quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Quando a fada madrinha faz greve...


Ângela Teixeira (nome fictício), 57 anos, já viu a vida sorrir-lhe como num conto de fadas. Operária numa fábrica têxtil do Vale do Ave desde os 16, licenciou-se em Economia aos 24 e casou aos 25 com um engenheiro civil, dois anos mais novo. O casamento durou 20 anos e dois filhos. Um dia depois de ter completado 45 anos, o marido anunciou que o casamento chegara ao fim. Foi como se o céu tivesse desabado sobre a sua cabeça. A fábrica - onde continuara a trabalhar como directora dos serviços financeiros - fechara um ano antes, Ângela estava desempregada e nem sequer pensara em arranjar um novo emprego, preferindo dedicar mais tempo ao filho diabético, de 14 anos.
“Não estava à espera daquilo. Dávamo-nos bem, quase não tínhamos discussões e eu vivia completamente para ele. Achava que tínhamos uma vida linda, embora percebesse que nunca consegui entrar no seu mundo. Ele tinha os seus amigos e eu as minhas, e raras vezes os juntávamos”.
Habituada a viver com desafogo financeiro, Ângela teve de enfrentar um novo desafio na vida. O marido era ardiloso, soube pôr os bens a bom recato e salvaguardar os seus interesses no caso de divórcio. Foi obrigada a trocar a vivenda de Vila de Conde onde viviam, por um modesto apartamento na Azurara que o marido lhe comprou. Durante dois anos, o ex-marido foi dando uma pensão que lhe permitia viver dignamente e pagar as despesas de saúde e os estudos dos filhos. Sem qualquer aviso prévio, a mensalidade deixou de entrar na conta bancária que abrira para o efeito. Telefonava para casa, para o emprego e para o telemóvel do ex-marido, mas não obtinha qualquer resposta.
“Cheguei a pensar que tivesse morrido, mas vim a saber que emigrara para o Dubai, com uma miúda de 23 anos que deve ter sido a causa do divórcio”.
Procurou emprego, mas as portas fecharam-se-lhe umas atrás das outras. “Respondi a dezenas de anúncios, mas nunca fui chamada a uma entrevista. Nunca me deram uma oportunidade.”
“Fez das tripas coração” e foi trabalhar como empregada de mesa num restaurante em Matosinhos. O parco ordenado que recebia não chegava para pagar os estudos do filhos, manter o sustento da casa e pagar as despesas de saúde do mais novo. Quando teve de desembolsar quase dois mil euros para pagar a sua quota parte das obras no prédio,vendeu o carro. O dinheiro escoou-se rapidamente e quando foi diagnosticada ao filho mais velho uma grave doença hepática que o acabaria por levar à morte, Ângela baixou os braços.
“Deixei de ter força para lutar. Hipotequei a casa, cheguei a trabalhar quase 20 horas por dia, acumulando o trabalho no restaurante com serviços de limpeza, mas o dinheiro não dava para nada...Ver o meu filho morrer sem uma hipótese de transplante deixou-me arrasada. Lutei com todas as minhas forças e não consegui salvá-lo”.
Ângela tinha acabado de completar 52 anos e a morte do filho reflectiu-se no seu trabalho. Chegava atrasada, desleixava o serviço, e o patrão, sem dó nem piedade, acabou por despedi-la. Sem recursos, perdeu o apartamento por não conseguir pagar a hipoteca. Um familiar, “com conhecimentos” na Câmara do Porto arranjou-lhe uma casa no Bairro do Cerco, para onde foi viver em 2003. Bairro problemático, mas com estilo de vida não de todo desconhecido para Ângela, que nascera em berço de pobres e pobre voltou a ser depois dos 50. Razões para não ter voltado a arranjar trabalho como economista, aponta várias. “Tenho uma licenciatura, mas a verdade é que não tenho curriculo. Optei por trabalhar toda a minha vida numa empresa quase familiar para poder dedicar mais tempo à família, por isso nunca criei grandes laços com a classe. Fui fiel ao meu trabalho, às minhas raízes, às amigas que criei na fábrica quando trabalhava e estudava, e investi tudo numa vida familiar estável. Era feliz assim, não esperava que a vida me desse tantos pontapés. Hoje, o que me vale é o amparo do Carlitos (o filho). Não lhe consegui dar condições para ser advogado, ficou-se pelo liceu. Trabalha a recibo verde num centro comercial, sempre na incerteza do amanhã, vamos ver até quando isto dura e se consegue arranjar alguma coisa melhor”.
Quanto a Ângela, já não tem esperança em melhores dias, porque desistiu de viver. Posta perante a hipótese de arranjar um emprego aos 57 anos, responde sem hesitação: “ Já sofri que chegue na minha vida. Agora, espero que a morte me devolva a felicidade que a vida me roubou”.
(este texto, tal como o de ontem, faz parte de um conjunto de reportagens que fiz para a revista "Dirigir" sobre o tema: "Desemprego depois dos 50: vidas cheias de nada?")

19 comentários:

  1. Sim, o que mais vemos por aqui e por aí são pessoas que cansaram de viver. Eu, hoje, sou uma pessoa que luto e bato de frente com as adversidades, mas também não sei o dia de amanhã.Toda essa lógica de sobrevivência é muito cruel.

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  2. Acabei a ler este texto com um nó na garganta e a fazer esta pergunta: e se for eu o próximo?
    abraço Carlos

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  3. Comovente. Faz-me pensar mais uma vez sobre o frágeis que somos e de todo aquilo (vida e bem-estar material) que julgamos garantido.

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  4. As lágrimas não param...
    Efectivamente as histórias são sempre muito semelhantes, a vida madrasta! Não consigo imaginar a dôr, angustia, desespero desta MULHER...

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  5. Nem sei o que dizer, Carlos. Tenho um nó na garganta... Minha filha vem de um divórcio inesperado,dificil, e se não fosse uma mulher forte, preparada para os caminhos da vida, talvez acabasse como a Angela, a beira do mundo...

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  6. acontece ...a qualquer um

    mas a última frase, dá muito que pensar
    como se pode viver a única vida que se tem numa profubda infelicidade...

    bj
    teresa

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  7. Não tarda muito para eu ser a próxima.
    Cada vez está mais difícil.
    Gostei de ler esta história e a outra, apesar do murro no estômago que elas nos dão.

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  8. Olá!
    Emocionante...
    Fiquei sem palavras:=(

    Beijocas

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  9. A verdade contida em cada letra faz-nos ter a certeza que, muitas vezes, é melhor escrevermos sobre vidas fantasiadas e contos de fadas. Porque é impossível ficar indiferente.

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  10. Violento de realidade, o teu post hoje. Infelizmente o caso de Ãngela não é único...
    Que voltas o mundo tem de dar...

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  11. Cheguei ao mundo real... tenho sido toda a vida muito protegida, mas conheço casos como este. É desumano ver-se que depois dos 35 anos muitas empresas e afins não aceitam candidatos com habilitações mas sem curriculo.
    Que fazer para inverter esta situação?
    Não sei...

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  12. Fiquei absorta, perdida na desgraça da Ângela...
    Eu gosto que as pessoas não se deixem ir com a corrente dos seus problemas, mas que dizer a esta mulher que até o filho perdeu?
    Que quem perde um filho já foi ao lado de lá da morte? E que, por isso, o melhor é arranjar uns olhos mais míopes para olhar a vida...
    Quem sabe a miopia...a distância...
    o esquecimento, afinal a Ângela tem competências formais e funcionais e afectivas.
    Estou a doer.

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  13. Não sei se é uma historia verdadeira ou ficção para a revista, mas é a realidade de muitas mulheres de hoje.

    Mulheres com estudos e que tiveram funções elevadas nas suas empresas, e que um dia a sua vida se desmorona, simplesmente porque o marido ao fim de uns bons anos se "cansou" e resolveu trocar por uma mais nova (mas nem sempre melhor)deixando a mulher com os filhos a seu cargo,e sem meios para se sustentar.
    Mas como apesar das Mulheres (com M grande) terem uma grande capacidade de resistência,por vezes a carga é tão grande que caiem num desespero terrivel, e na maioria por verem que não podem dar aos seus filhos, o que um dia sonharam para eles.

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  14. Esta história, mais ou menos parecida ou não, é cada vez mais uma realidade. Uma realidade que pode morar na casa ao lado, e nunca se sabe se e quando nos baterá à porta.

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  15. Carlos,
    Como a vida para uns é madrasta! E por vezes tudo parece correr bem e de um momento para o outro surge um problema, que cria outro e a bola de neve não pára. Quantas "Angelas" há por aí fora! E quanta falta de partilha, de compreensão, de doacção! Há muita gente a "chorar" pelo que se pasa longe mas não "reparam" nos que estão a seu lado e que só bastava estender uma mão.
    Beijo

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  16. Idade tramada esta dos 50, Carlos. As pessoas são válidas, experientes, na plenitude das suas capacidades e, ao primeiro azar, o B.I. profissional declara que estão velhas e são inúteis.

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  17. Isto fez-me pensar...
    Na Angela, nas Angelas que por aí há e em mim.

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  18. Li o teu texto, como já li, há dias, o anterior versando o mesmo assunto com personagens diferentes; com histórias diferentes; mas que desembocam no mesmo mar. Um mar de incerteza; de medo; olhar assustado perante as vagas que sobem no horizonte.
    Estas pessoas - ou pessoas como esta, fizeram, durante anos, parte da minha realidade laboral. E pessoal, porque as levava para casa comigo. Tenho alguns textos no blogue, mais antigos.
    A vergonha, a mágoa, a falta de auto-estima; o pensarem que queriam ser um exemplo de sucesso para os filhos e que, afinal, se desdobram para que eles estudem...

    Sabes - cheguei a ter uma filhas de utentes minhas a vir falar comigo sobre a situação dos pais...
    E sabes? não esqueço, sequer, um único nome nem rosto desses que me passaram pelos olhos.
    Enfim, Carlos... enfim...

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  19. Viver..que grandes malabaristas temos que ser...

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