhar na indústria e na agricultura, ocupando postos de trabalho deixados vagos pelos homens.
A década de 50, porém, não foi pródiga em muitos avanços na luta das mulheres. É já na década de 60 (1963) que a escritora americana Betty Friedan publica o livro " A mística feminina", no qual faz uma análise devastadora da subordinação da mulher na sociedade americana. Três anos mais tarde, funda a NOW - Organização Americana para a Defesa dos Direitos da Mulher - e a partir de então a luta pela libertação ganha novo fôlego e novos contornos. Da luta pelos direitos políticos, passa à luta por igualdade de oportunidades no acesso à educação e ao mercado de trabalho, tendo o primeiro passo sido dado com a entrada nas Universidades.
Em 1968, decorria em Atlantic City a eleição de Miss América, quando um grupo de mulheres activistas se manifestou lançando para os caixotes do lixo os seus "soutiens". Na época, os meios de comunicação eram apenas dirigidos por homens, por isso, a comunicação social aproveitou este acontecimento para denegrir os movimentos feministas, reduzindo-os a uma luta contra a opressão que aquela peça de vestuário exercia sobre os seios.Os homens exultaram de contentamento com esta "gaffe", mas o movimento de libertação da mulher não estancou a sua luta e em 1970 Germaine Greene publica um livro explosivo. Em "O Eunuco Feminino", a investigadora defende que o casamento é uma forma legalizada de escravatura das mulheres e alerta para a necessidade de se dar início a uma "segunda vaga" do feminismo. Segundo Germaine Green, a luta das mulheres pela igualdade de oportunidades, na educação e no emprego, tinha que evoluir através de um combate que garantisse igualmente a igualdade sexual e económica.Recebido sobre um coro de protestos e gerando grande polémica, o livro teve o condão de agitar as hostes femininas.
No ano seguinte, durante as celebrações do Dia Internacional da Mulher, em Londres, algumas mulheres empunhavam cruzes onde se viam pregados os símbolos da escravidão doméstica: o cesto das compras e o avental. Durante a manifestação, fizeram chegar ao primeiro Ministro uma carta em que exigiam igualdade em matéria educativa, laboral e salarial.
Ainda hoje, a "manifestação" de Atlantic City é associada por muitos à celebração do Dia Internacional da Mulher , mas a verdade é que foram os trágicos acontecimentos ocorridos um século antes em Nova Iorque que determinaram a celebração desta data.
Nota: excerto do artigo "Feminino, Plural", que publiquei na revista "DIRIGIR"

Rochedo das Memórias Especial:Dia Internacional da Mulher (1)

No dia 8 de Março de 1857, três dezenas de mulheres americanas desencadearam, em Nova Iorque, uma greve de braços caídos, reivindicando o direito à redução para 10 horas da sua jornada de trabalho. Ameaçadas pela polícia, refugiaram-se dentro da Fábrica de tecidos Cotton,onde trabalhavam.
Acabariam por morrer carbonizadas, depois de patrões e polícia terem trancado as portas e ateado fogo no interior do edifício. A data, hoje comemorada em todo o mundo como Dia Internacional da Mulher, embora assinale um acontecimento esporádico na luta das mulheres pela defesa dos seus direitos, ao longo do século XIX, constitui um marco histórico no combate que continuam a travar, para estarem no mercado de trabalho em condições de igualdade com os homens.
Ainda em 1897, a Nova Zelândia é o primeiro país do mundo a conceder às mulheres o direito de voto, mas a luta pela igualdade de direitos e acesso ao mercado de trabalho, só se iniciará, na Europa,no alvorecer do século XX. Da luta dos movimentos sufragistas ressalta o nome de Emmeline Pankhurst, uma britânica que, com o apoio da filha Christabel, comandou a luta em Inglaterra, país onde esse direito veio a ser consagrado em 1911, oito anos antes de Lady Astor se tornar a primeira mulher a ser eleita para o Parlamento. Curiosamente, Lady Astor, eleita nas listas do Partido Conservador, era de origm americana, país onde esse direito só vem a ser reconhecido em1920.
Nos anos 30, durante a Guerra Civil de Espanha, emerge a figura de Dolores Gomez, a destacada dirigente do partido comunista que o mundo ficou a conhecer como La Pasionaria. A sua frase "Mais vale morrer de pé do que viver de joelhos" ficou célebre, mas não evitou o seu exílio na URSS de onde regressou apenas em 1977 para tomar assento no Congresso. Tinha então 82 anos!
Como única vitória para as mulheres espanholas, durante este período, o reconhecimento pelo governo espanhol, em 1962, da equiparação dos direitos laborais entre homens e mulheres. Essa igualdade, porém, não contemplava os direitos civis.
Nota: excerto do artigo "Feminino, Plural", que publiquei na Revista "Dirigir"
Este post, como os que se seguirão hoje, foi publicado aqui no CR em 2008, mas nessa altura o número de leitoras era ainda tão reduzido, que decidi fazer a sua republicação, pois a maioria não os terá lido.

Rochedo no feminino

Nos próximos dias, o Rochedo será dedicado às mulheres.
Hoje, publicarei três textos sobre o Dia da Mulher , que se assinala no próximo domingo.
Amanhã, sábado, publicarei dois textos essencialmente destinados às jovens portuguesas.
Domingo escreverei uma carta às mulheres portuguesas e elegerei os melhores blogs femininos.
Segunda-feira falar-vos-ei de uma boneca que encantou muitas raparigas e, supostamente, faz 50 anos no próximo dia 9 de Março. É mentira! Vou revelar-vos a data de nascimento de Barbie -que, como algumas mulheres da vida real, também anda a roubar na idade- e falar de uma rivalidade na casa das bonecas.
Espero que gostem e se divirtam.