terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Empreendedorismo à portuguesa

Em entrevista ao DN, no último domingo, o presidente do Automóvel Clube de Portugal dizia que se o Estado lhe desse 15 milhões de euros punha um Grande Prémio de Fórmula 1 em Portugal. Em tempo de crise, está-se mesmo a ver que o país precisa é de Mundiais de Futebol e do Circo da Fórmula 1, mas adiante…
Trago a entrevista à colação, porque esta postura de Carlos Barbosa é ilustrativa do comportamento de uma boa parte do tecido empresarial português.~
O empresário português ( na generalidade) arrisca pouco e procura sempre respaldar-se no Estado - para salvaguardar perdas em situações que corram mal-, quer lucro rápido e gosta de brilhar à custa do esforço dos outros ( sejam eles os trabalhadores, ou parceiros empresariais, porque na selva onde se movem, vale tudo).
Quando as coisas correm mal, a economia estagna, ou o país entra em recessão, os empresários culpam o governo e desatam a pedir subsídios para salvar a sua área de actividade. Em tempo de vacas gordas, os mesmos empresários acusam o Estado de ingerência, de impedir o funcionamento livre do mercado, de não o deixar auto-regular-se e chamam a si os louros pelos êxitos alcançados.
Desta vez. alguém do governo lhe disse o que pensava deste comportamento vampiresco. “Se queres ver palhaços vai ao circo” – é o que se pode deduzir da reacção de Laurentino Dias .
Carlos Barbosa assobiará para o lado e do seu pedestal de superioridade continuará a acusar os governos pela sua falta de apoio ao empreendedorismo, mas pelo menos alguém disse o que era precisos ser dito.

Cartas de amor

Há dias, uma velha Amiga falava-me de alguém por quem tive uma paixoneta de “teenager”, não correspondida. O nome dizia-me qualquer coisa, mas não consegui recordar a imagem da miúda. Depois de algum esforço lembrei-me vagamente de uns olhos verdes e de uma canção do Donovan que me deixava em pranto amoroso, cada vez que a ouvia numa festa.
Este fim de semana, por razões que a própria razão desconhece, dei comigo a remexer uma volumosa caixa de cartão que a minha mãe, há meses, me obrigou a trazer para Lisboa, com depojos da minha juventude. Lá encontrei alguns escritos, cartas de amor e alguns poemas ( foleirotes, porque nunca tive jeito para poemar) vertidos em momentos de telúrico desespero amoroso e umas fotografias esquecidas. Entre elas, estava uma fotografia daquela miúda que tanto sofrimento me causou e levou a pensar que a recusa do seu amor significava o desboroar da minha vida. Lá estava aquele rosto alvar, de onde sobressaíam dois grandes olhos verdes, emoldurado nuns belos cabelos loiros. Sorria (não para mim, certamente)…
Retribuí-lhe o sorriso, pensando que naquele momento da madrugada, talvez um anjo lhe levasse em sonho a recordação de mim. Reli um poema que lhe escrevera e um bilhetinho que um dia me enviara, anulando um encontro no salão de chá da “Confiança” ( alguns dos vizinhos do Porto saberão, certamente, o significado de um lanche num sábado à tarde na Confiança”) a que se deveria seguir uma sessão de cinema no Cine Clube da Boavista, para vermos um filme de Jacques Tati.
Voltei a fechar a caixa e recordei-me das palavras da minha Amiga: “ Vi-a há dias. Está um caco”.
Estranhamente, não senti nostalgia, nem saudade. Senti, apenas, uma profunda saudade da Amiga que me relembrou este episódio. Dos tempos em que a nossa cumplicidade era tão grande, que eu lhe contava os meus desgostos de amor.