Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

A solução da pirâmide invertida


É sempre assim… no princípio da segunda semana das Cimeiras, quando começa o período das negociações políticas e entram em acção ministros e chefes de Estado, surgem as notícias de um eventual fracasso. Como já aqui disse, sou “burro velho” nestas andanças e já deixei de dar importância aos jogos de bastidores em que cada uma das partes procura transmitir a ideia de que não está disposta a fazer mais cedências. Faz parte de uma estratégia de negociação paralela , em que a comunicação assume um papel determinante. Admito que a assinatura de um acordo vinculativo, tão necessário e urgente, venha a ser postergada para 2010, mas não me passa pela cabeça que no final a Cimeira se salde num rotundo fracasso.
Para já, há dois países que me estão a surpreender: Canadá e Rússia. O primeiro pela intransigência que vem manifestando mas que, bem vistas as coisas, não é de todo inesperada, já que nos últimos anos vem recuando sistematicamente em medidas pró –ambiente, aproximando-se dos EUA na tese da salvaguarda dos interesses económicos. O segundo, pelo seu silêncio. Tendo assinado tardiamente o protocolo de Quioto, a Rússia parece, desde 2000, empenhada em contribuir para a solução do problema, mas neste momento parece estar jogar na retranca, na expectativa das cedências dos EUA e também da China, que continua a fazer depender a sua proposta da posição americana. Não me espantarei se, entre hoje e amanhã, a Rússia jogar a sua cartada.
Entretanto, há um aspecto que me parece da maior relevância. Foi retomado por Schwarzenegger o conceito- que fez escola desde a Cimeira do Rio- “Pensar globalmente, agir localmente” . O governador da Califórnia lançou à ONU o repto para a realização de uma cimeira sobre o clima , centrada na s cidades. É uma ideia interessante e positiva, que releva o peso do contributo das cidades para a resolução do problema. Na verdade, para além da actividade industrial, o modo de vida urbano tem um enorme peso no cômputo global das emissões diariamente lançadas para a atmosfera. É urgente tornar as cidades mais sustentáveis, apostando num novo conceito de vida urbana que passará, iniludivelmente, por uma revolução nos transportes, redução drástica da circulação automóvel , funcionalidade dos edifícios, que devem tornar-se menos energívoros e uma nova concepção de “escritório”, incrementando o teletrabalho, que revolucionará as relações laborais.
A proposta de Schwarzenneger não é inovadora, mas vem reforçar a ideia de que as questões ambientais só serão eficazmente resolvidas , invertendo a pirâmide das decisões. Em vez de serem os governos a impor medidas, terão de ser as cidades a servir de exemplo e incentivo aos governos. Trata-se de uma aposta no efeito dominó, em que bons exemplos de cidades sustentáveis poderão exercer um efeito de contágio positivo. Uma ideia a explorar e que , na prática, retoma uma proposta lançada em Istambul no ano 2000, a que na altura se deu pouca importância, mas pode ser a chave de resolução de um problema intrincado.

7 comentários:

  1. Também acredito no contágio pelo bom exemplo.
    Venham eles em catadupa para fazerem escola por esse mundo fora!!!!

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  2. O Governardor Arnold revela-se mais fino do que aquilo que se poderia supor!

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  3. Arnold está a utilizar a estratégia de comer o elefante,ie, comer aos poucos para que se consiga comer o todo.É uma prespectiva bem mais realista e eficaz que tudo ao molho e no final tudo na mesma.

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  4. Admiara-me muito esta postura do senhor músculos, por várias razões.
    Mas se resultar...tanto melhor para todos.
    Veludinhos

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  5. Na verdade, essa proposta do Mr. Músculos dá que pensar. Talvez se se começar por estratégias a implementar num nível mais pequeno a 'coisa' pegue melhor e se repercuta para outras cidades.
    A ver vamos.

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  6. Se partirmos do menor para o maior eu acredito que conseguiremos melhores resultados...e eu fico com a posição da Marina Silva :o)
    E o discurso da Dilma de que quem polui são os países ricos e eles é que paguem a conta não faz mais sentido se a responsabilidade é global.

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  7. A sua visão das cidades como contribuindo negativamente para o consumo de energia parece-me errada.

    Nas aldeias as pessoas vivem em moradias, que aquecem (ou arrefecem) individualmente. As perdas de energia nas paredes são muito mais elevadas do que nas cidades, onde as pessoas vivem em prédios.

    Pela mesma razão, o teletrabalho não me parece uma solução muito brilhante. As pessoas, em vez de trabalharem todas num local unificado, passam a ter que climatizar 1001 casas separadas.

    Quanto ao tráfego automóvel, quem vive em aldeias tem frequentemente que se deslocar de automóvel. Nas aldeias há poucos transportes coletivos, e as deslocações a pé são muito cansativas. Não me parece claro se viver em cidades não diminui, de facto, o uso do automóvel.

    Luís Lavoura

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