Domingo, 22 de Novembro de 2009

Brites e os meandros da justiça

Hoje vou escrever sobre um assunto sério: a justiça.
O problema é que não consigo escrever sobre esta matéria sem me lembrar das revistas cor de rosa. Leio nos jornais notícias sobre os casos “Face Oculta”, “Operação Furacão” ou “Freeport” e lembro-me logo das telenovelas da TVI. Ainda não acabou uma e já estão a iniciar outra, para garantir a fidelização dos telespectadores.Com os processos mediáticos em curso, acontece exactamente a mesma coisa.
Tudo começou com o caso Casa Pia. Ainda me lembro da entrada do juiz Rui Teixeira na AR, acompanhado de câmaras de televisão, da prisão de um deputado, os jornais e revistas a fazerem todos os dias listas de pedófilos, envolvendo políticos e figuras do jet set, cada um tentando ser mais imaginativo que o outro. A coisa prometia um sucesso idêntico ao da primeira telenovela exibida nas televisões portuguesas: Gabriela Cravo e Canela. Portugal acreditou que, finalmente, os poderosos se iam sentar nos bancos dos réus.
Passaram cinco anos, ainda não há sentença e li um destes dias que tudo vai acabar com uma pena suspensa ao Bibi. Quanto aos outros, o segredo é total, mas pelos livros que já li da Agatha Christie, parece-me que vão ser todos absolvidos. Não se sabe é ainda quando será o último episódio desta novela, iniciada há cinco anos...
Entretanto, estrearam-se outras com protagonistas variados. Desde ex- membros do governo de Cavaco Silva a conselheiros de Estado, passando por ministros, empresários e até pela participação especial de um primeiro-ministro, tem havido elencos para todos os gostos. Em breve, a PJ e o MP prometem um novo argumento envolvendo submarinos, o líder do Partido Popular, um banco e o mais que adiante se verá, mas só será revelado depois da estreia.
Eu gosto de seguir estas novelas da justiça, mas começo a ficar um bocado frustrada porque não vejo nenhuma chegar ao fim. Tenho a sensação que tudo não passa de um conluio entre a comunicação social e os agentes da justiça, num esforço louvável de vender jornais. Eu compreendo que este encadeamento das novelas da justiça empolgue as pessoas e tenha reacções acaloradas em alguma blogosfera, com os opinadores a dividirem-se na defesa ou no julgamento público dos actores principais, consoante os gostos. Não descortino é opiniões fundamentadas, racionais, capazes de me empolgarem pela clareza dos argumentos invocados. Confesso que começo a ficar farta e a sentir-me enganada. Ou acabam rapidamente com duas ou três destas novelas, dando-nos a conhecer o fim, ou ainda acabo a acreditar que estes argumentos, sem final à vista, servem apenas para nos encher os olhos com bonitos efeitos especiais, mas não têm qualquer substância.
Claro que de vez em quando as guerras entre juízes, as notícias especulativas – ou mesmo falsas- veiculadas pela comunicação social, os diálogos inflamados entre personagens com opiniões opostas, os delírios de Manuela Moura Guedes, que passou de protagonista a personagem de terceiro plano, ou a entrada de um famoso futebolista no argumento, são momentos que ajudam a animar e a criar suspense, mas sinto que me andam a empatar e eu quero é conclusões.
Ora, o que me parece, é que a justiça e a comunicação social portuguesas andam a fazer concorrência desleal à Endemol e à Globo mas, novela por novela, prefiro as de ficção, porque as da vida dos humanos fazem-me sentir que imigrei para um país que parece saído de uma revista cor de rosa. E, como diz muito bem a minha madrinha, é altura de começar a pensar em coisas sérias…
ADENDA: Acabo de saber que a minha madrinha deu uma queda, está internada no Hospital, depois de ter sido submetida a três operações cirúrgicas .
Desejo-lhe rápidas melhoras, madrinha. Gosto muito de si e gostava de ter a sua coragem!

9 comentários:

  1. Digamos que o modo como expõe e vê a actuação da justiça é um pouco leve e muito pouco informada, talvez agravada pelo facto de os meios de comunicação em massa fazerem o que podem para nada de concreto noticiarem e, aparentemente, tecerem teias de desinformação à volta dos casos mais mediátiucos. Por interesse?
    A justiça é lenta, porque lentos são os caminhos estabelecidos para a conclusão de um processo. Embora isso nem sempre justifique tudo.
    Certamente não queria que em processos onde são arguidos pessoas "espertas" deste país, que andaram a armadilhar, durante anos, vissem desvendados os seus "trambiques" bem planeados, quantas vezes com ajuda de pessoas formadas em economia, gestão, etc, no tempo do telejornal. A justiça não tem um contrato com Deus nem com a Senhora de Fátima, nem o titular do processo tem apenas aquele para decidir e tramitar...
    Não há super-homens, nem super mulheres, somente pessoas.
    E depois a prova é muito difícil de obter, só lendo e percebendo o C.P.P. se pode ver como os juízes se encontram atados de pés em mãos em relação à obtenção de prova tal é o garantismo (dos arguidos) subjacente à sua obtenção e aos meios de prova. O caso e descaso das escutas do processo "face oculta" é só um exemplo.

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  2. Em relação á justiça, era importante uma reforma digna. E que se acabassem os corporativismos.

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  3. Petra: Não ligue muito ao que diz a Brites...ela é uma cotovia e gosta mais de ler revistas cor de rosa, do que de política ou de justiça. Claro que depois põe-se a escrever sobre aquilo que ouve no café e dá isto...
    Muito obrigado pela visita e pelo comentáio.

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  4. Lúcia: Os corporativismos e a tentação mediática, já agora...

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  5. Brites querida...eu lí lá o que aconteceu com sua madrinha.Éspero que ela se recupere logo.
    E quanto ao post de hoje , eu já disse que novelas fazem mal...

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  6. Amigo Carlos Barbosa Oliveira confesso que cheguei a temer o pior quando anunciou que ia escrever sobre um assunto sério chamado JUSTIÇA. E digo isto porque entre nós ela nos tem brindado com momentos de verdadeiro delírio, loucura e o que mais se possa imaginar.

    Basta consultar e ler as profusas e venerandas sentenças e acórdãos que são publicados nos sítios electrónicos.

    Vi aqui quem se insurgisse contra esta sua análise porque aparentemente feita sem profundo conhecimento de causa. As notas deixadas naquela resposta ao seu texto devem, isso sim, adicionar-se ao mesmo e não funcionar como oposto.
    Pois se é verdade que, nalguns casos, o arguido beneficia de um conjunto alargado de garantias, dêem-lhe um advogado oficioso e logo verão para onde vão as garantias!
    E sim, também é verdade que existem actores judiciais que não fazem a menor das ideias do que por lá fazem ou a quantas andam!

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  7. Turmalina: Já estou farto de avisar a Brites, mas ela está uma aficcionada e quer saber tudo sobre as "stars". Tadinha, espero que se canse tanto como já parece cansada das questões da política e da justiça.

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  8. Ferreira-pinto: Eu avisei a Brites que não devia escrever sobre justiça, porque a vida m tem mostrado que, perante uma mesma situação, dois advogados têm sempre opiniões diferentes. Aliás, foi por isso que há tempos também eu escrevi aqui que a justiça é uma roleta russa e, se algu dia tiver o azar de ser julgado por ela, só espero que me saia a rifa premiada.

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  9. Ó minha passarinha linda

    A madrinha partiu a pata em três sitios, a cirurgia foi toda a mesma.
    A justiça deste país é um mistério insondavél, novelas?!
    A realidade ultrapassa qualquer ficção!

    Beijinhos e não apanhes frio

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