quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Prémios Escorpião de Ouro



Cumprindo a tradição do Rochedo, aqui fica a divulgação dos prémios Escorpião de Ouro, destinados a galardoar alguns dos cromos do nosso universo luso e também além-fronteiras.


Prémio Solidariedade- Atribuído, ex-aequo, a Cavaco Silva e José Sócrates pela forma como se têm empenhado em alimentar a fofoca e a intriga palaciana, descurando os verdadeiros problemas do país.
Prémio Marretas- Também ex-aequo, para Marcelo Rebelo de Sousa e António Vitorino, pelas suas prestações semanais na RTP 1
Prémio Homofóbico do ano -Professor Mário Pinto por esta frase escrita no “Público” "Pelo menos no aspecto essencial da reprodução, uma união de um par homossexual não é igual a uma união de um casal humano"
Prémio à noite logo se vê- Gen. Valença Pinto. Quando lhe perguntaram para que iriam servir os submarinos comprados por Paulo Portas respondeu: "Quando chegarem, veremos"
Prémio Restaurador Olex-Sílvio Berlusconni. Depois de ter sido agredido, o pm italiano passou de algoz a vítima num ápice.
Prémio Revelação- Carolina Patrocínio, a mandatária da Juventude do PS, que anunciou só comer cerejas depois de a empregada lhes tirar o caroço.
Prémio Não Matem o Mensageiro – Fernando Lima. O protagonista das “escutas” acabou por ser promovido, depois de embaraçar o PR, com as encomendas de notícias ao jornal “Público”.
Prémio Velho do Restelo- Medina Carreira, pela simpatia que conseguiu granjear junto dos portugueses, graças às suas intervenções generalistas e muitas vezes não fundamentadas que contribuem para arruinar a confiança dos portugueses.
Prémio Second Life- Isaltino Morais. Condenado a sete ano de prisão, conseguiu convencer os eleitores a reelegê-lo presidente da Câmara de Oeiras .
Prémio Olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço- Manuela Ferreira Leite, pela campanha eleitoral do PSD para as legislativas
Prémio Acólito do Ano- Vital Moreira. Será preciso explicar porquê?
Prémio Agarrem-me senão…- José Sócrates. Depois de ter perdido a maioria absoluta, vestiu o papel de vítima e passou a ameaçar diariamente a possibilidade de demissão do governo, se a oposição não se portar bem.
Premio Já não se Aguenta- Pacheco Pereira pelas suas prestações na Quadratura do Círculo, as suas colunas no “Público” e as suas afirmações públicas, um pouco por toda a parte. Consta que, em tempos, o homem teve um blogue.
Prémio Tirem-me Daqui- Nascimento Rodrigues. Obrigado a meter atestado médico e abandonar as funções, para forçar PS e PSD a nomearem um Provedor de Justiça que o substituísse.
Prémio Ó Abreu dá cá o meu- Paulo Portas, pela proposta de entregar o subsídio de desemprego às empresas que contratem trabalhadores sem termo.
Prémio Perdoa-me- Manuela Ferreira Leite. Depois de ter dito de Santana Lopes, o que Maomé não disse do toucinho, a líder laranja escolheu-o para candidato do PSD à Câmara de Lisboa e acabou o ano a tecer-lhe rasgados elogios pelo empenho revelado na convocação de um Congresso Extraordinário do PSD.
Prémio Mala Educación- Para o príncipe Harry, obrigado a frequentar um curso anti-xenofobia nas forças armadas britânicas, para ver se ganha tento na língua.
Prémio melhor Encenação- Dias Loureiro pelo excelente papel desempenhado na entrevista a Judite de Sousa, a propósito do caso BPN.
Democrata do Ano- Alberto João Jardim. MFL considerou a Madeira um exemplo de democracia.
Prémio "Disse-me uma Joaninha"- Manuela Moura Guedes. Graças ao caso “Freeport”, passou a ser reconhecida por uma boa parte dos portugueses como uma grande jornalista.
Prémio Abrupto- Juiz de Guimarães que condenou Alexandra ao degredo na Rússia e depois disse estar chocado ao ver as imagens de maus tratos que a mãe lhe inflingia.
Prémio Quando o telefone toca- Pinto Monteiro, pela rocambolesca história das escutas.
Descoberta do ano- Obama. Pela sua nomeação para Prémio Nobel da Paz.
Prémio Pinóquio- Em virtude de continuar a existir uma extensa lista de candidatos a este prémio, mais uma vez deixo a escolha aos leitores, que se poderão pronunciar até ao dia 8 de Janeiro, votando no candidato da sua preferência. No dia 1o anunciarei o vencedor.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Allô Lisbonne, ici Paris


Espero que já tenham recuperado dos excessos natalícios e estejam a preparar o corpinho para o “Reveillon”, que requer boa condição física.
Eu decidi vir fazer “jogging” até Paris, para castigar o corpo e aliviar a mente. Já não estranho o frio de rachar, porque há um mês que me sinto a viver num frigorífico, mas agradecia ao S. Pedro se fechasse as torneiras por uns dias, para me deixar desfrutar Paris de forma mais aprazível.
Porquê Paris? Simples... Só há duas cidades no mundo onde vale realmente a pena passar o fim do ano: Paris e Buenos Aires. Paris fica a perder, mas é mais perto e existe sempe uma oportunidade para nos lembrarmos que foi por aqui que o Tango fez a sua entrada na Europa, no início do século passado.
Aproveito desde já, para vos desejar um feliz 2010 e anunciar-vos que amanhã, cumprindo a tradição do Rochedo, divulgarei os prémios Escorpião de Ouro.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Os "queriduchos" do costume


Em dia de Natal, ouço a notícia. A AEP ( Associação Empresarial de Portugal) veio pedir uma prenda ao Pai Natal: a redução drástica dos feriados, para combater a crise!
Compreende-se. Depois de uma consoada de grandes comesainas bem regadas e da troca de presentes com valores absolutamente obscenos, a cambada do costume viu-se nas lonas, à beira da falência e reagiu da forma habitual: manifestando o seu desprezo pelos trabalhadores.
Ó meus amores, mas isso de acabar com os feriados é prenda que se peça ao Pai Natal? Francamente!
Vocês estão fartos de receber prendas de um Pai Natal que há quatro anos vos enche de gentilezas e acham pouco?
Já receberam um Código do Trabalho novinho em folha, que vos autoriza a despedir os trabalhadores quando vos aprouver; exigir que trabalhem 60 horas por semana; contratá-los a prazo como as mulheres a dias. Que querem mais? Acabar com as férias e o dia de descanso semanal? Receber o subsídio de desmprego dos trabalhadores que contratarem sem termo,como propõe Paulo Portas?Não sei se o Pai Natal Sócrates vos satisfará tantos desejos...
Meus amores, eu compreendo a vossa angústia. Como é que vocês podem continuar a oferecer relógios de 240 mil euros às vossas amantes, se o Pai Natal Sócrates vos obriga a aumentar o salário mínimo em 25 euros? Isso realmente é um abuso!
Permitam-me, no entanto, que vos dê um conselho. A maioria de vocês são do mais tacanho que existe a nível europeu. Pensa apenas no lucro, é subsidiodependente, corre poucos riscos e tem um total desprezo pelos trabalhadores, que trata como escravos. Que tal se pensassem em mudar de atitude? Comecem por comer e esbanjar menos, porque os excessos gastronómicos e a gula estão a criar, em todos vocês, cérebro de lagosta! Ora isso não é bom e cheira mal...
Fiquem a saber,queriduchos, que o Pai Natal não gosta de gente mentirosa,! Ele sabe muito bem que essa coisa de os portugueses terem mutos feriados é uma mentira. Ele comparou com os vossos vizinhos espanhóis e concluiu que ali ao lado se celebram, em 2010, 11 feriados em dias úteis. Mais dois que por cá e, apesar disso, Espanha é um país mais bem desenvolvido do que o nosso.
Eu compreendo que com os miminhos que o Pai Natal Sócrates vos tem dado, vocês estão mal habituados e sentem-se no direito de exigir mais, mas reconheçam que estão a ser um bocadinho injustos. É altura de admitirem que uma das razões do nosso atraso económico tem a ver precisamente com a vossa falta de arrojo, a subsidiodependência e a incapacidade da maioria de vocês, velhos aniquilosados, com formação rudimentar e muito gananciosos.
Mas não fiquem tristes com as críticas da Igreja Católica ao vosso pedido.Tenham juízo. Sejam empresários decentes, respeitem quem trabalha, não sejam exploradores e talvez o Pai Natal Sócrates, no próximo ano, vos satisfaça o pedido. Basta vocês darem-lhe o ensejo de umas eleições antecipadas, que lhe permitam recuperar a maioria absoluta, e ele recompensar-vos-á com generosidade.
Termino, fazendo votos para que o Menino Jesus vos tenha posto no sapatinho um pouco de solidariedade, e 2010 vos traga um pouco mais de Humanismo. Creio que é irrealizável, mas não podemos perder a esperança. Não a percam vocês também. O Pai Natal Sócrates é um bacano. Desde que sejam grandes empresários, detentores de grandes fortunas, ele está sempre pronto a tirar a quem trabalha, para vos dar a vocês. Ele não gosta é daqueles empresários mexerucas que têm umas empresas pequenitas,mas vão garantindo emprego. Para ele, 600 mil desempregados, não é problema... o que o preocupa é só haver uma Mota Engil e não ter mais empresas públicas onde colocar as renas que lhe puxam o trenó!
Portem-se bem, que no próximo ano conversamos, está bem, amores do meu coração?

domingo, 27 de dezembro de 2009

Pedido ao Pai Natal


"Querido Pai Natal! Este ano, por favor, manda roupas para todas aquelas pobres mulheres do computador do papá."

sábado, 26 de dezembro de 2009

Orgulho de pai

Quatro amigos encontraram-se numa festa, após trinta anos sem se verem.Uns copos daqui, conversa de lá e de cá até que um deles resolve ir à casa de banho. Os que ficaram, começam a falar sobre os filhos.
O primeiro diz:
- O meu filho é o meu orgulho! Ele começou a trabalhar como paquete numa empresa, estudou, formou-se em Administração, foi promovido a gerente da empresa, e hoje ele é o Presidente. Ele ficou tão rico, tão rico, que no aniversário de um amigo ele deu-lhe um Mercedes novinho.
O outro disse:
- Que maravilha! Mas o meu filho também é motivo de orgulho. Ele começou a trabalhar a entregar passagens. Estudou e tornou-se piloto.Foi trabalhar numa grande companhia aérea. Resolveu entrar de sociedade na empresa, e hoje ele é o dono! Ele ficou tão rico que noaniversário de um amigo ele deu-lhe um avião…um 737 de presente!
O terceiro falou:
- Estão ambos de parabéns! Mas o meu filho também ficou muito rico.Ele estudou, formou-se em engenharia, abriu uma construtora e deu-setão bem que ficou milionário. Ele também deu um presente para um amigo que fez anos há pouco tempo. Construiu-lhe uma casa de 500m2!
O quarto amigo que entretanto chega da casa de banho, perguntou:
- Qual é o assunto?!?
- Estamos a falar do orgulho que temos dos nossos filhos. E o seu? O que é que ele faz?
- O meu filho é "gay", ganha a vida a fazer programas.
E os amigos disseram:
- Fogo, que decepção...
E ele respondeu:
- Qual quê... ele é o meu orgulho, é um grande sortudo! Sabem que no último aniversário, ele recebeu uma casa com 500m2, um avião 737 e um Mercedes, tudo presentes de três "bichonas" que ela anda a namorar?

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

We wish you a Merry Christmas!


Na impossibilidade de visitar por estes dias todos os vizinhos, leitores e passantes, a Brites, o Sebastião e eu próprio expressamos a todos os votos de Festas Felizes e um excelente 2010. Cuidado com o colesterol e que o Pai Natal vos deixe os sapatinhos bem recheados de prendas.
Agradecemos a todos que nos visitaram ao longo do ano e incentivaram com os seus comentários. A todos a nossa gratidão por terem tornado este Rochedo um lugar onde cada vez mais desfrutamos o prazer da vossa companhia.
Uma mensagem especial à Ana e ao Carlos, com votos de rápido restabelecimento.
Voltaremos depois do Natal.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Morreu um pedaço de mim


Passei aqui algumas das minhas melhores noites de Lisboa. Na companhia de bons amigos, boa música e bom vinho. Ali conheci gente, ali namorei, ali viajei ao som da música.
Aquele espaço, onde já não entrava há bastante tempo, porque entretanto perdeu boa parte do seu cariz original, guarda algumas das minhas boas memórias de Lisboa. Ali havia mundo. Talvez a única mensagem do mundo exterior que chegava a Portugal, durante os anos de breu.
A noite passada, causas ainda desconhecidas provocaram um incêndio que destruiu as suas instalações. Não destruiu as minhas memórias, mas matou mais um pedaço de mim.

Qual a surpresa?

O fundamentalismo anti-tabágico deu nisto. Qual a surpresa? Eu até já tinha avisado aqui, que os fumadores eram potenciais delinquentes, suspeitos de vários actos criminosos...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Caderneta de cromos (9)

Talvez vos pareça injusto incluir o Pai Natal nesta caderneta de cromos. Na opinião de alguns, seria muito mais apropriado nomear Cavaco Silva, como recompensa pelas tristes declarações a propósito da proposta de lei do PS sobre o casamento dehomossexuais. Fiquem sossegados os desiludidos. O Pai Natal também fala para as câmaras enquanto come bolo rei e não faltarão oportunidades para nomear Cavaco. Há ainda outra semelhança entre o Pai Natal e Cavaco Silva. O primeiro é um dos grandes responsáveis pela transformação do Natal em festa do consumo e o segundo, na campanha eleitoral de 1987,disse aos portugueses que se não votassem nele, lá se iam os frigoríficos e as máquinas de lavar!
De qualquer modo, não é o Pai Natal genuíno, aquele que faz as delícias de muitas crianças, que eu incluo nesta caderneta. São os cromos mal amanhados, responsáveis pela proliferação de “Pais Natal”, que justificam a escolha. Entrar numa loja, num restaurante, ou num supermercado e ver os empregados com barretes do Pai Natal desprestigia a imagem de uma figura que devia ser mais preservada. Claro que há excepções. Se, por exemplo, encontrar uma empregada assim mascarada, ainda sou capaz de a convidar para cear comigo no dia 24…




Agora tropeçar em Pais Natal em cada esquina é contrafacção e isso é uma coisa que me irrita. Prefiro figuras genuínas, sem réplicas, como a que escolhi para figura da semana. É ela que personifica, efectivamente, o espírito do Natal.

A caminho do México


Esperava muito mais da Cimeira de Copenhaga. Como aqui vos disse, estou habituado a que o desânimo se instale nestas situações mas, no final, se chegue a um acordo. Desta vez não foi possível e a Cimeira saldou-se por um rotundo fracasso. Convém, no entanto, lembrar que o protocolo de Quioto está em vigor até 2012 sendo possível, até lá, chegar a um entendimento susceptível de travar o aquecimento global nos limites dos 2º C. Se isso não acontecer, é certo que vários países vão desaparecer do mapa até final do século.Embora Portugal não corra esse risco, é de esperar que o aquecimento global tenha efeitos muito nefastos ( para não dizer trágicos) na nossa orla marítima.
“Isso não é para o nosso tempo” –dirão os mais cépticos. Pelo que vou lendo, não estou tão seguro disso. Seja como for deveríamos pensar mais no futuro dos nossos descendentes. Vejo muita gente preocupada em salvaguardar o futuro dos filhos no aspecto material, mas isso de pouco servirá, se o país onde eles vão viver não lhes proporcionar as condições de vida essenciais para o seu bem estar.
Finalmente, vale a pena lembrar que em Copenhaga houve efectivamente um grande derrotado: Obama. Incapaz de convencer o Senado da necessidade de serem tomadas medidas urgentes para salvar o Planeta, refugiou-se num discurso defensivo, muito semelhante ao de Bush em questões ambientais. E houve também um grande vencedor: o egoísmo.
A próxima etapa será no México, já em 2010. Tenhamos esperança que os líderes mundiais ganhem juízo até lá.

Parabéns

Aos benfiquistas por uma vitória sem mácula. Espero ser retribuído em Maio, mas reconheço que agora será muito difícil.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Brites regressa a casa

Olá a todos!
Espero que estejam aconchegadinhos, no remanso dos vossos lares, porque está um frio que não se aguenta. Nem a azaáfama das últimas compras de presentes justifica uma saída de casa, por isso, espero que aproveitem o vosso tempo da melhor maneira, lendo, ouvindo música e preparando umas belas rabanadas para a minha ceia de Natal com o Sebastião.
Bem, mas o que aqui me traz não é a pedinchice, porque fartos de peditórios nesta época de Natal já todos devem estar.. De regresso ao Rochedo quero apenas dar-vos notícias da minha última semana em Copenhaga ( mas se insistirem em enviar-me umas filhoses, uns sonhos e uns bolinhos de abóbora, ou um ananás, não farei a desfeita de recusar, obviamente...)
Pronto, mas vamos ao que interessa. Afinal o Carlos tinha razão. Esta semana em Copenhaga foi bastante mais divertida. Houve porrada quase todos os dias , havia sempre polícia na rua e sirenes a tocar, para mim foi óptimo porque adoro fardas e deliro com a musiquinha das sirenes. O Sebastião é que tem opinião diferente, coitado! Foi dentro e não gostou nada de experimentar os calabouços dinamarqueses. Mas quem é que o manda ir para as manifestações protestar, em vez de ficar como eu, de bico calado, a ver a malta passar?
Além da porrada, houve poucos motivos de interesse por aqui. Estiveram cá muitos governantes , como o Obama e o Lula que são muito simpáticos, o Cherne e o vosso Primeiro que estiveram sempre com um ar muito sério, mas não percebi porquê. Lá consegui entrar de penetra nuns cocktails e ouvir umas conversas muito interessantes. Até gravei, mas quando fui à cadeia buscar o Sebastião, um polícia apalpou-me toda, encontrou o gravador e ficou-me com os mini disc. Paciência, também não se perdeu grande coisa.
Muito melhor foi quando ontem regressei a Lisboa. Logo que cheguei, o Carlos convidou-me para ir com ele à ceia de Natal do Pinto da Costa e do António Costa com alguns Dragões de Lisboa, mas estava cansada e preferi ficar aqui no Rochedo a descansar e a ver as notícias. Quando liguei a SIC, até as penas se me eriçaram de emoção ao ver tanto “jet-set” junto! Que saudades eu tinha de ver a Lili Caneças e a Paula Bobone a falarem do Natal com tanto glamour! Aqueles conselhos são mesmo de gente fina, que faz da ceia de Natal um momento único de comunhão com a pobreza. Comem o bacalhau em serviços Vista Alegre, os sonhos e as rabanadas com talheres de prata e bebem o vinhito em copos de cristal. Além disso, são gente de coragem. Com a maioria dos portugueses sem dinheiro para mandar cantar um cego, apresentar aquela riqueza toda é um risco muito grande! A sorte delas é que nestes dias os ladrões andam todos a monte, depois de assaltos a ourivesarias e a carrinhas de transporte de dinheiro, caso contrário, se eles vissem aquilo, ainda lhes assaltavam as casas na noite de Natal. Levavam os serviços e de caminho ainda se abotoavam com as prendas que o Hermann José foi comprar para os amigos a Paris.
Bem, agora vou mas é pirar-me, porque tenho de começar a preparar a ceia de Natal para mim e para o Sebasião. Esperem lá… e se eu me puser à janela de casa da Bobone ou da Lili e, quando as apanhar distraídas, lhes sacar as rabanadas e as filhoses? É capaz de ser uma boa ideia. Vou desafiar o Sebastião para me acompanhar, mas estou convencida que ele me vai dar uma nega. Anda tão triste, o pobrezinho, desde que saiu da pildra!

O Pai Natal veste encarnado


Nunca foi tão fácil adivinhar o resultado de um Benfica-Porto. Com a nomeação do árbitro, a Liga veio desfazer todas as dúvidas, com três dias de antecedência. Um verdadeiro Pai Natal, este senhor!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Crónicas de Graça # 6

O NATAL
Nasci no seio de uma grande família. Numa só rua, cinco casas contíguas albergavam oito tios, um par de avós e um número infindável de primos e primas que todos os dias se viam, cumprimentavam, brincavam e brigavam e todos os domingos se reuniam em casa do pai/ avô. Era como se o Natal acontecesse todas as semanas.
Em Dezembro, terminadas as aulas dos mais velhos, todos se deslocavam para uma outra casa, fora do Porto, para celebrar em comunhão absoluta o período natalício. Quando era criança, Natal significava por isso, para mim, apenas uma mudança de lugar, mais tempo e ainda mais espaço para brincadeiras e tropelias. Apercebia-me da chegada do Natal, quando entravam lá em casa pessoas carregadas de malas, falando com um sotaque estranho, e outras cuja língua não entendia, que me eram apresentados como família, mas que não via como tal, porque apenas os encontrava uma vez por ano. Sentavam-se à nossa mesa, o meu avô cobria-os de atenções, e naqueles dias parecia ter o ar mais desanuviado e prazenteiro. Ria. Ria muito. Às vezes falava numa língua que eu não entendia e eu pensava ser língua só para adultos. Por vezes também chorava, mas isso era só quando “eles” chegavam e depois partiam, despedindo-se até ao ano seguinte.
Nessa altura aumentava a azáfama das empregadas na confecção das iguarias e as consumições resultantes da necessidade de apaziguarem as disputas entre a catraiada. Quantas vezes as vi zangadas umas com as outras, porque cada uma saía em defesa acérrima dos "seus meninos"!
Quando a árvore de Natal, montada na cave, subia até ao segundo andar , sabia que o Pai Natal devia estar a chegar, o que significava brinquedos novos, mais dias de traquinice, risadas, choros, na companhia dos primos com quem convivia diariamente e mais aqueles que falavam com sotaque uma língua estranha. Foi no meio desta confusão que um dia descobri que não havia Pai Natal. Os meus irmãos e primos encarregaram-se de me mostrar quem punha os presentes em redor da árvore que via gigantesca. Tinha quatro anos e fiquei triste. Não pelo facto de não haver Pai Natal, mas porque fui obrigado a aceitar a tese de uns primos que defendiam com tenacidade que os presentes eram dados pelo Menino Jesus. E eu sempre detestei perder, não fiquei com esse jeito só quando cheguei a adulto…
Um certo ano, aquelas pessoas de sotaque e linguarejar estranho, não vieram no Natal. Nesse ano os meus avós choraram muito, os meus pais escondiam de nós as lágrimas, mas uma noite dei com eles e os meus tios a chorar baixinho numa sala, onde se costumavam reunir a seguir ao jantar para tomar café, fumar e jogar às cartas. Nesse ano também tive menos presentes. No ano seguinte a cena repetiu-se e, no outro ano, a minha irmã casou e não veio passar o Natal connosco porque, disseram-me, tinha ido com o marido para África passar o Natal. Nesse ano fui eu quem chorou muito com saudades da minha irmã que só voltaria no ano seguinte. Mas nesse ano, por decisão do meu avô, cada um passou a organizar o Natal na sua própria casa e o Natal ficou mais pequenino. Quer dizer… com menos espaço, menos gente e durou apenas uma noite e o dia seguinte. A minha irmã e o meu cunhado falavam de guerras, de fome de África, de terroristas e de um sítio qualquer que alguém nos tinha roubado na Índia. Desde que soube dos terroristas, o Natal passou a ser diferente. Não foi por culpa dos terroristas, mas por saber as consequências da guerra. Por descobrir que nem em todo o mundo as mesas de Natal eram fartas e que havia gente a morrer nessa noite que me tinham dito ser uma Noite de Paz. Nunca mais acreditei na Graça, a minha catequista.
Nos anos seguintes o Natal voltou a crescer. O meu irmão mais velho também tinha casado e vieram os sobrinhos, que eu via como irmãos mais novos.

Numa noite de princípios de Novembro de 1973, hesitava entre vir a Portugal ou ficar em Inglaterra a passar o Natal com o meu irmão e as nossas namoradas, o telefone tocou. Era a minha mãe em alvoroço. Aqueles familiares de linguarejar estranho( agora sabia viverem no hemisfério sul) que a morte ainda não tinha levado, iam passar o Natal ao Porto. E ia também a minha cunhada alemã e a minha tia sueca, que confeccionava um arroz de pato gabado em toda a família. Pronto, já agora íamos também nós com as nossas namoradas inglesas, sempre era mais uma nacionalidade . E os meus avós e os meus tios voltavam a juntar-se, mas agora no espaço mais reduzido da nossa casa do Porto. Quase 60 pessoas. Bandeiras de várias nacionalidades enfeitando as mesas, num prenúncio de globalização. Dois Pais Natal em vez de um, para ajudar na distribuição dos presentes à miudagem. Foi o meu último Natal. Nos cinco anos seguintes a família era dizimada. Desapareceram avós, tios, o meu pai, cunhados e irmãos. Os Natais começaram a ser vividos com nós atravessados na garganta, quando olhava para os lugares vazios, e a ânsia de que o tempo passasse depressa. Decidi internacionalizar o meu Natal. Deixei de ir ao Porto e passei-os na lonjura das Maldivas, Vanuatu, Tailândia, Argentina, Singapura, Macau Goa ou Malaca, acompanhado por ninfas, boas doses de álcool e gargalhadas tão falsas como o Natal que hoje em dia o mundo celebra.

Vi Pais Natal, fardados a preceito, chegarem de barco a uma ilha das Maldivas, debaixo de um calor tórrido, ou desembarcarem nas noites frias de Ushuaia. Vi, na Tailândia e na Malásia, empregados de hotéis e restaurantes,a distribuir aos turistas ocidentais máscaras carnavalescas, para celebrarem a noite de Natal. Ateei fogo ao espantalho da Ditadura em Pinamar e no rio Tigre. Vi o consumismo mascarar-se de Menino Jesus em Singapura ou Hong- Kong. Revivi o verdadeiro espírito de Natal em Goa e em Malaca, fui José numa ilha deserta de Vanuatu, onde rumei na companhia de uma namorada vietnamita para um Natal a dois ( onde o bacalhau foi substituído por delicioso peixe fresco pescado por um guia que se encarregou de nos preparar a ceia ) e dormimos ao relento, sob a vigilância de uma Lua Cheia que nos acariciava os corpos nus e penetrava as nossas almas.

Vi e vivi Natais para todos os gostos. Até cansar.

Hoje, o Natal é a noite de ceia com os sem abrigo. A noite de 24? Três pessoas, de gerações diferentes, à volta de uma mesa onde abundam os lugares vazios repletos de memórias por preencher, crianças, jovens e adultos que voaram para o hemisfério sul percorrendo, quase meio século depois, o caminho inverso dos seus avós, fardas de Pai Natal arrumadas numa arca, à espera de alguém que as reclame. O meu Natal voltou a ser vivido em família. Sem entusiasmos consumistas, nem iluminações, mas com as indispensáveis iguarias da época. E com muitas saudades do hemisfério sul...


Pronto, agora que já sabem o significado do Natal para mim, vão saber a opinião da minha querida parceira destas Crónicas de Graça, que regressam em Janeiro.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Adivinha Natalícia

Era uma vez um homem perfeito que conheceu uma mulher perfeita.Namoraram e um dia casaram-se. Formavam um casal perfeito.Numa noite de Natal, ia o casal perfeito,por uma estrada deserta, quando viram alguém na berma pedindo ajuda. Como eram pessoas perfeitas, pararam para ajudar. Essa pessoa era nada mais nada menos do que o Pai Natal, cujo trenó havia avariado. Não querendo deixar milhões de crianças decepcionadas, o casal perfeito ofereceu-se para o ajudar a distribuir os presentes. O bom velhinho entrou no carro e lá foram eles. Infelizmente o carro envolveu-se num acidente e somente um dos três ocupantes sobreviveu.
PERGUNTAS:Quem foi o sobrevivente do trágico acidente?A mulher perfeita, o homem perfeito ou o Pai Natal? E quem conduzia o automóvel que provocou o acidente?
(Confira a resposta mais abaixo.)
RESPOSTA:A mulher perfeita sobreviveu.Na verdade, ela era a única personagem real da história. Todos sabemos que o Pai Natal e o homem perfeito não existem.
(Se você é mulher, pode fechar a mensagem, porque a piada acaba aqui. Os homens podem continuar e ler mais.)


Portanto, se o Pai Natal não existe nem o homem perfeito, fica claro que quem conduzia era a mulher, logo o acidente está esclarecido.
E se tu és mulher e leste até aqui, fica provada mais uma teoria: que as mulheres são curiosas, e incapazes de seguir instruções.
(recebida por e-mail)

Não havia necessidade...


Compreende-se que uma empresa procure rentabilizar ao máximo os eventos que organiza ou patrocina. Nessa perspectiva, é perfeitamente admissível que a Red Bull Air Race se tenha transferido do Porto para Lisboa já que, em vez de 800 mil euros, vai receber 3,5 milhões. Compreende-se também a tristeza de Luís Filipe Meneses - o grande responsável pela realização da prova no Porto- e a irritação das entidades empresariais, pela perda da prova para Lisboa. A Red Bul Air Race era já um cartaz turístico, levando todos os anos cerca de um milhão de pessoas às margens do Douro, animando a hotelaria, restauração e comércio de Porto e Gaia, além de servir de excelente propaganda para a região, já que era transmitida para vários países europeus.
O problema é que, tanto um como outros, deviam saber que a aplicação das regras da concorrência e da economia de mercado que tão acerrimamente defendem em causa própria, também se aplicam a eventos desportivos pelo que, se queriam manter a prova em Porto/Gaia , deviam ter puxado pelos cordões à bolsa. A Red Bull defendeu os seus interesses, o que é perfeitamente legítimo.
Importa no entanto saber, como é que uma Câmara falida ( Lisboa) e algumas empresas públicas têm capacidade financeira para pagar 3,5 milhões de euros pelo evento. Daí as dúvidas levantadas por Luís Filipe Meneses, acerca do envolvimento de dinheiros do Estado, pagos pelos contribuintes, no pagamento desta retribuição. É inadmissível que o Turismo de Portugal esteja envolvido nesta querela e seja um dos responsáveis pela transferência da prova para Lisboa. Sendo verdade, são legítimas as acusações de LFM, porque é inaceitável que um organismo público fomente rivalidades e tome partido nesta querela. Como é inadmissível que um deputado, eleito pelo Porto, faça declarações deste jaez.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Pai Natal no Facebook?

Em Natais anteriores, escrevi aqui no Rochedo cartas ao Pai Natal, enviei cartões de boas festas e até lhe escrevi um e-mail, alguns SMS e alguns post-it. Este ano não o fiz, porque me disseram que o Pai Natal agora anda pelo Twitter e pelo Facebook e é nessas redes sociais que devemos formular os nossos pedidos. Não estou para aí virado. Assim, convido-vos a ler o e-mail que escrevi ao Pai Natal em 2007, que a maioria dos leitores do Rochedo não terá tido oportunidade de ler. Basta clicar aqui

A solução da pirâmide invertida


É sempre assim… no princípio da segunda semana das Cimeiras, quando começa o período das negociações políticas e entram em acção ministros e chefes de Estado, surgem as notícias de um eventual fracasso. Como já aqui disse, sou “burro velho” nestas andanças e já deixei de dar importância aos jogos de bastidores em que cada uma das partes procura transmitir a ideia de que não está disposta a fazer mais cedências. Faz parte de uma estratégia de negociação paralela , em que a comunicação assume um papel determinante. Admito que a assinatura de um acordo vinculativo, tão necessário e urgente, venha a ser postergada para 2010, mas não me passa pela cabeça que no final a Cimeira se salde num rotundo fracasso.
Para já, há dois países que me estão a surpreender: Canadá e Rússia. O primeiro pela intransigência que vem manifestando mas que, bem vistas as coisas, não é de todo inesperada, já que nos últimos anos vem recuando sistematicamente em medidas pró –ambiente, aproximando-se dos EUA na tese da salvaguarda dos interesses económicos. O segundo, pelo seu silêncio. Tendo assinado tardiamente o protocolo de Quioto, a Rússia parece, desde 2000, empenhada em contribuir para a solução do problema, mas neste momento parece estar jogar na retranca, na expectativa das cedências dos EUA e também da China, que continua a fazer depender a sua proposta da posição americana. Não me espantarei se, entre hoje e amanhã, a Rússia jogar a sua cartada.
Entretanto, há um aspecto que me parece da maior relevância. Foi retomado por Schwarzenegger o conceito- que fez escola desde a Cimeira do Rio- “Pensar globalmente, agir localmente” . O governador da Califórnia lançou à ONU o repto para a realização de uma cimeira sobre o clima , centrada na s cidades. É uma ideia interessante e positiva, que releva o peso do contributo das cidades para a resolução do problema. Na verdade, para além da actividade industrial, o modo de vida urbano tem um enorme peso no cômputo global das emissões diariamente lançadas para a atmosfera. É urgente tornar as cidades mais sustentáveis, apostando num novo conceito de vida urbana que passará, iniludivelmente, por uma revolução nos transportes, redução drástica da circulação automóvel , funcionalidade dos edifícios, que devem tornar-se menos energívoros e uma nova concepção de “escritório”, incrementando o teletrabalho, que revolucionará as relações laborais.
A proposta de Schwarzenneger não é inovadora, mas vem reforçar a ideia de que as questões ambientais só serão eficazmente resolvidas , invertendo a pirâmide das decisões. Em vez de serem os governos a impor medidas, terão de ser as cidades a servir de exemplo e incentivo aos governos. Trata-se de uma aposta no efeito dominó, em que bons exemplos de cidades sustentáveis poderão exercer um efeito de contágio positivo. Uma ideia a explorar e que , na prática, retoma uma proposta lançada em Istambul no ano 2000, a que na altura se deu pouca importância, mas pode ser a chave de resolução de um problema intrincado.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Um dia a corda rebenta....


Os trabalhadores dos hipermercados fizeram um pré viso de greve para o dia 24. Há dez anos eu diria que era uma greve inoportuna e desprovida de qualquer senso.Hoje tenho opinião bastante diferente. As posições extremaram-se. O patronato tem uma actuação selvagem a lembrar os tempos da Revolução Industrial e quer transformar os trabalhadores em novos escravos. A ideia de exigir semanas de 60 horas de trabalho, alargar os contratos a termo e uma actualização salarial acumuldade de 1%, pra 2009 e 2010, só pode sair de cabeças doentes, onde o cérebro foi substituído pela caixa-forte do Tio Patinhas.
Só fazendo uma greve bem visível e penalizadora para os portugueses, os trabalhadores terão oportunidade de alertar a opinião pública para a escalada selvagem do patronato. Hoje são os patrões da APED (Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição) amanhã podem ser quaisquer outros e nenhum trabalhador por conta de outrem está a salvo desta voracidade insaciável que o patronato revela para a exploração. É bom que as pessoas se comecem a lembrar que, um destes dias, pode cair-lhes na sopa um patrão destes, com exigências impróprias de uma sociedade moderna...
O (des)governo de Sócrates ( auto-proclamado socialista) tem dado ao patronato, de bandeja, tudo o que sempre desejou: flexibilização, precariedade e acordos de concertação social sempre favoráveis aos empregadores. Agora, como besta com o freio nos dentes, o patronato está insaciável e sem controlo. Exige mais. Quer ser ele a ditar as regras, sem nada dar em troca. Um dia a corda rebenta...

Sem vergonha!


(imagem roubada aqui, com a devida vénia)
Não me faltam temas, nem ideias para escrever mas, depois de ler isto, falta-me a vontade. Podem chamar-me o que quiserem, mas temos os empresários mais egoístas, exploradores e subsidiodependentes de todo o espaço europeu. Passam a vida a vociferar contra o Estado, mas penduram-se nele, até para pagar o salário mínimo. Depois brincam à caridadezinha, prometendo dar uma ínfima percentagem do preço dos produtos que vendem, a instituições. Corja de hipócritas!
Eu sei que há excepções, mas apenas confirmam a regra.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Caderneta de cromos (8)


Foi difícil a escolha do cromo da semana. Tanto poderia ser um tal Ricardo, do PS, como Maria José Nogueira Pinto, ex- líder do PP, eleita deputada pelo PSD. Optei por MJNP porque ela simboliza melhor a figura do deputado do Estado Novo, convertido à pressa em democrata. Na AR democrática, os apartes são tão vulgares como beber um copo de água, mas MJNP não os suporta. Ela gosta mais dos apartes à moda antiga, onde apenas se ouvia dizer “Muito bem!”. MJNP convive mal com o confronto, como já todos sabíamos desde aquela cena macabra no Congresso do PP em que Paulo Portas retomou a liderança. Por isso achou bem chamar palhaço a um deputado que lhe lançou uns apartes numa Comissão Parlamentar. Não é que palhaço seja insulto, como já em tempos um juiz do Porto sentenciou, mas a linguagem não é própria de deputados da Nação que deveriam elevar o debate e ser um exemplo para os portugueses que lhes pagam os ordenados e as mordomias.
MJNP ( como MFL e alguns mais) estão na AR por engano. O seu perfil adequa-se mais a chazinhos com a D. Supico Pinto, onde se exalta a obra do Movimento Nacional Feminino. Numa AR democrática, fica muito mal na fotografia. Não só denigre a instituição, como as mulheres portuguesas. Há excelentes deputadas jovens na AR, em todos os partidos, e depois há cromos como a Zezinha, sempre prontas a demonstrar que não basta ter a aparência de senhora fina e nome com pedigree para se ser respeitada. Não é possível respeitar uma mulher que afirma, cheia de convicção, que dar 80 euros a um velho de 80 anos "é um insulto e um ultraje, porque vão beber cerveja e comer doces e depois são roubados pelos filhos". Eu diria que um ultraje e um insulto é ter de pagar os ordenados e mordomias a gente como MJNP mas, claro, é só uma opinião. Mesmo assim, aconselho-a a aprender alguma coisa com a figura da semana.

A desvalorização dos Prémios


Declaração prévia: tenho apreço e consideração pelo bispo do Porto, D. Manuel Clemente.
Isso não impede, porém, que tenha aberto a boca de espanto quando soube que lhe tinha sido atribuído o Prémio Pessoa. Por achar que não o merece? Não exactamente. Antes porque o seu perfil não se coaduna com a filosofia do Prémio como se pode ler aqui
Se alguém me disser o que fez D. Manuel Clemente de inovador nestas matérias, não terei qualquer problema em dar a mão à palmatória e retractar-me. Até lá, continuo a pensar que a atribuição do Prémio Pessoa se baseou noutros pressupostos.
Nada de novo, se lembramos que também o Nobel da Paz deste ano foi atribuído a Obama que tinha tomado posse um mês antes de encerrarem as candidaturas e foi a Oslo defender que “é preciso fazer a guerra para alcançar a paz”.O que está errado, no meio disto tudo, são os pressupostos que presidem à atribuição dos prémios. Nada a apontar aos nomeados, mas sim ao júri que os escolhe, desvirtuando e atropelando as regras estabelecidas.

Já chegou o Pai Natal?

Pronto, eu sei que estas coisas são intoleráveis, mas o homem andava a pedi-las. E , claro, que quando soube da notícia, pensei logo neste vizinho, mas o mais preocupante vai ser a vitimização deste epidódio que, muito provavelmente, lhe irá permitir escapar mais uma vez à justiça. Razão suficiente para pensar se esta agressão não foi uma verdadeira prenda de Natal para o agredido.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Humor às escuras


Uma mulher recebe um amante todos os dias em casa, enquanto o marido trabalha. Durante esse tempo ela mete o filho de 9 anos trancado no armário do quarto. Certo dia o marido chega a casa e o amante ainda lá está. Então ela tranca o amante no armário onde estava o filho. Ficaram lá um bocado, até que o miúdo diz:
- Tá escuro aqui...
- Tá...
- Eu tenho uma bola de ténis para vender...
- Que giro!
- Queres comprar?
-Não!
-Pronto... Se preferes que eu diga ao meu pai...
- Quanto é que queres pela bola?
-25 Euros.
- Toma.
Uma semana depois, o marido torna a chegar cedo. O amante está em casa. O miúdo está no armário. O amante vai para o armário. Eles lá ficam em silêncio até que o miúdo diz:
- Tá escuro aqui...
- É, está.
- Eu tenho aqui uma raquete de ténis para vender por 150 euros.
- Que bom.
- Queres comprar?
-150 Euros??? É muito cara!
-Se preferes que eu diga ao meu pai... É contigo.
-Nao, não... Eu compro.
Outra semana depois, o marido torna a chegar cedo.O amante está em casa. O miúdo está no armário. O amante vai para o armário. Eles lá ficam em silêncio até que o miúdo diz:
- Tá escuro aqui...
- É, está.
- Eu tenho aqui umas sapatilhas da Nike para vender por 500 euros. Queres comprar?
- 500 Euros??? Tás doido?!!
- Se preferes que eu diga ao meu pai... É contigo.
- Não não, eu compro, eu compro.
No fim-de-semana, o pai chama o filho:
- Pega na bola e na raquete e vamos jogar.
- Não posso. Vendi tudo.
- Vendeste? Por quanto?
- 675 Euros.
- Não podes enganar os teus amigos assim. Vou levar-te agora ao padre para te confessares.
Chegando à igreja, o miúdo entra pela portinha, ajoelha-se e fecha a portinha. Abre-se uma janelinha e aparece o padre.
- Meu filho, não temas a Deus, diz os teus pecados e Ele perdoar-te-á. Qual é o teu pecado?
- Tá escuro aqui, não tá?
- Não vais começar com essa merda outra vez, pois não???

sábado, 12 de dezembro de 2009

Abandonada em Copenhaga

Estou que não aguento! Já me arrependi mil vezes de ter vindo a Copenhaga e estou desejosa que esta porcaria acabe. Tenho passado os dias sozinha, porque o Sebastião anda lá nas reuniões dos delegados e não me liga nenhuma. Um dia destes convidou-me para jantar com uns amigos dele, mas aquilo foi uma seca que nem imaginam! Eu enregelada de frio e eles a discutirem o clima para aqui, o clima para acolá, o aquecimento global e a mandarem baixar o ar condicionado, porque estava muito calor! Vão por mim que isto por aqui é tudo gente doida. Eu a pensar que ia ver estrelas, descobrir histórias giras para vos contar, mas nada. Por aqui só vejo maltrapilhos, gente sem interesse, todos muito inflamados em discussões durante o dia (quer dizer o bocadinho de dia que por aqui se vê…) à noite uns continuam a discutir, outros vão para os copos, é só “zumba na caneca”,como a Tonicha, depois vão aquecer-se uns aos outros e eu fico sozinha na gaiola aqui do hotel, porque lá fora está um frio de rachar.
O Carlos – que esteve cá no Verão e adorou- é que me convenceu a vir, disse-me que Copenhaga era uma animação. Pode até ter razão, mas no Inverno isto é uma “porqueira” como diz uma amiga minha alentejana. Fico com as penas enregeladas só de pensar no frio que está lá fora. Ainda tentei convencer o Carlos a deixar-me regressar a Lisboa ontem, mas ele disse-me “Quiseste vir, agora aguenta. Na próxima semana vais gostar, porque vem aqui gente muito importante e agora é que as coisas vão começar a aquecer”.
Espero que tenha razão, mas agora estou chateada que nem uma perua. A única coisa que hoje esteve animada foi uma manifestação. Fui com o Sebastião, porque ele disse-me que os homens querem acabar connosco e isso eu não admito. Ainda me diverti um bocado a piar uns "slogans", mas não me dei lá muito bem com um cartaz que o Sebastião me entregou para levar debaixo da asa e dizia "Please, do not kill the blackbird"! Um tipo qualquer, de cabeça rapada, sacou-me o cartaz e ainda ameaçou apertar o pescoço. Felizmente veio logo muita passarada em meu socorro, deram-lhe umas bicadas na careca e o tipo pirou-se.
O Sebastião quer levar-me a uma discoteca com uns amigos,logo à noite, mas eu já sei que eles vão para lá engatar as galinhas loiras e eu, que sou uma cotovia morenaça, não me safo, ia ficar encostada a um canto a beber Fanta por uma palhinha, a ver as figuras tristes do Sebastião e dos mochos amigos dele, que só pensam num buraquinho e não é o do ozono, garanto-vos… O melhor é ficar por aqui.
Nem imaginam as saudades que tenho da Cimeira Ibero-Americana. Ali sim, havia gente fina, como a Drª Maria Cavaco Silva, sempre sorridente e prazenteira, a sorrir para as câmaras, deliciada por ser anfitriã daquelas mulheraças da América Latina, como a Cristina Kirchner, por quem o Carlos tem uma paixão assolapada. A drª levou-nos aos pastéis de Belém e ofereceu-nos um chazinho com bolo rei lá no palácio de Belém, isso sim, é cortesia, não é nada que se assemelhe a estes vikings que parecem bonecos de gelo em noite de Natal. A única coisa gira que vi por aqui, até agora, foram as iluminações…
Pronto, já desabafei, agora vou pensar se vou à discoteca logo à noite com o Sebastião e depois digo-vos. Tenham dó de mim e digam-me que a semana que vem vai ser mais gira e até me vou divertir, para ver se me animo.
Beijinhos e até breve

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Faîtes vos jeux, messieurs!


Termina hoje a primeira fase da Cimeira de Copenhaga. Sem surpresa, o confronto entre países desenvolvidos e em desenvolvimento marcou a agenda da primeira semana mas, ao contrário do que tem acontecido em negociações anteriores, os países ricos estão dispostos a ceder mais do que inicialmente era esperado. O problema é que os países em desenvolvimento acham pouco... Nestes dois últimos dias tem havido sinais de que talvez seja possível alcançar um acordo razoável,lançado em bases até agora pouco discutidas e de que falarei em próxima oportunidade.

Uma das maiores surpresas desta semana foi a disponibilidade manifestada pela China para reduzir drasticamente as suas emissões. Resta saber se a condição imposta aos EUA, para que a China concretize a sua proposta, será aceite por Obama. Ou melhor: pelo Senado, que terá de aprovar qualquer decisão que venha a ser tomada em Copenhaga.
Obama tem sido, aliás, um dos centros de todas as atenções nos últimos dias. A sua passagem furtiva por Oslo para receber o Nobel tem sido encarada, por alguns sectores, como um sinal de que poderá surpreender com uma proposta no dia 18, que desbloqueie previsíveis impasses. Que tem a ver o Nobel da Paz com a decisão sobre as reduções de CO2? Na opinião de alguns, mais do que possa parecer. Os efeitos negativos provocados na sua imagem, com a justificação pouco convincente de que seria necessário fazer a guerra, para conseguir a paz, poderão ser atenuadaos se Obama anunciar em Copenhaga estar disposto a dar passos concretos na redução de emissões, decisivos para um acordo.
A proposta de George Soros, incitando os países desenvolvidos a abdicarem de parte do montante que, em Agosto, o FMI lhes colocou à disposição para combaterem a recessão e o transformarem em empréstimos “verdes” que poderão ser investidos em projectos para redução de emissões nos países pobres, não teve grande aceitação por parte dos países em desenvolvimento, mas é notória a divisão de opiniões entre os delegados e observadores, nesta matéria.
Os cépticos continuam a clamar que a questão das alterações climáticas é uma aldrabice e uma conspiração científica, mas a resposta de 1700 cientistas que vieram confirmar o valor científico dos estudos realizados e defender que é uma falácia a catástrofe económica anunciada pelos conservadores, no caso de em Copenhaga serem tomadas medidas para combater as alterações climáticas, veio retirar-lhes algum espaço de manobra. Na verdade, a criação de uma “bolsa de carbono” permitirá às empresas aumentar os seus lucros, diminuindo as emissões.
A partir de segunda-feira, os ministros dos 192 países tentarão limar as arestas que obstruem a concretização de um acordo vinculativo, cujas linhas gerais foram delineadas pelos delegados, durante a primeira semana. Terão até quarta-feira para o fazer , porque na quinta e sexta-feira, o que os líderes mundiais anunciarem em Copenhaga, será fruto do trabalho e dos consensos até aí alcançados. Uma coisa é certa. Qualquer acordo que não preveja, até 2050, a redução das emissões em pelo menos 60 porcento, relativamente a 1990, e um financiamento imediato , será decepcionante.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Tuvalu- o país (quase) virtual



Alguns países estão sob ameaça de desaparecimento, se a temperatura aumentar , provocando a subida do nível das águas do mar. Nos últimos tempos muito se falou das Maldivas, cujo governo, numa tentativa de alertar o mundo para o perigo de submersão que corre aquele estado-arquipélago , fez uma reunião do Conselho de Ministros debaixo de água. . Durante a Cimeira de Copenhaga, foi a vez de uma habitante das ilhas Fiji rebentar em lágrimas quando relatava aos participantes o destino do seu país, se nada fizessem para o salvar. Mais antigo – e porventura por já muitos esquecido- foi o episódio protagonizado em 1999 pelo primeiro –ministro do Tuvalu, Ionatana Ionatana.
Situado algures entre a Austrália e o Hawai, este pequeno país composto por nove ilhotas habitadas por pouco mais de 10 mil almas, também corre o risco de desaparecer . Em 1999, quando o mundo aguardava, expectante, o “Bug” do ano 2000, Tuvalu foi notícia porque o primeiro-ministro decidiu adiantar os ponteiros do relógio uma hora. Com essa artimanha, Tuvalu passava a ser o primeiro país a entrar no novo milénio, em vez de ser o último e esperava, como retorno, uma grande cobertura mediática.. O estratagema não resultou, tendo Tuvalu sido quase ignorado pelas imagens televisivas que, ao longo de 24 horas, foram mostrando a passagem de milénio em todo o mundo. Meses mais tarde, o PM de Tuvalu dizia que o seu propósito fora apenas chamar a atenção do mundo para o perigo que o país corria, mas poucos foram os órgãos de comunicação social que lhe deram ouvidos.
Na altura publiquei um artigo, na revista de que era editor, sobre Tuvalu. No entanto, não foi este episódio da “dança das horas” a razão do destaque. Acontece que, no início de 2000, chegou-me às mãos uma notícia que achei interessante: o governo de Tuvalu garantia grande parte das suas receitas, graças ao negócio das linhas de telefones eróticas. Comecei a pesquisar algumas curiosidades sobre o país e acabei por descobrir que dias depois do falhado “Bug” chegou a Funafuti ( capital do País) um emissário da empresa californiana Idealab, com o objectivo de adquirir, por 50 milhões de dólares e uma garantia de rendimentos anuais de pelo menos mais 5 milhões, o domínio “.tv” que a UCI ( União Internacional de Comunicações) atribuiu ao país na Internet.
A proposta caiu como “sopa no mel” . Ionatana Ionatana apressou-se a anunciar à pouco alfabetizada população, cujo principal rendimento é a pesca, que as receitas provenientes do acordo seriam aplicadas em infra-estruturas, na melhoria das ligações marítimas entre as ilhas e na educação. O mais curioso é que, naquela época, nenhum dos habitantes de Tuvalu tinha acesso à Internet, desconhecia em absoluto o correio electrónico e o significado de Web.O espaço virtual transformou-se, porém, para os habitantes de Tuvalu na garantia de melhores condições de vida, pelo menos até ao dia em que as águas do Pacífico submirjam definitivamente as pequenas ilhotas, reduzindo-as à dimensão de um país tão virtual como a pequena e abandonada plataforma do Mar do Norte que um dia proclamou a independência, sobrevivendo à custa das receitas proporcionadas pela venda de passaportes diplomáticos de um pais de faz de conta. Entretanto, as autoridades de Tuvalu anunciaram que em 2020 o país utilizará exclusivamente energias limpas, de origem solar, hídrica e eólica. Resta saber se isso será suficiente para o manter no mapa…
Estes exemplos não saõ únicos.No Pacífico e no Índico há muitos territórios paradisíacos como as Maldivas, as Fiji ou Tuvalu ( este não conheço, mas a avaliar pela foto tenho pena...) que correm o risco de desaparecer, graças à incúria dos homens. Serão menos uns quantos destinos de férias paradisíacos para optar. Não vos parece que é uma pena os vossos filhos não os poderem apreciar?
( Texto também publicado no Delito de Opinião)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Copenhague: a bridge too far...

Se, em 1992, a Cimeira da Terra se realizou na “Cidade Maravilhosa”, a Cimeira sobre as Alterações Climáticas de 2009 realiza-se na cidade mais verde da Europa. Nada de espantar. Seja Verão ou Inverno, o transporte preferido pelos habitantes de Copenhaga é a bicicleta. Mas não se pense que Copenhaga é apenas a líder a nível de baixas emissões de CO2, graças aos transportes. É também a cidade onde a energia é consumida de forma mais inteligente e racional, os edifícios são estudados de forma a poupar energia, os transportes são eficientes, se desperdiça menos água, se faz o melhor tratamento de resíduos e, por consequência, se respira melhor, porque é melhor a qualidade do ar.Logo a seguir, vêm Estocolmo e Oslo, ocupando Lisboa o 18º lugar, num conjunto de 30 cidades europeias estudadas pela “Economist”.
Convém, no entanto, que falemos claro. Se as três capitais nórdicas ocupam os três primeiros lugares no índice de qualidade de vida, medido em termos ambientais, isso não significa que sejam as cidades com maior qualidade de vida geral. Para um português, amante dos climas quentes, do Sol e dos dias longos, viver numa destas cidades durante o Inverno é deprimente. Anoitece tão cedo, que temos a sensação que o Sol hibernou ou se transferiu para outro planeta. Nem a animação das ruas, que nestes dias procura disfarçar a tristeza dos dias cinzentos e sem luz , é suficiente para nos restituir a magia do Sul.
Para quem esteve na Cimeira do Rio em 92, o contraste é absoluto. Mesmo em Junho, ( Inverno no hemisfério Sul) o Rio de Janeiro transbordava uma alegria esfuziante e o Fórum Global, organizado pelas ONG no Parque Flamengo, era uma festa permanente. Em Copenhaga o ambiente é frio e nem o calor de alguns manifestantes no exterior do Centro Bella ( onde se realizam os trabalhos) faz aumentar a temperatura. O anoitecer temperano convida a emborcar uns copos para afogar a nostalgia porque, embora não chova, o sol anémico é de tal forma triste e fugaz, que deixa toda a gente com aquela sensação de apenas ter provado uma colher de uma esplendorosa mousse de chocolate.
Viver nos países nórdicos durante o Inverno (digo eu com o saber de experiência feito) é como ir à Bica do Sapato comer um “menu degustação”. Ficamos com a sensação de que tudo aquilo que o Chefe confecciona é muito bom, mas carece da confirmação de um repasto a preceito.Perante este panorama, fica a dúvida: conseguirão as ONG e os técnicos – que estão a fazer o trabalho de sapa, para ministros e líderes mundiais analisarem e decidirem na próxima semana- convencer os decisores de que a solução para os problemas ambientais do planeta exige um modelo de desenvolvimento mais sustentável, que implica o sacrifício de todos? Estarão os países desenvolvidos dispostos a abdicar de uma boa parte do seu bem estar para ajudar os países em desenvolvimento a crescer de forma sustentável? Quando toca a pedir sacrifícios aos mais poderosos, a globalização costuma esconder as suas virtudes...
Na Friedrichstrasse os bares estão abertos até horas tardias, animados com música ao vivo, cerveja a escorrer pelas goelas, as prostitutas oferecem os seus serviços gratuitamente, em protesto contra as decisões do governo local. Em Christiania os “hippies” continuam com os seus slogans sessentistas e o seu modo de vida espartano, mas contraditório. Na manhã do próximo domingo haverá, certamente, em Friedrichstrasse, russos e ucranianos a enganar os turistas e participantes na Cimeira, em jogos de “vermelhinha” viciados com notas falsas. Os arranha céus de Ströget continuarão a reflectir as suas luzes na água dos canais.
Apesar dos 6ºC diurnos, que descem próximo do Zero quando a noite avança, dispensando uma visita ao sempre muito frequentado Ice Bar, o ambiente em Nyhavn (o velho porto onde os bordéis e tabernas foram substituídos por restaurantes e bares com música ao vivo) é caloroso. Linguarejares de gentes de todo o mundo alimentam uma confraternização calorosa, ao longo do canal, entre pessoas que sempre se reencontram nestes eventos .
Há animação, há avisos de que a qualidade de vida de que desfrutamos pode estar em risco se nada fizermos para refrear a degradação ambiental desta casa que se chama Terra e pedimos emprestada aos nosso filhos para habitar, mas que estamos a degradar com a inconsciência de inquilinos desmazelados.
Há euforia nestas noites gélidas e há uma ponte ligando Copenhaga a Malmö que se distende num frenesim consumista.
Há conversas entusiasmadas sobre questões ambientais, muita cerveja a correr pelas goelas, há críticas à globalização, muito whisky a correr pelas goelas, há muitos estrangeiros a comprar “souvenirs” e prendas de Natal, entre recriminações aos poderes instituídos por se preocuparem mais com o bem estar económico do que com a preservação do ambiente, há muitos jornalistas a fazer a cobertura da Cimeira, entusiasmados pelo calor que exala dos corpos destas ninfas loiras de linguarejar rude, que esgrimem, empolgados, argumentos a favor do ambiente, ou reportam notícias e estudos sobre a inevitabilidade de morrermos esturricados em CO2 e gases com efeito de estufa, mas logo que se desconectam do canal televisivo que os enviou a Copenhaga, escoam para os pulmões enegrecidos bafuradas de cigarros provenientes da terra do Tio Sam, ou de cigarrilhas made in Havana, enquanto fazem tilintar o seu copo, num tchim-tchim dengoso, celebrando a companhia da musa inspiradora, ao lado de quem sonham acordar na manhã seguinte.
É neste cenário “faz de conta”, de noites natalícias com Papais Noel e Meninos Jesus pigarreantes e Mamães Natal generosamente expostas aos olhares masculinos, que decorre a Cimeira da ONU sobre alterações climáticas. Quanto a mim, um cenário pouco propício à reflexão sobre o aquecimento global, porque aqui nada indicia perigo. Apenas conforto e qualidade de vida. Que tal organizar, já no próximo ano, uma conferência no Quénia? Os participantes poderiam começar nas cidades costeiras do país, alagadas por inundações e, no terceiro dia, rumar ao interior escaldante, seco e ameaçado de desertificação. Neste contraste proporcionado num percurso de apenas umas centena de quilómetros, todos aprenderiam, “in loco” o que significa a expressão “Alterações Climáticas”.
Pois, compreendo… exigir aos líderes mundiais que se desloquem a um país africano, à Antártida ou ao Alaska, para discutir as questões ambientais, é pedir demasiado. Eles estão mais habituados à teoria. As aulas práticas causam-lhes algum desconforto…


Outra perspectiva sobre a Cimeira de Copenhaga aqui

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Lição de História

Um advogado de Nova Orleães pediu um empréstimo em nome de um cliente que perdera sua casa aquando do furacão Katrina e queria reconstruí-la.
Foi-lhe comunicado que o empréstimo seria concedido logo que ele pudesse apresentar o título de propriedade original da parcela da propriedade que estava a ser oferecida como garantia.
O advogado levou três meses para seguir a pista do título de propriedade datado de 1803.
Depois de enviar as informações para o Banco, recebeu a seguinte resposta.
"Após a análise do seu pedido de empréstimo, notámos que foi apresentada uma certidão do registo predial. Cumpre-nos elogiar a forma minuciosa do pedido, mas é preciso salientar que o senhor tem apenas o título de propriedade desde 1803. Para que a solicitação seja aprovada, será necessário apresentá-lo com o registo anterior a essa data. "
Irritado, o advogado respondeu da seguinte forma:
“Recebemos a vossa carta respeitante ao processo nº.189156. Verificámos que os senhores desejam que seja apresentado o título de propriedade para além dos 194 anos abrangidos pelo presente registo. De facto, desconhecíamos que qualquer pessoa que fez a escolaridade neste país, particularmente aqueles que trabalham na área da propriedade, não soubesse que a Luisiana foi comprada, pelos E.U à França, em 1803.
Para esclarecimento dos desinformados burocratas desse Banco, informamos que o título da terra da Luisiana antes dos E.U. terem a sua propriedade foi obtida a partir da França, que a tinha adquirido por direito de conquista da Espanha.
A terra entrou na posse da Espanha por direito de descoberta feita no ano 1492 por um capitão da marinha chamado Cristóvão Colombo, a quem havia sido concedido o privilégio de procurar uma nova rota para a Índia pela rainha Isabel de Espanha.
A boa rainha Isabel, sendo uma mulher piedosa e quase tão cautelosa com os títulos de propriedade como o vosso Banco, tomou a precaução de garantir a bênção do Papa, ao mesmo tempo em que vendia as suas jóias para financiar a expedição de Colombo.
Presentemente, o Papa - isso temos a certeza de que os senhores sabem - é o emissário de Jesus Cristo, o Filho de Deus, e Deus - é comummente aceite - criou este mundo. Portanto, creio que é seguro presumir que Deus também foi possuidor da região chamada Luisiana. Deus, portanto, seria o primitivo proprietário e as suas origens remontam a antes do início dos tempos, tanto quanto sabemos e o Banco também. Esperamos que, para vossa inteira satisfação, os senhores consigam encontrar o pedido de crédito original feito por Deus. Agora, que está tudo esclarecido, será que podemos ter o nosso empréstimo?
O empréstimo foi concedido.
( recebido por mail)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Caderneta de cromos (7)


Foi um dos melhores secretários de estado do ambiente e defesa do consumidor que o país conheceu. Tomou medidas corajosas. Mexeu com interesses instalados, apostou na informação e formação nas áreas do ambiente e defesa do consumidor, publicou legislação relevante no âmbito dos serviços públicos essenciais, das seguradoras e de outros sectores sensíveis. Disciplinou o “time share” e as comunicações de Valor Acrescentado, motivou os funcionários dos serviços que tinha sob a sua alçada, como poucos o fizeram.
Mas o tempo e o poder têm destas coisas. Quando chegou a primeiro-ministro, parece ter esquecido tudo o que de bom fizera uma década antes. Desmotivou os funcionários públicos, criou essa figura inenarrável dos PIN ( Projectos de Interesse Nacional) que são autênticos atentados contra o ambiente, a política de defesa do consumidor passou a restringir-se a uma visão de interesses económicos que pouco ou nada tem a ver com as políticas modernas de defesa do consumidor. Em matéria ambiental, a sua ambição reduz-se, hoje em dia, às energias alternativas, o que é muito pouco para o século XXI.
Não fossem os erros sucessivos, como PM, poderia ombrear com aquele que escolhi para figura da semana. Assim, José Sócrates passa a integrar, com justiça, esta caderneta de cromos.

Brites sonha nas alturas

Ontem, à chegada ao aeroporto para apanhar o avião que me trouxe a Copenhaga, na companhia do Sebastião, deparei com uma manifestação. Entre as pessoas que exibiam cartazes muito imaginativos como “Sócrates para a rua” encontrei um,empunhado por uma senhora com boina à Che Guevara e uma t-shirt estampada com o rosto do grande líder , onde se podia ler: “Abaixo a Filosofia, o futuro é da Economia”.
Apesar dos protestos do Sebastião, não resisti à curiosidade e fui ver quem liderava a manif . Para minha grande surpresa, percebi que era a nova líder da extrema esquerda, a Dona Manuela Ferreira Leite! A boina e a t-shirt ficam-lhe a matar, garanto-vos. O que a torna ridícula são as intervenções na AR ao estilo "olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço!"
Ainda tentei perguntar-lhe quando é que ela deixava de apoiar e integrar nas suas listas de deputados amigos, nomes como o do arguido por actos de corrupção, António Preto, mas o Sebastião puxou-me por uma asa, gritando que estávamos atrasados para fazer o “check-in”.
Mesmo assim, ainda vi a chegada da ambulância do INEM, que vinha recolher doentes de Alzheimer. A D. Manuela, estrebuchando com um Magalhães na mão, garantia que não era nada com ela e, se alguém tivesse dúvidas, telefonasse para o amigo Aníbal.
Ao ver aquele espectáculo, o Sebastião apenas disse:
-Coitada da D. Manuela! Destruiu o partido e agora, por vingança, quer destruir o país.
Neste momento fui acordada pela hospedeira perguntando-me o que queria beber com a refeição.
Que chatice! Logo havia de ser acordada, no momento em que ia ter o supremo gozo de ver a D. Manuela aliada ao Bloco de Esquerda…

domingo, 6 de dezembro de 2009

Confiança de tuga

Maria Madalena estava para ser apedrejada quando Jesus resolveu interceder em seu favor diante da multidão que ali estava.
Jesus disse:
- Quem nunca errou, que atire a primeira pedra.
Um português, naturalmente presente em todos os lugares e épocas, empolgou-se, pegou num tremendo tijolo e acertou na testa de Maria Madalena, que caiu redonda.
Jesus, muito entristecido, foi em direcção ao "portuga", olhou-o bem nos olhos e perguntou:
- Meu filho, diz-me a verdade, nunca erraste na tua vida?
- Desta distância, nunca !!!- respondeu o tuga

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Crónicas de Graça # 5

Os Tripeiros
Que vos posso dizer eu dos tripeiros que vocês ainda não saibam? Que, segundo a lenda, os habitantes do Porto passaram a ser assim designados, em virtude do apoio prestado à armada que partiu para a conquista de Ceuta, em 1415, oferecendo aos expedicionários toda a carne disponível, ficando apenas com as tripas para se alimentarem? Mas isso já todos vocês sabem… Poderia enaltecer os tripeiros pela sua hospitalidade, pela sua abnegação, pela sua sinceridade e autenticidade, pelo amor desmesurado à cidade que os torna, por vezes, excessivamente bairristas? Mas isso também não é novidade…
Poderia dizer-vos que ser tripeiro é ter o privilégio de passear junto ao Douro, da Ribeira até à Foz, namorar com uma garina na Rua dos Abraços, tropeçar em bueiros entupidos, fechar as malas com aloquetes, tomar cimbalinos e pingos, comer francesinhas ou orelhas, celebrar a noite de S.João lançando balões e saltando a fogueira, ou encher a Avenida dos Aliados para celebrar mais uma vitória do Dragão.
Ou, talvez ainda, que ser tripeiro é ver os putos empolgados em corridas de sameiras, é cerrar fileiras para defender os emblemas da cidade que alguns políticos pretendem destruir ou vender aos interesses dos privados, é o regatear cantado nas manhãs do mercado do Bolhão. Poderia acrescentar que ser tripeiro é chamar paneleiro a um maricas, ou filho da puta a um amigo que nos trai. É ir a um baile para estar no roço com a namorada, passear por uma “ilha” onde as mães gritam para os filhos: "Anda cá meu filho da puta, quem te deu ordem p'ra comeres esse mulete?" ou os admoestam dizendo "vai fazer piruetas nos cornos do teu pai!"
Mas quem sou eu para vos falar dos tripeiros? Já não vivo no Porto há mais de 40 anos pelo que, ao tentar descrevê-los, corro o risco de estar a traçar um perfil desajustado da realidade actual.Na tentativa de ser mais preciso, pedi ao Beto, um amigo dos tempos da escola primária, que se encontrasse comigo num café da Areosa. Não lhe disse qual era o assunto. Disse apenas que tinha urgência em falar com ele.
Já não via o Beto há uns 10 anos e, enquanto esperava, fiz rewind...


Concluída a instrução primária, o Beto abandonou a escola. Tinha então 14 anos e de imediato se iniciou no ofício de trolha. Foi sol de pouca dura. Dois anos mais tarde tornava-se aprendiz de picheleiro, actividade em que desde logo se mostrou hábil, alcançando enorme popularidade na Areosa, onde nascera. Donas de casa a braços com canos entupidos, lavatórios a transbordar ou sanitas renitentes em cumprir a sua função, recorriam aos bons ofícios do Beto que aliava a sua competência profissional a uma enorme simpatia. Mas Beto não era apenas popular entre as donas de casa. Beata sempre apagada nos lábios carnudos, jeans coçados, t –shirt de cor indefinida , onde despontava um Bob Marley desbotado, passeava , gingão, pela rua entoando os últimos sucessos de Rui Veloso e despertando a cobiça das garinas. Quando se aproximava da porta do café que diariamente frequentava ao fim do dia, abrandava a marcha, afagava as repas, puxava o blusão comprado em Vandoma a uns ciganos, endireitava as costas e entrava com ar triunfal. Lançava um olhar rápido pelas mesas a avaliar o gado, para marcar a presa e dirigia-se ao balcão. De costas e olhando fixamente a presa, pedia invariavelmente em voz alta: “Inácio! Um lanche e um fino.”
Foi neste momento que o Beto entrou. Mantém o andar gingão e o ritual de afagar as repas e endireitar as costas antes de entrar, mas a beata apagada já não baila nos seus lábios. Quando me viu abriu os braços que só se fecharam na troca de um longo abraço.
Da última vez que nos encontrámos, prometeste que quando fosses a Lisboa me ligavas, lembras-te?
"Eu num bou a Lisboa, pá… Tenho medo c'aquilo seja cuntagioso, carago! Se calhar nem debia estar aqui cuntigo, pá. Tás há tantos anos, lá ( na verdade ele diz naquela merda) que já te debe ter pegado a maleita, pá".
Mas nem vais ver os jogos do Dragão a Lisboa,Beto?
"Debes de estar maluco, pá! Bejo pela Sport TV,aqui no café, porque é menos uma hipótese que têm de me cuntaminar, carago! Aquelas multidões num são recomendábeis, pá! Lagartos e águias? Porra, toda a gente sabe que têm peçonha, nem era preciso a gripe dos porcos para os cuntaminar!".
Rimos a bom rir até o Beto me tocar no braço e, aproximando os lábios do meu ouvido, perguntar :
"Já biste aquela garina que tá atrás de ti?
Qual? A da mini-saia?
Exacto. Pena ter um foguete, carago, mas tem umas boas trancas, lá isso tem.
Não ganhas juízo Beto? Como é que a Nanda te atura?
Julgas que estamos em Lisboa, pá? Aqui ainda são os machos quem manda, num birámos copinhos de leite… Olha lá, afinal qu’é que me queres?
Estou a escrever uma coisa e queria saber a tua opinião sobre os tripeiros.
Tripeiros é como bocês nos chamam lá em baixo num é?Tá bem, antes tripeiros qu’ alfacinhas qu’é nome de mouro maricão. Tripas é qu'é comida de gente, alface é p'rós grilos
Lá estás tu a desancar nos lisboetas, Beto. Isso não é complexo?
Cumplexo de quê? De bos ber todos os dias feitos baratas tontas, cada bez mais parecidos co’as gajas e a querer casar gajos cum gajos? Fosga-se!
Pronto, tá bem, Beto,não batas mais no ceguinho e diz-me lá o que pensas dos tripeiros…
Os tripeiros? Somos os máiores , cara…! Isso toda a gente sabe…
Pois é, o Beto está cheio de razão. Os tripeiros são mesmo os “máiores”, excepto quando emigram para Lisboa e perdem as suas características peculiares. Mas quis que fosse ele a dizer-vos isso, porque a minha opinião pode ser suspeita.
E que pensará a minha querida parceira dos alfacinhas?Vão lá ver, vão…



quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Quando a fada madrinha faz greve...


Ângela Teixeira (nome fictício), 57 anos, já viu a vida sorrir-lhe como num conto de fadas. Operária numa fábrica têxtil do Vale do Ave desde os 16, licenciou-se em Economia aos 24 e casou aos 25 com um engenheiro civil, dois anos mais novo. O casamento durou 20 anos e dois filhos. Um dia depois de ter completado 45 anos, o marido anunciou que o casamento chegara ao fim. Foi como se o céu tivesse desabado sobre a sua cabeça. A fábrica - onde continuara a trabalhar como directora dos serviços financeiros - fechara um ano antes, Ângela estava desempregada e nem sequer pensara em arranjar um novo emprego, preferindo dedicar mais tempo ao filho diabético, de 14 anos.
“Não estava à espera daquilo. Dávamo-nos bem, quase não tínhamos discussões e eu vivia completamente para ele. Achava que tínhamos uma vida linda, embora percebesse que nunca consegui entrar no seu mundo. Ele tinha os seus amigos e eu as minhas, e raras vezes os juntávamos”.
Habituada a viver com desafogo financeiro, Ângela teve de enfrentar um novo desafio na vida. O marido era ardiloso, soube pôr os bens a bom recato e salvaguardar os seus interesses no caso de divórcio. Foi obrigada a trocar a vivenda de Vila de Conde onde viviam, por um modesto apartamento na Azurara que o marido lhe comprou. Durante dois anos, o ex-marido foi dando uma pensão que lhe permitia viver dignamente e pagar as despesas de saúde e os estudos dos filhos. Sem qualquer aviso prévio, a mensalidade deixou de entrar na conta bancária que abrira para o efeito. Telefonava para casa, para o emprego e para o telemóvel do ex-marido, mas não obtinha qualquer resposta.
“Cheguei a pensar que tivesse morrido, mas vim a saber que emigrara para o Dubai, com uma miúda de 23 anos que deve ter sido a causa do divórcio”.
Procurou emprego, mas as portas fecharam-se-lhe umas atrás das outras. “Respondi a dezenas de anúncios, mas nunca fui chamada a uma entrevista. Nunca me deram uma oportunidade.”
“Fez das tripas coração” e foi trabalhar como empregada de mesa num restaurante em Matosinhos. O parco ordenado que recebia não chegava para pagar os estudos do filhos, manter o sustento da casa e pagar as despesas de saúde do mais novo. Quando teve de desembolsar quase dois mil euros para pagar a sua quota parte das obras no prédio,vendeu o carro. O dinheiro escoou-se rapidamente e quando foi diagnosticada ao filho mais velho uma grave doença hepática que o acabaria por levar à morte, Ângela baixou os braços.
“Deixei de ter força para lutar. Hipotequei a casa, cheguei a trabalhar quase 20 horas por dia, acumulando o trabalho no restaurante com serviços de limpeza, mas o dinheiro não dava para nada...Ver o meu filho morrer sem uma hipótese de transplante deixou-me arrasada. Lutei com todas as minhas forças e não consegui salvá-lo”.
Ângela tinha acabado de completar 52 anos e a morte do filho reflectiu-se no seu trabalho. Chegava atrasada, desleixava o serviço, e o patrão, sem dó nem piedade, acabou por despedi-la. Sem recursos, perdeu o apartamento por não conseguir pagar a hipoteca. Um familiar, “com conhecimentos” na Câmara do Porto arranjou-lhe uma casa no Bairro do Cerco, para onde foi viver em 2003. Bairro problemático, mas com estilo de vida não de todo desconhecido para Ângela, que nascera em berço de pobres e pobre voltou a ser depois dos 50. Razões para não ter voltado a arranjar trabalho como economista, aponta várias. “Tenho uma licenciatura, mas a verdade é que não tenho curriculo. Optei por trabalhar toda a minha vida numa empresa quase familiar para poder dedicar mais tempo à família, por isso nunca criei grandes laços com a classe. Fui fiel ao meu trabalho, às minhas raízes, às amigas que criei na fábrica quando trabalhava e estudava, e investi tudo numa vida familiar estável. Era feliz assim, não esperava que a vida me desse tantos pontapés. Hoje, o que me vale é o amparo do Carlitos (o filho). Não lhe consegui dar condições para ser advogado, ficou-se pelo liceu. Trabalha a recibo verde num centro comercial, sempre na incerteza do amanhã, vamos ver até quando isto dura e se consegue arranjar alguma coisa melhor”.
Quanto a Ângela, já não tem esperança em melhores dias, porque desistiu de viver. Posta perante a hipótese de arranjar um emprego aos 57 anos, responde sem hesitação: “ Já sofri que chegue na minha vida. Agora, espero que a morte me devolva a felicidade que a vida me roubou”.
(este texto, tal como o de ontem, faz parte de um conjunto de reportagens que fiz para a revista "Dirigir" sobre o tema: "Desemprego depois dos 50: vidas cheias de nada?")

O amigo americano


Decorreu, em Lisboa, a Cimeira Ibero-Americana. O tema central em discussão era a Inovação e Conhecimento mas, como já aconteceu em anos anteriores, o enfoque acabou por cair num problema regional:a situação nas Honduras. A maioria dos 22 países ( 19) condenou o golpe que destituiu Zelaya, mas a força de um homem que, mesmo sem ser convidado, esteve presente, impediu uma condenação unânime.
Quando Obama foi eleito, escrevi que a sua credibilidade futura passaria, em muito, pela atitude que tivesse em relação à América Latina. Dei-lhe o benefício da dúvida, mas enganei-me. Ao apoiar os golpistas, Obama mostrou ao mundo que não está ao lado da paz nem da democracia.
A América Latina é uma zona do globo onde alguns aventureiros continuam a chegar ao poder, montados às cavalitas dos EUA. Enquanto assim for, o terreno está minado, o caminho aberto a líderes populistas e a democracia cada vez mais longe. Tal como os seus antecessores, Obama apoia criminosos como Uribe e foge de líderes democratas ( mesmo conservadores como Zelaya), porque na verdade olha para a América Latina como uma coutada. Os EUA não querem no poder democratas, querem marionettes que lhes abram os braços à instalação de bases militares e permitam a exploração dos recursos naturais dos países latino-americanos em troca de mordomias pessoais.
Obama não percebeu que a América Latina, apesar de dividida, é a zona do mundo com mais potencial de crescimento e um dia lhe pode estoirar nas mãos um problema incontrolável, por continuar a apoiar as ditaduras das oligarquias.É que, tal como acontece nas Honduras, onde Zelaya pretendeu reduzir o poder de meia dúzia de famílias que controlam o país, ou na Colômbia, onde o aliado Uribe é um barão da droga, há outro países na região cobiçados pelos piores criminosos do planeta. Os americanos nunca mais aprendem a ver o mundo para além do cano de uma arma, ou dos benefícios que podem extrair dos seus aliados. Mesmo que sejam aliados de circunstância.