quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A Química do amor ( conclusão)


Como ontem aqui vos disse, foi com os olhos cravados no chão que Maria começou a contar as razões que a levaram a despedir-se da casa de Vítor e Alexandra. (Omito os soluços e as pausas, para abreviar).
“ Ontem, quando cheguei lá casa, o doutor Vítor já tinha saído, a doutora disse-me que tinha passado mal a noite e, como não tinha julgamentos, ia trabalhar mais tarde. Ainda estava de robe e realmente com mau aspecto. Perguntei-lhe se queria que fizesse um chazinho de hipericão, mas ela respondeu que já tinha tomado. Passado um bocado chamou-me, para perguntar se queria umas roupas dela que já não usava. Eu vi as roupas, algumas eram mesmo bonitas e até estavam boas, porque como sabe a doutora veste-se sempre muito bem. Fiquei muito contente e agradeci, mas ela quis que eu experimentasse um vestido, para ver se me ficava bem.
Pedi licença para ir experimentar à casa de banho, mas ela disse-me “que é isso Maria? Experimenta mesmo aqui…”. Expliquei-lhe que não me sentia à vontade e fui vestir-me à casa de banho das visitas. Quando estava pronta fui ao quarto e perguntei “Então doutora, o que é que acha?”, ela olhou para mim e respondeu “Fica-te mesmo bem Maria, só talvez aqui no peito precise de um arranjo, porque tens o peito mais pequeno do que o meu”. Começou a mexer no vestido, junto aos meus peitos e eu comecei a ficar nervosa. Afastei-me, mas ela agarrou-me o pescoço e deu-me um beijo na boca enquanto dizia umas coisas que nem lhe conto.
Fiquei tão nervosa que fugi de casa com o vestido no corpo e só quando cheguei à rua é que dei por isso. Fui até ao café beber uma água e passei por uma grande vergonha, porque julgavam que eu tinha roubado o vestido à doutora para me armar. Não queria voltar àquela casa nunca mais, mas lá arranjei coragem para ir lá deixar o vestido e dizer que não voltava a trabalhar lá. Logo que meti a chave à porta, ouvi a doutora a chorar e fiquei sem saber o que fazer. Fui tirar o vestido e preparava-me para me vir embora e telefonar à noite a dizer que não contassem mais comigo, mas quando já vinha a caminho da porta ela apareceu e disse-me que não me queria voltar a ver lá aemcasa.
Fui despedida, já viu? Bem, mas é melhor assim, porque se evitam escândalos e vergonhas. Sabe o que lhe digo ? Coitado do doutor Vítor, que é uma jóia de pessoa. Não percebo como é que se foi encantar com aquilo. Ainda se ela fizesse aquilo com um homem, agora comigo?”
Olha, Maria, desculpa que te diga, mas estou muito grato à Alexandra. Assim, ela nunca me vai acusar de te ter roubado para minha casa e vou continuar a comer as tuas hortaliças e o teu arroz de cabidela de consciência tranquila- disse só para mim. Depois perguntei-lhe:
"Fazes-me um arroz de cabidela com esse coelho bravo, para logo à noite?"
"Não tenho o sangue do coelho para lhe fazer o arrozinho. Deixo-lho preparado para fazer um arroz malandrinho, quer? Quando chegar é só botar o arroz. Convide a doutora Ângela para vir cá comê-lo consigo, que hoje é sexta-feira".
Segui o conselho da Maria. Durante o jantar contei à Ângela a história. Sabem o que ela me respondeu?
“ Lá no escritório toda a gente sabe das vidas da Alexandra. Só o parvo do Vítor é que anda a dormir, coitado. Ou então…”
-Então o quê?
"Olha, se eles tocarem à porta o melhor é não abrires...."
-Tá bem, acho que já percebi...

Nota: As datas ( tal como so nomes)desta história estão propositadamente alteradas. A história passou-se há mais tempo, mas a Maria continua a fazer-me arroz de cabidela.
Alexandra e Vítor continuam a viver juntos, mas nunca mais voltaram lá a casa. Aparentemente são felizes. Ela nunca mais me olhou de frente e ele, quando nos encontramos num café, perto do Rochedo, desafia-me para umas partidas de ténis que nunca se chegam a concretizar.