Na terça-feira, pouco antes de eu deixar Lisboa, a Lúcia fez um comentário a este post e o meu amigo João Figueira, lançou fez a apresentação do seu livro "Escrever em Liberdade". Foram esses dois factos que me levaram a escrever este postal.
Na verdade, uma das primeiras coisas que me ensinaram, foi que um jornalista se deve basear nos factos. Não inventa nem manda palpites nos artigos e reportagens que escreve. Deve, também, confrontar as suas fontes, para não cair na esparrela de se colocar ao seu serviço. Um jornalista não é um "criativo" é um narrador de factos e a sua credibilidade avalia-se na medida da sua isenção.
Nessa altura, não havia cursos de jornalismo e aprendíamos com os mestres que estavam nos jornais, nas rádios e na RTP. Trinta anos depois, há mais cursos de jornalismo que WC públicos e, no entanto, há cada vez mais jornalistas a "inventar". Afinal para que servem os cursos de jornalismo?
Para ensinar os jornalistas a escrever? Basta ver os erros de ortografia e de sintaxe nos nossos jornais, para perceber que não.
Para sensibilizar os jornalistas para a necessidade de serem isentos e só escreverem sobre factos que tenham a certeza que são verdadeiros? Os últimos anos têm demonstrado que há cada vez mais jornalistas a opinar nos jornais, rádios e televisões e que a preocupação em dar notícias foi substituída pela necessidade de dar voz a rumores, baseados em fontes que nunca saberemos se existem, ou foram criadas à mesa de um restaurante.
Poderia multiplicar as perguntas e dar as respostas, mas fico-me por aqui. Sei que nas escolas não se ensina este jornalismo "criativo" e que ele nasceu da necessidade de vender jornais. Mas se as escolas de jornalismo não conseguem combater esta tendência do"jornalismo de intervençaõ", qual é a necessidade de existirem?
Saudades para todos. Continuem a passar por aqui, porque apesar de estar longe, haverá posts novos todos os dias e, durante o fim de semana, tentarei dar resposta aos vossos comentários.
Ah e boa viagem. Divirta-se e traga-nos novidades.
ResponderEliminarHá um tema em que raramente vejo qualquer jornalista ser isento: o futebol
ResponderEliminarPartilho da ideia de que há cursos de jornalismo cuja existência é questionável. Mas acredito que mesmo desses cursos saiam licenciados conscientes da sua função e objectividade deontológica, assim como licenciados de cursos rotulados como de excelência a saírem da faculdade para escrever de seguida umas quantas baboseiras.
ResponderEliminarEm primeiro lugar porque hoje em dia os mestres não perdem tempo a ensinar os aprendizes. Ou eles sabem, ou sopas. E mesmo os que sabem é provável que ao fim de 3 meses de estágio levem um pontapé no cu porque a mão de obra é gratuita e a seguir vêm mais em fila. As contratações são um golpe de sorte de apanhar a milagrosa vaga, ou um golpe de cunha. Neste último caso, está justificado o mau jornalismo praticado, porque a qualidade não é para aqui chamada.
Creio que há trinta anos existia uma profissão que era a de revisor, extinta actualmente. A internet também veio acelerar de forma desumana o ritmo de produção de notícias, nomeadamente as publicadas na internet. Vou ter de recorrer ao cliché do "depressa e bem...", porque faz sentido. E se há erros de ortografia ou gramática, estes não são desculpáveis, embora uma pequena percentagem possa ser fruto de distracção (uma vez escrevi Mickael Jackson, e não foi por não saber inglês - aprendido no ensino secundário, que no curso de jornalismo que tirei não há cá idiomas no currículo).
Quanto ao inventar em oposição ao basear em factos, estou mais uma vez de acordo. Note-se apenas que há meios de comunicação onde os jornalistas são induzidos a praticar esse tipo de jornalismo. Mas que paradoxo este de condicionar profissionais que escolheram o jornalismo como ofício. Este paradoxo está respondido através da sua frase "há mais cursos de jornalismo que WC públicos".
Os jornalistas saídos das faculdades não estão em posição de impor as suas posições se querem ter comida na mesa. A vida está muito difícil... mais do que há 30 anos, penso eu de que.
Além disso, se há tantos cursos e tantos formados, porque não se dá oportunidade a outro jornalista que até sabe escrever e conhece o seu código deontológico? Não é possível que em tantos licenciados por ano, a maior parte deles desempregados, não haja uns quantos com qualidade... E não é possível que os "mestres", os superiores hierárquicos não releiam os textos antes de os publicarem...
Peço desculpa pela extensão do comentário e o tempo que eventualmente lhe estou a roubar, mas feriu-me no orgulho, como ex-aluna de um curso de jornalismo :-) mas parece-me que reduzir a incompetência que se vê diariamente a cursos mal estruturados é ignorar toda a conjuntura que os media atravessam actualmente.
Bem, eu que não me acho assim uma expert na língua portuguesa, afinal tenho lá os meus defeitos, era uma das melhores alunas da classe do curso de Jornalismo.
ResponderEliminarÉ melhor nem falar dos piores...
Depois ainda tinha aqueles que tinham "preguiça" de verificar os dois lados da história ou então a veracidade da informação fornecida pela fonte de carater duvidável.
Minha primeira decepção, já na vida real, aconteceu quando descobri que a isenção não existe. Nos locais aonde trabalhei sempre existiu a pressão política ou econômica nos censurando.
Carlos,
ResponderEliminarNa verdade parece que hoje em dia interessa é vender jornais, com notícias, se necessário, forjadas, inventadas, sem isensão. Mas olhe que isto já existe desde que estivemos em Macau. Eu sei de um caso (passou pelas minhs mãos) que havia aqui um jornalista, que numa época pouco propícia para Macau, escrevia artigos que só levantavam mais a "questao". Que fazer? Convida-lo para uma visita ao território com todas as mordomias para ver "in loco" e depois dar-lhe todos os meses uma avença. A partir daí nunca mais "chateou".E se eu dissesse o nome...nem acreditava!
Sara: Talvez me tenha exprimido mal... Não pretendi denegrir os cursos de jornalismo, mas apenas chamar a atenção para o facto de não poderem influenciar a existência d um melhor jornalismo.
ResponderEliminarCreio que o fim dos revisores é, na verdade, uma das causas dos erros que vemos constantemente nos jornais, mas o que falta ao jornalismo em Portugal é investigação, reportagem e proximidade com as pessoas. O que não é culpa dos jornalistas, obviamente, mas sim de quem é detentor dos títulos.
Obrigado pela visita e pelo eexcelente comentário.
Patti: Eu também não, mas o desporto é um campo onde pedir isenção é quase impossivel. Preocupa-me mais ver jornalistas que não são isentos em matéria político-partidária. Isso é que é preocupante!
ResponderEliminarPatti: Eu também não, mas o desporto é um campo onde pedir isenção é quase impossivel. Preocupa-me mais ver jornalistas que não são isentos em matéria político-partidária. Isso é que é preocupante!
ResponderEliminarTurmalina: Infelizmente, hoje em dia, o jornalismo isento é quase inexistente. Partilho da mesma decepção.
ResponderEliminarTurmalina: Infelizmente, hoje em dia, o jornalismo isento é quase inexistente. Partilho da mesma decepção.
ResponderEliminarObrigada pelo seu feedback!
ResponderEliminarConcordo que "o que falta ao jornalismo em Portugal é investigação, reportagem", quanto á proximidade com as pessoas penso que por vezes tem e até demais.m
Mas acrescento que sem proprietários conscientes do que é possuir um meio de comunicação social/ concentração de propriedade que se vê hoje em dia/ excesso de mão de obra pronta a ser explorada e condicionada, essa falta de jornalismo de investigação (em oposição ao spin doctoring actual) deixará sempre um buraco à sua volta.
E eu tenho pena, porque tirei o curso e não me deixam fazer aquilo para que tanto trabalhei... ser jornalista!
Bom fim-de-semana :-)