Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Recordações de professores


Os professores exercem uma das mais nobres profissões do mundo. O seu esforço e a sua dádiva nem sempre são reconhecidos em Portugal, mas o mesmo não acontece, por exemplo, na China, onde o professor primário é visto como uma pessoa de família, pelos familiares dos alunos.
Tive, ao longo da vida, professores excelentes, apenas bons e medíocres. O meu professor primário - de que já vos falei aqui - era na realidade um professor medíocre, mas visitei-o muitas vezes ao longo da vida, até à sua morte.
No Liceu tive alguns professores excelentes, de quem guardo belíssimas recordações. Ainda sou amigo , por exemplo, do meu professor de Filosofia que, embora sendo padre, é de uma grande abertura de espírito. Lembro-me com saudade do meu professor de Português, mau como as cobras, mas com uma tal sensibilidade, que chorava como uma Madalena nas aulas, quando nos falava de alguns autores portugueses. Ainda hoje sinto um arrepio, quando me lembro das aulas em que ele recitava de cor longos excertos de “Os Lusíadas” e as lágrimas lhe escorriam pela face, em catadupa. Poderia aqui citar a minha professora de História, que me fazia voar no tempo, com a sensação de estar a viver na época de que ela falava, ou a empertigada e irritante professora de inglês que eu detestava, porque me castigava nas notas por considerar que eu não me esforçava para ser melhor aluno. Quando, no exame do antigo 5º ano ( actual 9º), tive 18,9, disse-me “mas podias ter tido 20!”. Depois, perante o meu ar incrédulo e desesperado, agarrou-se a mim a pedir desculpa pelos três anos de sofrimento que me fizera passar e arrematou: “mas valeu a pena!”.
Poderia contar-vos muitas histórias, mas hoje quero falar de um professor que tive na Faculdade de Direito. Era um péssimo professor. Ignorante, inculto e fascista, foi responsável pela minha expulsão da Faculdade. Devia estar-lhe grato por isso, pois foi graças à expulsão que a minha vida ganhou um novo rumo, mais consentâneo com as expectativas que eu tinha. Mas não estou e continuo a sentir o mesmo rancor por aquela figura sinistra que era o terror dos alunos de Direito. Descobri isso há dias, quando passou por mim à porta da Versailles. Quando vi aquela figura repelente, agora carcomida pela idade, a minha vontade foi apertar-lhe o pescoço, cobri-lo de porrada, até ficar ali estendido, à espera de uma ambulância do INEM que o conduzisse ao Hospital.
Tal como alguns amores, alguns ódios não se explicam. Não é o caso deste. Sei que foi sempre uma figura detestada. Nem Marcello Caetano o suportava. Mas nunca pensei, até este reencontro, que ainda pudesse despertar –me tento desprezo, volvidos quase 40 anos!

13 comentários:

  1. As nossas vivências são do caraças, também tenho os meus ódios de estimação ao longo da minha formação, felizmente que são muitos mais aqueles que me deixaram boas recordações e ensinamentos para a vida.
    abraço e boa semana

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  2. Bolas!
    Avisa-me quando te pisar os calos, sim?! Grata!:)

    Há coisas assim: que nos surpreendem, realmente!
    Um bom exercício para me ir lembrando daqueles que foram passando por mim nas Escolas!:)

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  3. Pois é, meu amigo, há mágoas que ficam para sempre... e no entanto é graças a esse repelente senhor que temos a alegria de te-lo aqui conosco no seu Rochedo... rs...
    Não se se o ajudo a esganá-lo, ou se o aplaudo pelo amigo que me permitiu ter...

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  4. Ainda é vivo?! Vaso ruim não quebra.

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  5. Chamemos-lhe uma memória visceral.

    Não tenho nenhuma assim tão exacerbada como a sua. mas também tenho memórias de pessoas que pura e simplesmente não gosto nada.

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  6. Essa do rancor com o professor de Direito lembrou-me uma que me contou aqui o protagonista da história (o Tásio, um homem na casa dos 50) sobre um mestre da primária que era ruim como o carne do pescoço (do frango... Não sei porque se diz assim, eu até gosto de pescoço...). Há uns anos o mestre regressou e ia acompanhado dum taxista de cá, que ao ver o Tásio, chamou por ele e perguntou-lhe, todo eufórico.
    -Então, Tásio? Não te lembras deste homem?
    E o Tásio lembrando muito bem o mal que fizera e a pancada que repartira aquele besta, sobretudo com os mais desfavorecidos, disse para o velho mestre reformado, com toda a calma:
    -Ainda não morreste, filho da p***?! (Com todas as letras, que já sabe, cá estamos ao norte do norte.)

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  7. "Quem não se sente não é filho de boa gente"....
    Curiosidade feminina:
    Ele reconheceu-o?
    Cumprimentaram-se?
    XX

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  8. Ri sozinha e longamente aqui com o final do seu post.Eu, pessoa aparentemente tão contida, doce e generosa com o próximo, tenho tb desses arroubos.E tanto de ódio qto de amor e não importa qtos anos se passaram.
    Muitas pessoas eu já perdoei, mas em um dado momento, frente à frente e depois de anos, vejo florescer esse sentimento, ou melhor, vontade, que sobe como um cometa dentro de nós, sem sabermos aonde vai dar.
    Mas depois passa...rsss...
    Adorei!!!

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  9. Ainda bem que o meu amigo se conteve nessa enorme vontade de cilindrar o tipo com uma carga de lenha à moda antiga ... a esta hora era arguido num processo por ofensas corporais, no mínimo, e sem ter direito ao galarim de outros cromos que graças a tal estatuto são figuras de proa :))

    Mas reconheço o sabor dessa cicuta pois também tive uma, por sinal de Filosofia, de seu nome Carlota a quem qualquer suplício que se pudesse inflingir seria ternura!

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  10. Ri-me com gosto ao ler este post. Também tenho recordações dos meus tempos de estudante que demonstram o quanto alguns dos meus professores eram reles. Uma minha professora passou uma tarde inteira a cuspir sangue para uma caneca da cantina onde nós, crianças, costumávamos tomar o café com leite da manhã. Tinha umas gengivas inchadas e arroxeadas que até metiam nojo! Um dia avistei-a em fato de banho, branca como a cal, esparramada no areal de uma praia, deu-me vómitos olhar para aquele monte de carne e apeteceu-me cuspir-lhe em cima. Esta professora, numa dada altura, humilhou-me de tal maneira que durante dias e noites sucessivas mal dormi, a imaginar formas de a matar! Imaginava-me a esmagar-lhe a odiosa cabeçorra. E o prazer e alívio que isso me dava! Tive uma outra professora que por estar grávida levava para as aulas o tricô e lá ia fazendo casaquinhos e botinhas para o ser que haveria de nascer, enquanto duas alunas repetentes nos corrigiam os trabalhos e faziam as vezes da professora. São tantas as recordações miseráveis sobre os meus antigos professores que dariam para escrever um livro, porque há detalhes que mereceriam uma apurada dissecação. Havia também um professor que só a invocação do seu nome inspirava o terror! Actualmente a coisa fia mais fino...

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  11. Maloud: Vivo e gaiteiro, apesar da velhice. está conservado em maldade!

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  12. Papoila: Se eu lhe tivesse tocado, não era para o cumprimentar...

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  13. Tenho mantido uma memória, não de elefante mas de algum acesso aleatório, que volta e meia me invade o processador com recordações fantásticas. Eu também tive o meu professorzinho de estimação e que aqui já contei. O que não disse foi que muito depois da última aula cruzei com ele num dos centros comerciais da cidade. Fintou-me por cima dos mesmos óculos e esboçou o mesmo sorriso sarcástico. Fiz de conta que o vi, levantei a cabeça e passei por ele a bufar a baforada do meu cigarro na sua direcção, como que a dizer: Anda, vai agora contar ao meu pai!

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