Abel, 58 anos, e Lucília 61, deixaram a Póvoa de Lanhoso natal e vieram “ fazer a vida” para Lisboa quando casaram, em 1972.
Abel acabara de cumprir o serviço militar em Angola e não sabia o que fazer à vida. Apenas tinha uma certeza: a dura vida o campo não ia ser o seu futuro. Um amigo da tropa- “daqueles que ficam para a vida” - arranjou-lhe um emprego na Mague. Lucília, que trabalhava como empregada doméstica nos arredores de Braga desde os 14 anos, não via com bons olhos a partida para Lisboa. Prometera mesmo aos patrões que, depois de casar, continuaria a servir como empregada externa. Abel, no entanto, “deu-lhe a volta”. Um emprego na Mague, a ganhar bem para a época, era um aliciante...
Pouco tempo depois de se instalarem nos arredores de Alverca, Lucília começou a trabalhar como cozinheira num restaurante da zona. Ganhava pouco, mas ajudava ao sustento da casa. Abel, trabalhador competente e esforçado, foi subindo na fábrica e a vida corria-lhe bem.Durante esse período construíram uma casa, com a labuta de fins de semana e das férias. Um dia, porém, um desentendimento de Lucília com a patroa, por causa de um arroz de tomate que um cliente achou estar mal confeccionado, veio complicar a vida do casal. Lucília não suportou a ofensa, discutiu com a patroa e o cliente. Excedeu-se e foi despedida. Ainda tentou receber uma indemnização mas, como as “posses” não davam para “meter um advogado”, acabou por sair de mãos a abanar e voltou à condição de empregada doméstica.
Meses mais tarde a Mague fechou. Abel recebeu uma indemnização “jeitosa” mas viu-se no desemprego aos 45 anos. Durante o tempo que durou o subsídio de desemprego procurou trabalho, mas as suas fracas habilitações reduziam as oportunidades. Foi fazendo uns “biscates” na construção civil, mas a sua débil compleição física e uma doença respiratória crónica rapidamente o obrigaram a parar. Na cabeça de Abel começou a germinar a ideia de ir trabalhar para a Suíça. Lucília, a mais velha de 11 irmãos que vira já partir todo o clã familiar, opôs-se com determinação. Desta vez, não haveria mais partidas. Tinha construído a vida com esforço, não ia agora deixar os filhos.
A vida, porém, revelou –se madraça e Abel não voltou a encontrar um emprego fixo. Um trabalho que parecia promissor numa oficina de automóveis ainda chegou a afastar as nuvens negras mas, ao fim de quatro anos, o patrão passou a oficina a patacos e Abel viu ali crescer um prédio. Candidatou-se a porteiro mas, o vício da bebida que ganhara desde o fecho da Mague, era um mau cartão de visita.O amigo veio uma vez mais em seu auxílio. Tinha um terreno em frente à casa do casal e propôs a Abel que lá cultivasse “umas batatas”, ao menos para estar ocupado. Abel aceitou o repto e começou a plantar umas batatas, depois umas alfaces e uns tomates, mais umas ervilhas e foi-se afeiçoando à terra . Desde 2004 a produção tem crescido e, duas vezes por semana, Abel vem para EN 10 vender os produtos da sua “quinta”.
À beira da estrada, uma senhora pára o carro. “Então a como são as alfaces hoje, sr Abel? Quero duas. Dê-me também dois quilos de tomates e 10 quilos de batatas”. Abel acondiciona tudo no carro da cliente, faz o troco e despede-se com um “até p’rá semana, D. Palmira”. Volta para o seu posto e, enquanto afaga o Piloto, inseparável companheiro, diz-me com o olhar parado, fixo no infinito: “Para isto, não valia a pena ter vindo para Lisboa. Ficava lá na Póvoa e se calhar vivia com menos canseira... ou tinha emigrado para a Suíça como os meus cunhados, que estão podres de ricos”.
Os olhos humedecem num desconforto quase pungente, enquanto os lábios trémulos deixam sair em balbúcio o lamento: “ A vida para mim acabou demasiado cedo. A sorte foi que consegui criar os meus filhos e graças a isto talvez não precise de vender a casa. Mas isto não é vida para um homem da minha idade...”
Infelizmente, existem por este Portugal fora muitos como Abel. E a Póvoa de Lanhoso também fica perto demais de qualquer um de nós!
ResponderEliminarGostei de ler. Emocionei-me com o Sr. Abel. No entanto alguém precisa de fazer o Sr. Abel comprender que a sua vida actual é apenas uma outra forma de vida, nem sequer definitiva, pode sempre ser mudada...
ResponderEliminarE a Póvoa aqui tão perto...
Ele há limitações que traçamos na vida que não ultrapassam o arame farpado do quintal.
Carlos, também não abdico deste conservadorismo dos Cartões de Natal escritos, à mão.
ResponderEliminarGosto e vou continuar.
Beijos
Em algumas zonas do IC19, vejo muitas hortas clandestinas, na beira da estrada, debaixo dos viadutos, perto de prédios.
ResponderEliminarTudo pequenas Suiças, dos que não conseguiram.
Francamente jornalístico. Francamente bom. Francamente quotidiano.
ResponderEliminarCarlos, parabéns! Franca e sinceramente!
É uma história muito realista, Carlos. Lembro-me de, numa outra crise - das muitas por que temos passado - que inaugurou a época das chamadas «reengenharias» empresariais, me dizerem que eram essas pequenas «economias de subsistência», do quintal e da venda de uns magros excedentes hortícolas, que ainda evitava a miséria total de muitas famílias, nomeadamente no Norte do país.
ResponderEliminarAs escolhas são isso mesmo. A opção por um caminho, que se pensa ser o mais acertado.
ResponderEliminarPara uns é, para outros, fica a ideia de que talvez tivessem escolhido a versão B da vida, e que na versão A tudo seria diferente.
Ora isto pode não ser rigorosamente verdade.
Por exemplo, a acreditar no 'karma' da cultura hindu, por mais que se tentem atalhos, o destino é o mesmo, sempre.
E porque a frustração do que 'poderia ter sido', ultrapassa sempre a do 'aquilo que é, é e não há volta a dar-lhe', talvez as pessoas fossem mais felizes se vissem sempre as suas vidas como os lados A, pelos quais vale sempre a pena lutar.
Tantos Homens e mulheres existem como aqueles que relata. Segundo os novos números são à grandeza de 500 por dia. Até quando?
ResponderEliminarA leitura desta história revela-me a existência de um escritor no jornalista, tal a sensibilidade com que está escrita, ultrapassando o frio e impessoal recorte da notícia!
ResponderEliminarEmocionou-me!
Abraço
Pois é. São os What ifs da vida que os americanos tão bem descrevem.
ResponderEliminarPor isso é que prefiro arriscar para não ficar sempre a pensar e What if?Sim, quem nos garante que o senhor Abel teria encontrado a fortuna na Suiça?
E há tantos senhores Abéis por aí, para quem a vida acabou mais cedo.
Este texto comoveu-me.
Tão triste quando uma pessoa chega ao quase final da vida, olha para trás e não vê nada além dos sonhos perdidos.
ResponderEliminarUm exemplo do que a vida pode dar. Há que fazer opções e as escolhidas nem sempre são as melhores...
ResponderEliminarBj
Boa noite Carlos.
ResponderEliminarLi o seu texto com aquele sentimento comum a todos nós: tristeza, muita tristeza. Paralelamente a este sentimento há a imperiosa reflexão a que o factor idade nos impele. Cada vez sentimos mais que o tempo de que cada jovem dispõe para conseguir um bom emprego, nem que seja por conta própria e organizar-se para o que, de qualquer modo, der e vier, é curto, MUITO curto ..., cada vez mais curto. E isso assusta. Depois, há os casos, por exemplo, de quem está no mesmo emprego há muitos anos e é já considerado 'mobiliário da casa', como costuma dizer-se. Estas são, também, situações talvez ainda piores, quando se perde esse emprego onde se esteve tantos anos. É que nem sempre um próximo patrão aceitará bem um empregado que esteve na mesma firma muitos anos porque ..., segundo ele, pode vir carregado de 'vícios de comportamento nas suas funções'. Há, portanto, mais este facto a considerar e, daí, a necessidade de estarmos sempre a actualizarmo-nos. Não sei porque digo 'estarmos', quando já faço parte dos que podem dar-se ao luxo de dispor de si como lhe aprouver, mas enfim.
Gostei do artigo. Fala de problemas muito actuais e muito angustiantes aos quais, quiçá, estamos, lamentavelmente, a habituarmo-nos e, portanto, a semear a indiferença.
Maria Letra
É assim mesmo, Carlos - nunca sabemos o que está lá na frente, e voltar atrás é sempre uma nuvem que paira no ar...
ResponderEliminarÉ assim mesmo, Carlos - nunca sabemos o que está lá na frente, e voltar atrás é sempre uma nuvem que paira no ar...
ResponderEliminarE a humilhação contida nesta pressuposto "é isto um homem..." faz-nos pensar e indignar.
ResponderEliminarFico sem palavras. Um nó enorme na garganta. Quando as "histórias" têm nomes próprios não dá para fugir para estatísticas ou indicadores macro.
ResponderEliminarAbraço
Assim se prova que mesmo arregaçando as mangas com determinação, isso não é suficiente para construir seja o que for...
ResponderEliminarO que aconteceu ao Sr. Abel, acontece a muitas pessoas e pode acontecer a qualquer um, simplesmente porque ninguem é dono do futuro, e nunca se sabe o que nos pode acontecer. Mas pelo menos este Senhor continuou a sua vida de uma forma humilde mas horada, e apesar de não ter enriquecido, possivelmente, todos os dias deita a cabeça descançada na almofada, e andam por aí muita "boa" gente, que vive simplesmente de aparências e de enganar todos os que os rodeiam.
ResponderEliminarRetrato fiel e muito bem escrito de muitos quotidianos.
ResponderEliminarTocante, Carlos. E muito bem relatado.
ResponderEliminarUma vida que infelizmente se repete demasiado por este país.
ResponderEliminarExcelente relato. Parabéns.
As escolhas em nossas vidas são além de uma caixinha de surpresas quase uma caixa de Pandora.É preciso cuidado porque não existem agentes facilitadores e é preciso estar preparado até mesmo espiritualmente para as adversidades.Porque da mesma forma que a vida Abel acabou assim, existem outras tantas que deram certo.E certo aqui não quer dizer que a pessoa ficou rica...
ResponderEliminarE não vejo jeito de modificar este status-quo.
ResponderEliminarAntes o pessoal até ia para o estrangeiro e resolvia a vida dentro das suas limitações de conhecimentos. Mas... e hoje? Será que também têm saídas de trabalho?
Tenho a certeza que uma luz brilhasse ao fundo do túnel mas, não vai ser fácil. Há muito para mudar nas mentalidades e na filosofia económico-financeira mundial.
Vamos esperando...
Sorte dos que têm um pedacinho de terra para semear umas batatas e plantar umas couves, pelo menos à fome não morem e podem ter sopa à mesa paa dar aos filhos. Muitos homens e mulheres que ainda crianças e com a quarta classe se fizeram à vida, arrajaram trabalho na fábrica, conheceram-se lá e casaram, criaram filhos com salários de miséria, gastaram anos de vida a trabalhar duro e agora vêm para a rua com as mãos a abanar e os bolsos vazios de esperança. Quantos e quantos.
ResponderEliminarCarlos,
ResponderEliminarVidas assim infelizmente há cada vez mais. Também um país que tem por ex. na PT. o seu presidente que ganha 50 e tal mil euros por mês e o funcionário que dá no duro, a expandir a empresa "estendendo" os cabos ganha o ordenado minímo e uma classe média arruinada, pode querer mais e melhor distribuição de riqueza? Um país que para uma pessoa se reformar tem que ter 65 anos pois está ainda em idade de gozar o resto dos anos que lhe sobram, mas para trabalhar pede-se com menos de 30, pois senão é já "velho", pode trazer justiça e progresso?
Beijo