segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Berlim: o outro lado do Muro

Faz hoje 20 anos que começou a queda do Muro de Berlim. Todo o ocidente festeja a data como o triunfo do Bem sobre o Mal. Estava suficientemente longe da Europa, nessa época, para poder ver, com alguma equidistância esta vitória e já expliquei, aqui, as razões porque não celebro.
Vinte anos depois, mantenho a opinião que exprimi na altura. Sustentado na minha convicção pessoal, mas também nos muitos testemunhos que li, ao longo dos últimos dias, na imprensa, de pessoas que viviam em Berlim oriental. Mais do que a vitória do liberalismo sobre o comunismo, a queda do muro de Berlim representou a vitória da Internacional Consumista sobre a Internacional Comunista.
O génio do Mal - que punha barreiras às exportações dos produtos e culltura ocidentais- foi subjugado com o desmoronamento do Império soviético e não tardou a estender a mão ao ocidente, pedindo auxílio. O delírio inebriante da vitória foi tão grande que até permitiu esquecer que o fundamentalismo islâmico estava prestes a triunfar numa Argélia que fica a dez braçadas da Europa.
O importante foi que a vitória permitiu que do Atlântico aos Urales, todos os europeus passassem a ver, especados diante da pantalha, noticiários lidos pelo Rambo, ou seguir atentamente as peripécias de seriados protagonizados por Gorbachev ou lmelda Marcos, enquanto trincavam amendoins e bebiam coca-cola, deformando-se na obesidade do corpo e do espírito.
O importante, verdadeiramente importante, foi que a queda do muro de Berlim,permitiu aos nossos irmãos do Leste Europeu desfilar sob a Bandeira da Internacional Consumista e desaguar, felizes, nos hipermercados do supérfluo e do desperdício, cujas portas lhes foram franqueadas por magnânimos empresários ocidentais.
O verdadeiramente sublime foi que de S. Francisco a Moscovo, passando por Lisboa, Praga ou Budapeste, todos sem excepção, passaram a confraternizar nos espaços standardizados dos "Pizza Hut", "Mc Donald's" e quejandos, verdadeiros laços de comunicação entre os povos. Na verdade, o que aconteceu nos países de Leste não foi apenas a queda do comunismo. Foi o triunfo do consumismo que levou à queda de Gorbatchev e seus pares, incapazes de garantir aos seus povos o acesso generalizado ao automóvel, ao vídeo, aos cartões de crédito e a toda a parafernália de bens de consumo que o ocidente propagandeava como imagem de marca.
A explicação, sem pretender ser demasiado simplista, encontra-se na própria História. Os povos sempre aspiraram à diferença, à sua imagem de marca. Os países mais ricos e desenvolvidos, foram criando produtos que lhes garantiam esse direito à diferença. Quando se cansam deles, criam outros novos e exportam os velhos para países menos desenvolvidos. Criou-se assim uma cadeia consumista que permitia aos países produtores, transformados em manequins do Mundo, criar nos povos dos países receptores a sensação que o seu nível de vida estava a aumentar, porque os seus padrões de consumo se assemelhavam aos dos países mais ricos (passa-se pois, à escala quase mundial, o que se verifica nas sociedades dos países capitalistas: quando os estratos sociais mais baixos têm acesso aos produtos reservados às "elites", já estas se desinteressaram deles).
Uma pequena pedra na engrenagem, refreou os entusiasmos ocidentais. Um dia, ao acordar, o ocidente reparou que as regras do jogo se tinham alterado. Por um lado, os países do Terceiro Mundo cansaram-se de ser caixotes do lixo do Ocidente, o que se agravou com a expansão do fundamentalismo que, como é sabido, recusa os valores e produtos ocidentais, “origem de todos os males”. Por outro lado, os "dragões" asiáticos, (China, Índia,Coreia, Japão, Singapura e Taiwan) emergiram, disputando mercados ao Ocidente e penetrando mesmo no seu mercado interno.
O jogo do Poder, neste final de século, joga-se num tabuleiro de Monopólio em busca de mercados. Tudo se joga na área da produção e do consumo. Daí, que a abertura dos mercados de Leste fosse saudada de forma exuberante pelo mundo ocidental. Era a possibilidade de exportar os "American Express”, os "Chanel", os "Benetton" e outras maravilhas ocidentais menos sonantes que não encontravam escoamento "intra muros" e que a florescente economia paralela nos países do Leste promovia e comercializava.
Apesar do desencanto vindo do Leste, a Internacional Consumista continua a apascentar sonhos. É ela que nos alimenta a ilusão de um dia, se nos portarmos bem, concorrermos a muitos concursos por ela promovida, jogarmos no Euromilhões, Totobola, Totoloto, Lotaria e demais jogos de fortuna e azar, podermos trocar o andar na Brandoa por outro no centro de Lisboa e o Fiat Uno por um Audi. É a fé que depositamos na Internacional Consumista que nos permite acalentar a esperança num futuro melhor, se nos rodearmos de máquinas de que não precisamos, ou não sabemos utilizar, de fruirmos a sensação inebriante de estarmos a ver, num televisor igual ao do Bill Gates, o mesmo anúncio que promove o automóvel conduzido pela Angelina Jolie, ao qual teremos facilmente acesso se recorrermos a uma instituição de crédito que todos os meses nos leva dois terços do salário, com que pagamos a nossa vaidade.
A Internacional Consumista esvazia-nos os bolsos, mas enche-nos de dívidas e ilusões. Dá-nos facilidades na compra de vídeos e televisores para, através deles, podermos ver as maravilhas que criou: uma parafernália interminável de artigos, essenciais ou supérfluos, que podemos comprar (ou até ganhar ... ) no caso de utilizarmos um cartão de crédito. É o suficiente para nos sentirmos felizes. Mas que tal tentarmos ver o Muro dos dois lados?

24 comentários:

  1. A Alemanha está em festa: o Muro de Berlim tombou há 20 anos.

    A Alemanha de Walter Ulbricht e de Erich Honecker deixa parecer o Portugal no tempo de Salazar um Paraíso.
    A maioria dos Alemães de Leste não queriam "bananas", meu caro Carlos, mas sim LIBERDADE!!!

    O "seu amigo Saramago" disse há pouco, que o "comunismo falhou", uma sabedoria tardia. Nós, já sabemos isso há mais de 20 anos!

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  2. Eu nunca conseguirei ver o Muro do lado que separa. Temos pena!
    Prefiro mil vezes viver em consumismo e ter liberdade de até não o ser, do que, pura e simplesmente, me porem um muro à frente e obrigarem-me a não ir para onde quero e por onde quero.
    Sei do que falo, Carlos e sei que na minha família sofreram por causa desse Muro.

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  3. Subscrevo inteiramente este post e não acrescento mais nada, pois vai ao encontro do que postei hoje acerca dessa efeméride.
    Parabéns pela assertividade!

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  4. Para fortalecer a sua tese, aí vai um link: http://avante.pt/noticia.asp?id=31177&area=8

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  5. O acontecimento da "queda do muro de Berlim", muito simbólico pois a abertura (que não era apenas uma corrida ao consumismo) já estava acontecendo pela fronteira da Hungria desde há bastante tempo, temos de concordar que foi de uma mestria diplomática fora do vulgar ter acontecido como aconteceu.
    Já visitei Berlim várias vezes ao longo destes anos e para além do folclore do consumismo que refere o que impressiona é a organizada maneira como naquela cidade se tenta apagar a história. Aos poucos, entre os MacBurgers e as camisolas Benetton made in china surge a Alemanha prussiana em todo o seu esplendor.
    Assustador.

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  6. Mas seja como for, o Muro caiu. A sociedade continua tão imperfeita como sempre, mas, pelo menos, o Muro caiu...

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  7. Estranho conceito de liberdade de alguns dos comentadores que conseguem "passar por cima" de todos os outros muros erigidos após o derrube desse...

    Como já estou careca de dizer, são muros que não são muros...tanta hipocrisia.

    Excelente texto.

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  8. Também eu acho as imagens dos dominós belas demais, por isso acabo de publicar as fotografias das vítimas do Muro da Vergonha!
    Os alemães não festejam a queda de um muro, mas sim o desmantelamento de um regime totalitário.
    Mais tarde vou também comentar sobre os outros muros: como em Gaza, na fronteira dos EUA com o México ou na Eslováquia, que tirando a Eslováquia não dividem o mesmo povo.
    Sobre os homossexuais do José António Saraiva também quero dar a minha opinião.

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  9. Em resposta ao seu comentário no meu blogue, fico muito elogiada.
    Um abraço
    da Adriana

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  10. Acho que ainda não está em Portugal nas salas, Carlos, mas recomendo-lhe que veja o filme Frozen river. Saí dele sem saber o que pensar, e pensando, pensando muito, como quando leio textos assim brilhantes. As prioridades neste mundo nosso...

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  11. Não estou de acordo consigo , Carlos.
    Mas a sua visão está muito bem escrita, como sempre.
    :))

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  12. Não sou de fazer elogios. Ao longo da vida tenho procurado a objectividade, sabendo,embora, que nada há de mais subjectivo do que a objectividade.
    Posto isto quero dizer-lhe que raramente se encontra tanta lucidez e observações acertivas como neste texto.
    Estive em Berlim algumas vezes,antes e depois do muro ter tombado, atravessei para o "lado de lá" pelo Charlie Check Point.Sei do que fala.
    Se me permite, assino por baixo, por inteiro.
    Abraço
    --
    PS - Vi, pela TV, a história do dominó. Hollywood não faria melhor! O que eu não vi foi dos escombros do muro soltarem-se vontades para derrubarem outros muros:
    Estados Unidos/México.
    Chipre, Gregos/Turcos.
    Coreia, Norte/Sul.
    Cisjordânia, Judeus/Palestinianos.
    Irlanda, Católicos/Protestantes.
    Rio de Janeiro, Favelas/Cidade.
    Mediterrâneo marroquino/espanhol, Imigrantes/Espanha, com arame farpado.
    Eslováquia, Eslovacos/Ciganos

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  13. Vou fazer link, Carlos. Obrigado.
    Um abraço :)

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  14. Ematejoca: É óbvio que o comunismo falhou nos países do Leste Europeu, mas o Saramago não é meu amigo, apenas tive o prazer de o conhecer e de apreciar os seus livros.
    Fico à espera dos comentários prometidos.

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  15. Gi: Já me "conhece" há tempo sificiente para saber que o valor que eu mais prezo é a Liberdade. Por isso gosto de ver as coisas de ambos os lados, porque quando nos habituamos a ver as coisas só de um dos lados, corremos o sério risco de nos enganarmos. Leu "As cruzadas vistas pelos Árabes" do Amin Malouff?

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  16. Maldonado: Já li e comentei o seu post. Congartulo-me por estarmos de acordo.

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  17. Annie: muito esclarecedor o seu comentário. Já não vou a Berlim há vários anos e não tenho nenhum bocado do muro em casa. O folclore não é relamente o meu forte, por isso também temo essa visão asustadora da próxima vez que lá voltar.

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  18. Blonde: E foi bom que tenha caído. Pena é que depois se tenham construído outros. Não aprendemos nada com os erros.

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  19. Salvoconduto: Omundo está a ficar demasiado inclinado para um dos lados e isso torna-o perigoso.

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  20. sun Iou Miou: deixou-me curioso. Não vou perder...

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  21. Anamar: Não temos de estar sempre de acordo. Aliás, o grande problema do mundo ocidental, é que há lideres políticos que querem impôr o pensamento único.

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  22. Carlos: muito obrigado pelas suas palavras.
    Na verdade, o que mais me impressiona é a indiferença- e por vezes aquiescência- de muita gente em relação a outros muros. O silêncio é cumplice e, além disso, gera consensos perigosos para democracia.

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  23. A vaidade humana leva à derrota todos os sistemas.E quem pensa que detém o poder, ao sentir sua vaidade ameaçada, trata de erguer muros, visíveis ou não...e diante dos tantos muros erguidos por aí, o ser humano torna-se cada vez menos livre. E o consumismo escraviza as pessoas sem que elas percebam...pois alimentam, principalmente a vaidade.A sociedade "livre e democrática" está se tornando cada vez mais cega e fútil.Eles não enxergam os muros...

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